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PARIS, FRANCE - JULY 10: Cristiano Ronaldo and Eder of Portugal celebrates after Portugal's 1-0 win against France during the UEFA EURO 2016 Final match between Portugal and France at Stade de France on July 10, 2016 in Paris, France. (Photo by Stanley Chou/Getty Images)

Pelos imigrantes

Por Luis Edmundo

12 de julho de 2016 : 14h02

Foto: Getty Images

Por Luis Edmundo Araujo, editor de esporte do Cafezinho

Na disputa dos últimos anos pelo posto de melhor jogador do mundo havia, sempre houve por parte da nossa grande imprensa corporativa uma certa tendência, a preferência às vezes sutil, outras nem tanto, pelo argentino Lionel Messi, silencioso, avesso a declarações polêmicas, na dele, genial dentro do campo e, agora, condenado na Espanha por sonegação milionária, e em euros, o que para a mídia nacional, convenhamos, nem costuma ser tratado como um crime tão grave assim. De Cristiano Ronaldo víamos as caras, as bocas, um pouco das grandes jogadas, arrancadas, golaços e a ajeitada no cabelo, a mirada no telão e mais toda a gama de trejeitos que ele continuará a fazer após a conquista da Eurocopa, inédita para Portugal. Por isso a surpresa com a referência clara do capitão da seleção portuguesa, com o agradecimento direto dele aos imigrantes em meio à multidão em festa, o que em tempos de craques e ex-craques omissos ou dissimuladamente golpistas, com raras exceções aqui e lá fora, já é um alento.

A Eurocopa não começou bem para Cristiano Ronaldo, que passou em branco nas duas primeiras rodadas, exagerou na vaidade na estreia ao ignorar o capitão adversário, mexendo com os brios de toda a Islândia, e ainda perdeu um pênalti no segundo jogo, contra a Áustria. Só na terceira partida, no empate de 3 a 3 contra a Hungria, o atacante português pode se tornar, enfim, o único jogador da história a marcar em quatro edições seguidas da Eurocopa, desde 2004, e com um golaço de letra, depois outro pra ajudar a garantir a classificação portuguesa às oitavas-de-final sem uma vitória sequer, mas também sem derrotas, ora pois.

Quaresma CroáciaNo primeiro mata-mata, Cristiano Ronaldo quase se consagrou nos minutos finais da prorrogação do zero a zero resistente contra a Croácia. No contra-ataque fulminante após boa chance desperdiçada pelos croatas, a bola sobrou pra ele cara a cara com o goleiro, mas com a defesa parcial de Subasik, a honra do gol da vitória mais emocionante da campanha coube a um cigano de origem paterna, Ricardo Quaresma, cuja mãe é angolana. Nas quartas-de-final, depois de Lewandowski abrir o placar para a Polônia, Renato Sanches, português de Lisboa mas de origem caboverdiana, fez o gol do empate que levou à decisão por pênaltis onde, no incentivo a João Moutinho, Cristiano Ronaldo começou a mostrar o tamanho de sua liderança na equipe.

Na semifinal ele bateu outro recorde ao abrir o placar na cabeçada fulminante, tornando-se, com 9 gols em quatro edições, o maior artilheiro de todas as Eurocopas. Também caboverdiano, nascido na Amadora, em Lisboa, Nani, que já tinha feito os gols de empate no 1 a 1 com a Islândia e contra a Hungria, fez o segundo contra País de Gales, que sacramentou a ida à final em que Cristiano Ronaldo ganhou ares do rei sumido em África e eternamente desejado pelos portugueses, Dom Sebastião, com um quê de El Cid, primeiro no drama de sua contusão, na tentativa desesperada de voltar e no choro final, na maca, que emocionou portugueses e franceses no estádio, e a quem mais tenha visto a cena pela tevê, e depois no renascimento fora do campo, mancando e incentivando seus companheiros até o choro dessa vez de alegria, com o apito final e o título ganho na prorrogação graças ao gol de Éder, nascido em Guiné-Bissau.

Cristiano Ronaldo tem também suas origens africanas, ainda que um pouco mais distantes que a maioria de seus companheiros. Sua bisavó paterna, Isabel Rocha, era natural de Cabo Verde, e além dos gols do bisneto dela, todos os outros de Portugal na conquista da Eurocopa foram de imigrantes nascidos ou originários de outro país, de outro continente ou etnia, como os milhões que, na crise migratória atual, viraram refugiados, morrem afogados, são chutados e insultados enquanto fogem do extermínio, da miséria, da fome e das guerras. Pode até ter sido jogada de marketing, como alguns acreditam, ainda mais após Cristiano Ronaldo se recusar a trocar de camisa contra a seleção de Israel e depois aceitar participar de um comercial fazendo exatamente o gesto negado. Mas só de tocar no assunto tão diretamente, em tempos de manifestações racistas, elitistas, sem a menor vergonha pelo mundo afora e por aqui também, o atacante português merece elogios.

Portugal campeãCristiano Ronaldo já entrou em campo com o filho do refugiado sírio que, com o garoto no colo, foi agredido pela cinegrafista húngara de triste memória. Com a conquista da Eurocopa, subiu de patamar no pedestal da história, de um um dos melhores do mundo de sua época para os maiores de todos tempos, um pouco abaixo de Pelé, menos ainda do Maradona e do Garrincha, a milímetros do Romário e ao lado do Zidane, do Beckenbauer, do Cruyff, do Ronaldo, do Didi… E acima, um pouco só, do Messi, isso na bola, porque de resto, a diferença entre os dois é bem maior. Se continuar com declarações como a de ontem, porém, é capaz de Cristiano Ronaldo mesmo vitorioso, mesmo alçado à categoria de lenda nacional, voltar a ser tratado daqui a pouco por aqui com aquele ligeiro clima de vilão vaidoso da história, enquanto o craque argentino discreto, calado, nada polêmico e sonegador, não deve perder nunca a aura de mocinho. A conferir.

luis.edmundo@terra.com.br

 

 

 

 

Luis Edmundo

Luis Edmundo Araujo é jornalista e mora no Rio de Janeiro desde que nasceu, em 1972. Foi repórter do jornal O Fluminense, do Jornal do Brasil e das finadas revistas Incrível e Istoé Gente. No Jornal do Commercio, foi editor por 11 anos, até o fim do jornal, em maio de 2016.

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5 comentários

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Armando Divan

13 de julho de 2016 às 09h02

Não sou advogado de defesa do Lionel Messi, tampouco acompanho sua carreira futebolística e financeira, mas li em algum blog, talvez este mesmo, que muito de sua habilidade futebolística se deve a sua condição de autista. Como tenho um filho autista de 15 anos, conheço um pouco de algumas características gerais da condição, tanto pela experiência pessoal do convívio com ele, como pelo conhecimento teórico e por eu também partilhar alguns aspectos desse transtorno. Sendo assim, não criticaria a falta de empatia do Messi demonstrada por seu desinteresse pela política, pois isto parece ser uma característica “autista”. Meu filho ainda é jovem, mas é totalmente desinteressado por ‘política’, embora eu seja completamente apaixonado pelo assunto e lhe transmita cotidianamente estímulos para que também seja uma pessoa atuante na sociedade. Não saberia dizer com propriedade, sem resvalar em uma argumentação simplória, como a questão da sonegação se encaixa no que expus acima.

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Roberto Goren

13 de julho de 2016 às 02h34

Bah… Cristiano ronaldo tem a fama q tem pq tudo que faz eh pensando em marketing…

Eh so reparar que quanto mais falam sobre ele ser arrogante e vaidoso, mais apariçoes publicas de bom mocinho ele faz. O messi eh quieto. Nao toma a bola do companheiro pra bater penalti e permite que outros batam… Abre mao de jogar mais a frente pra poder ajudar na armaçao… Deixa outros baterem falta. Nao cava falta e nao fica importunando arbitro. Nao critica os companheiros de equipe por erros e nem os minimiza quando tem menos habilidade que ele. Nao exige a bola pra ele, os companheiros o procuram. Nunca pediu gol “dado” qdo estava concorrendo a artilharia. Quando fracassa, nunca apontou o dedo a ngm, nem em campo nem foi a imprensa reclamar de companheiros. Nao fica dizendo que eh o melhor dos ultimos 20 anos.
Enfim, um texto sobre o Cr7 e fizeram questao de lembrar do messi, pois aqui eu afirmo: cr7 e tudo que gira nele eh marketing. Pra cada um gesto bad boy ele aparece na imprensa com papo de bom moço. Pode ser que ele seja? Talvez. Mas ngm saberá de verdade. Mas tudo indica que eh marketing puro. Afinal, o dinheiro pode pagar.

Obs.: quanto ao sonegador messi, que cumpra sua pena. Mas nao duvido que o messi tenha sido mal assessorado tb. Sua carreira eh cuidada por outros desde pequeno e quem o conhece sabe que a unica coisa que interessa pro messi eh jogar bola. Mas a fama de bad boy nao pregará nele justamente por isso: ele so quer jogar bola. O cr7, todo mundo sabe, precisa fazer marketing, mesmo que nao seja o bom moço que pinta

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    Alberto Monteiro de Castro

    13 de julho de 2016 às 03h06

    Ele pode ter marketing porque o sabe usar e porque as empresas de marketing e os patrocinadores ganham muito com ele. Mas os records batidos temporada atrás de temporada, a quantidade impressionante de gols, títulos e troféus que coleciona desmentem o que você diz. E, vê-se que não conhece outro CR7 fora do gramado, da publicidade e das fofocas pela fama. Um dos caras discretamente mais solidários e humanitários que existe, tal como o brigão do Pepe, e que nunca fazem publicidade sobre esse lado. A inveja mata.

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Alberto Monteiro de Castro

12 de julho de 2016 às 19h48

Julgo que por desconhecimento o jornalista se omitiu que o próprio CR7 é de origem africana por via paterna. Nota-se nos seus tracos amulatados. Sua bisavó Isabel Rosa era natural de Cabo Verde. Ricardo Quaresma, além de cigano via paterna, é de origem angolana via materna. Nani não nasceu em Cabo Verde como escrito mas na Amadora, subúrbio de Lisboa. É o único dos irmãos que não nasceu no país africano. O que importa é que, tal como Raphael Guerreiro, Cedric e Adrien Silva, todos nascidos na França, Pepe (Brasil), Éder e Danilo (Guiné Bissau) William Carvalho (Angola), João Mário, nascido no Porto e de origem angolana, e Renato Santos, lisboeta filho de pai de Sao Tomé e Príncipe e mãe caboverdiana, todos são portugueses e aclamados heróis de Portugal. Uma seleção bem representativa da lusofonia. Não poderia ser mais portuguesa com certeza, pela presença de Portugal no mundo.

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Dereck

12 de julho de 2016 às 19h29

Só pra destacar, em relação ao pedido do jogador da Islândia, o islandês fala “shirt! shirt!” e o Cristiano parece claramente falar “inside”, ou seja, não quis tirar a camisa ali, em campo, mas ficou de entregar dentro do vestiário.

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