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Artigo: Rio de Janeiro, o purgatório dos engarrafamentos e do caos

Por Miguel do Rosário

17 de junho de 2016 : 20h47

Temos a honra de apresentar aos leitores a mais nova colunista do Cafezinho, a advogada feminista Cristina Biscaia, pré-candidata a vereadora no Rio de Janeiro pelo Psol.

Este é o primeiro texto dela no blog, sobre mobilidade urbana, um dos problemas mais terríveis das grandes cidades brasileiras.

***

Rio de Janeiro: purgatório do trânsito e do caos
Por Cristina Biscaia, a mais nova colunista do Cafezinho.

Lembro-me como se fosse hoje, quando eu cursava a sétima série do que chamávamos na época de ginásio, quando meu professor de geografia Toledo disse que um país desenvolvido era um país que investida em transporte e mais especificamente em ferrovias. Vejo como num filme sua imagem desenhando o mapa dos Estados Unidos, como exemplo de uma nação que teria cruzado o país de norte a sul e de leste a oeste com ferrovias, nos riscos que ele fez no mapa todo na horizontal e na vertical.

As Olimpíadas do Rio de Janeiro tiveram como apelo o que traria de legado para cidade em termos de infraestrutura, transporte e desenvolvimento. O evento se aproxima e o canteiro de obras que se tornou nossa cidade, está longe de ter fim e tampouco teremos a garantia que o legado verdadeiramente irá existir após o fim dos Jogos Olímpicos.

A escolha da cidade para sediar o evento ocorreu em outubro de 2009 e já se passaram quase sete anos desde então e parece irreal que os planejamentos estruturais que fizeram parte do portfólio da candidatura da nossa cidade, não estejam prontos ainda e mesmo que venham a ficar, não há garantia que as obras tenham sido concluídas com segurança e qualidade.

A cidade que se torna sede de uma olimpíada precisa pensar em mobilidade, que significa: transporte de qualidade e em curto espaço de tempo. Não consigo acreditar que a solução para a melhoria da mobilidade carioca seja o BRT, ainda que seja uma linha de ônibus expressa e que circula na zona oeste, mesmo assim, acho uma solução pouco eficaz.

Por outro lado, a extensão da linha 4 do metrô até a Barra da Tijuca, deverá contribuir para uma diminuição do trânsito, mas não sabemos ao certo quando efetivamente estará disponível para o uso do morador carioca. Vale lembrar que a escolha do trajeto foi amplamente discutida e optaram por uma obra que não era a melhor opção para a população.

Temos ainda a criação do veículo leve sobre trilhos – VLT, que poderia também se chamar de veículo lento sobre trilhos e que na primeira semana de funcionamento já apresentou uma pane elétrica e parou de funcionar. Tal alternativa de trânsito ligará o Aeroporto Santos Dummont até a Rodoviária Novo Rio, mas andando a 15km/h, resta saber quanto tempo levará a viagem de um ponto ao outro.

Enquanto essas obras do BRT, VLT e da linha 4 do metrô não ficam prontas, o carioca tem vivenciado o purgatório e o caos no transito da nossa cidade. Se locomover no Rio de Janeiro virou uma tarefa de paciência e de exercício de equilíbrio, porque qualquer um está sujeito a perder a sanidade a qualquer momento, haja vista que as ruas fecham e mudam de mão de um dia para o outro e sem nenhuma comunicação eficaz com a população.

Recentemente tive a oportunidade de assistir palestras do Professor David Harley da New York University e compreendi que os grandes centros, hoje, se desenvolvem para atender ao capital, às grandes empreiteiras e às máfias dos transportes.

Há alternativas de transporte que poderiam ser criadas e que, não sabemos por qual razão, são engavetadas. A primeira dela seria a criação de uma barca que ligasse o Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim ao Santos Dummont. Na mesma linha de transporte fluviais, existiu um projeto que criaria diversas estações na Lagoa Rodrigo de Freitas (ilustração acima) para permitir a ligação dos bairros em seu entorno de forma rápida e sem impactar no trânsito.

Meu sonho era poder andar a cidade toda de bicicleta e estava ansiosa para poder estrear a parte da ciclovia que ligaria a Barra da Tijuca até a zona sul, passando pela ciclovia Tim Maia que já estava em funcionamento. Quando houve a queda de parte de sua estrutura pensei que terei que adiar meu sonho, até que essa via seja realmente segura para circularmos.

Quando a Prefeitura do Rio de Janeiro criou a parceria com o banco Itaú para instalar as estações de bicicletas em diversos pontos da cidade, pensei que estaríamos começando a nos tornar uma cidade de primeiro mundo, mas quantos quilômetros de ciclovia foram criados desde que essa parceria começou?

Além disso, a cidade não cria parceria entre os ônibus e o metrô para que as bicicletas possam ser transportadas, não temos sinalização específica e tampouco há uma educação no trânsito que estimule o respeito aos ciclistas. Eu diria hoje para meu professor Toledo, que além de ferrovias, um país desenvolvido é um país de ciclovias, desde que sejam seguras.

O atraso e o caos do transporte do Rio são o retrato do nosso país, que considera um avanço social que as pessoas de baixa renda possam viajar de avião. Porém, ao mesmo tempo, perdem boa parte da nossa produção nas estradas precárias e mal conservadas que cortam nosso território. Mas há quem diga que asfalto é obra que não aparece, que não dá visibilidade política para seus gestores.

Um país com a extensão territorial que o Brasil tem, precisa repensar o transporte como o sustentáculo do seu desenvolvimento ligando certos centros urbanos com ferrovias como Rio-São Paulo, Curitiba-Florianópolis, Aracajú-Maceió, Recife-João Pessoa e todas outras que fossem viáveis geograficamente.

Uma metrópole como o Rio deve centrar todos os seus esforços para aumentar o metrô para a zona norte e baixada, além de criar uma linha que chegue até a Ilha do Governador para facilitar o acesso dos turistas à zona sul. Mas esgotamos as chances de sediarmos novos eventos internacionais por aqui e com o fim do financiamento empresarial de campanha não sabemos quais interesses irão prevalecer daqui por diante.

Espero que o bem estar da população e a melhoria do trânsito, impactando diretamente na qualidade de vida das pessoas seja a prioridade de qualquer governo, mas nem todos tiveram a sorte de serem alunas do Mestre Toledo e o nosso verdadeiro desenvolvimento pode estar longe de chegar.

Cristina Biscaia é advogada, Mestre em Propriedade Intelectual pela Universidade de Augsburg (Alemanha), integra a #partidA feminista.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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6 comentários

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Mikhail_Mil

20 de junho de 2016 às 17h20

Eu até concordo com a boa vontade da advogada em ilustrar os problemas da cidade e a carência de melhorias penetrantes da qualidade de vida e transportes.
Mas tem um erro central, pra dizer a verdade, um erro que é geral que incrivelmente se repetiu mais uma vez.
No Rio de Janeiro(RMRJ) temos 270km de linhas de trens urbanos que foram responsáveis pelo adensamento de vários bairros da ZN, parte da ZO(estes dois primeiros com o auxílio do sistema de bondes) e grande parte da baixada fluminense, ou seja, se não estamos considerando isso é por que a nossa história foi escrita da maneira errada, lida da maneira errada por pessoas que aceitaram errar mas não perceberam.
Não adianta gente, só falarmos em trânsito e metrô, trânsito e metrô, trânsito e metrô como papagaios de piratas de um filme de humor negro sobre mobilidade urbana, São Paulo tem a CPTM para nos demonstrar a capacidade que um sistema melhorado pode oferecer, são quase três milhões de passageiros por dia, eu também não sou fã do PSDB, o Marcelo Alencar que “vendeu” o sistema de trens fluminense e tá aí o resultado do “loteamento ferroviário”.
E outro detalhe, o sistema de trens do RJ é administrado pela mesma empresa que se tornou a ponta do iceberg da operação lava-jato, alguém cassou? Intimou? Não, então a qual conclusão chegamos? Que falar sobre transportes não é falar sobre um mecanismo essencial a uma cidade, que transportes não é objeto de planejamento nas mãos de arquitetos(Jaime Lerner foi introduzido na política aqui no Rio e pra onde ele foi?), técnicos e engenheiros, mas que transporte mais parece que saiu do script de uma novela, daquelas famosas notas quando a notícia poderia ser capa mas não pode senão vai prejudicar alguém que é amigo do patrão do editor, e que infelizmente nessa cidade o sistema de transportes está em mãos erradas e que não são responsabilizadas pelos seus atos e consequências.
Por favor pessoal, lembrem sempre, não existe modal perfeito, o melhor para qualquer cidade, metrópole ou centro metropolitano é uma sociedade consciente das suas obrigações e que nunca se canse de lutar por melhorias nessa questão tão essencial que são os transportes, mas pra isso tem de se ter recursos, e procurem também saber quanto custa a implementação de cada modal e quanto custa manter esse modal.

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Jeane Rosa

19 de junho de 2016 às 13h20

Falando um pouco da pobre zona norte: O corredor Transcarioca foi um desastre piorou o trânsito e muito, deixou os percursos para o BRT muito mais longos e o BRT…ah! O BRT já nasceu morto!!! Virou o inferno diário de milhões de pessoas que vivem esmagadas dentro deste troço subdimensionado ao ridículo.
Agora só nos falta a Transolimpica uma suposta via expressa com 2 pistas somente!!! Velocidade de 80km/h e que dá uma bela volta para atender ao BRT!!! Via expressa dando volta? Duas pistas???

Esta gente acha que nós somo muito estúpidos e muito passivos mesmo!!!!

Agora, mesmo depois do exemplo patético do Engenhão, só nos resta pedir que nenhuma destas obras desabe.

Esta olimpíada é vergonha para o Brasil, nos mostra para o mundo inteiro como povo alienado e submisso à nossa máfia política . Seremos chacota mundial maior ainda que os ridículos deputados querendo fugir da cadeia no dia 17 de abril.

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Mauro Pinto

18 de junho de 2016 às 18h46

Cristina,

eu tive um professor de geografia chamado Toledo, na 6ª ou 7ª série.Um cara muito bem humorado , engraçado, contava muita piada para prender a atenção do aluno.Foi professor no Colégio Marista São José.

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maria nadiê rodrigues

18 de junho de 2016 às 10h00

Quem será o próximo prefeito da bela cidade? Romário? Crivella?
Sinceramente!

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    Jeane Rosa

    19 de junho de 2016 às 13h09

    Para aquela enorme parte da população que gosta de ficar sentada no bar, vendo futebol ou novela e se tem cerveja tá tudo ótimo…sim provavelmente uma destas duas pragas políticas devem ser eleitas.

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Antonio Passos

17 de junho de 2016 às 23h34

Acho que um dos problemas brasileiros é a forma como as responsabilidades sempre são transferidas a entidades “abstratas” como: nossos governantes, os governos, os políticos, etc. As coisas só vão começar a mudar quando todos repetirem “a culpa é nossa”. Realmente as obras olímpicas e da Copa no Rio, são um exemplo perfeito da trágica incompetência nacional. Exemplos ? Depois de milhões gastos no Maracanã e entorno, ficou intacto o ridículo engarrafamento da Quinta da Boa Vista que inferniza há décadas a radial Oeste. Outro exemplo ? A não construção de uma ciclovia na av.das Américas, em vez de uma turística à beira mar. Outros ? O BRT onde se cria uma pista seletiva para NÃO passar ônibus suficientes. As pistas de rolamento com duas faixas e repleta de semáforos, onde o trânsito não anda. A incrível capacidade de fazer obras de um jeito que incomodem ao máximo a população. Ah existem centenas de exemplos. É um retrato triste de um país onde falta uma cultura do “bem fazer”.

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