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27 anos depois de Pablo Escobar

Por Luis Edmundo

14 de julho de 2016 : 15h45

Foto: Olé

Por Luis Edmundo Araujo, editor de esporte do Cafezinho

Não houve milagre. O São Paulo foi eliminado ontem em Medellín ao perder de novo para o Atlético Nacional, dessa vez por 2 a 1, o futebol brasileiro confirmou sua decadência ao ficar de fora da terceira final seguida de Taça Libertadores da América, o que não acontecia há 25 anos, e os colombianos tentarão repetir o feito de 1989, quando a Colômbia vivia o auge do poder do narcotráfico de Pablo Escobar e ao mesmo tempo via surgir a melhor geração de jogadores do país até então, a maioria deles no clube que chega agora à sua terceira decisão de Libertadores, alguns deles, como o folclórico porém eficiente goleiro René Higuita, amigos leais do maior traficante de cocaína do mundo, torcedor fanático do time.

Precursor dos goleiros artilheiros, batedor oficial de pênaltis, Higuita era o grande nome do Atlético Nacional montado pelo treinador Francisco Maturana, que tinha ainda a dupla de zaga da seleção colombiana, Perea e Andrés Escobar, e o atacante Usuriaga entre seus principais destaques, tudo com a providencial ajuda financeira de Pablo Escobar. O traficante, aliás, não tinha qualquer parentesco com o zagueiro que viria a ser assassinado após marcar um gol contra na derrota para os Estados Unidos na Copa de 1994, o mais famoso exemplo de como os traficantes levaram a violência extrema de seu negócio ao mundo do futebol, enquanto lavavam dinheiro formando times de qualidade como o Atlético Nacional daquela época, base da seleção colombiana no Mundial de 1990, também treinada por Maturana, que deu de 5 na Argentina em plena Buenos Aires nas eliminatórias, chegou até as oitavas-de-final da Copa e acabou eliminada contra Camarões de Roger Milla, pelo excesso de confiança de Higuita.

Pablo Escobar Nacional de MedellínEra a época da guerra entre os cartéis de Cáli e Medellín na Colômbia, que se estendeu para o futebol. Os irmãos Rodriguez Orejuela, chefões rivais de Escobar, haviam ajudado o América de Cáli a chegar em três finais consecutivas da Taça Libertadores, quando o time foi derrotado pelo Argentinos Juniors nos pênaltis, depois pelo River Plate e na última delas, em 1987, perdeu para o Peñarol com requintes de crueldade, no último minuto da prorrogação, com a vantagem do empate. No ano seguinte Pablo perdeu a disputa particular com seu sócio Gonzalo Rodrígues Gacha, El Mexicano, torcedor do Millionários de Bogotá campeão colombiano de 1988. O Atlético Nacional foi o vice e os dois se reencontraram nas quartas-de-final da Libertadores. Com a vitória e depois o título do Nacional de Medellín, naquela que talvez tenha sido a decisão com mais pênaltis perdidos seguidamente da história, sete no total, Pablo Escobar conseguia o que seus principais inimigos tentaram por três vezes e falharam.

Com a conquista da Libertadores, a primeira do futebol colombiano, e cada vez mais rico, poderoso, Pablo Escobar parece ter gostado da brincadeira em alto nível, no caso continental, e partiu para a radicalização que culminaria com o assassinato do juiz Álvaro Ortega, ainda em 1989, e a paralisação do campeonato colombiano. Na Libertadores de 1990, o juiz uruguaio Daniel Cardellino, do jogo de volta das quartas-de-final do Nacional contra o Vasco da Gama, em Medellín, relatou após a partida vencida pelos colombianos por 2 a 0, que sofreu ameaças de morte e a oferta de US$ 20 mil para favorecer o Atlético Nacional na partida, que acabou sendo anulada. Um novo jogo foi marcado em campo neutro, em Santiago do Chile, e o Nacional venceu novamente, dessa vez por 1 a 0, provando que talvez não precisasse de todas as artimanhas do tráfico. Na semifinal daquele ano, porém, o time foi eliminado pelo Olimpia do Paraguai, vice de 1989, que deu o troco ao algoz do ano anterior na mesma moeda, vencendo nos pênaltis para, depois, ser campeão na decisão contra o Barcelona de Guaiaquil.

O Atlético Nacional voltaria à decisão da Libertadores dois anos depois da morte de Escobar, em dezembro de 1993. Higuita continuava no gol, o time era bom mas não no nível daquela equipe de 1989, e não resistiu ao Grêmio comandado por Luiz Felipe Scolari, que venceu em Porto Alegre por 3 a 1 e empatou em Medellín por 1 a 1. Agora, o Nacional de Medellín, time de melhor campanha na atual Libertadores, considerada por especialistas de todo o continente como a melhor equipe do torneio, tem a chance de repetir o feito daquela geração de grandes jogadores, e dessa vez livre da sombra de Pablo Escobar.

luis.edmundo@terra.com.br

 

 

 

 

Luis Edmundo

Luis Edmundo Araujo é jornalista e mora no Rio de Janeiro desde que nasceu, em 1972. Foi repórter do jornal O Fluminense, do Jornal do Brasil e das finadas revistas Incrível e Istoé Gente. No Jornal do Commercio, foi editor por 11 anos, até o fim do jornal, em maio de 2016.

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3 comentários

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Bacellar

14 de julho de 2016 às 18h16

Não sei se foi homenagem ao Escobar mas arbitragem foi um crime…

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Antonio Passos

14 de julho de 2016 às 16h53

Ainda existe futebol brasileiro ? A meu ver não, o que existem são jogadores nascidos no Brasil. Nossos jovens só ficam por aqui enquanto não conseguem uma vaga, mesmo de reserva, em qualquer outro país onde o futebol seja razoavelmente desenvolvido. Vão e passam a jogar o futebol que se joga lá, quando jogam porque a maioria fica é no banco. Aqui no Brasil, fica o resto ou os veteranos. E ficam de má vontade por sinal, esperando o primeiro momento pra ir embora.

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Brasangola_

14 de julho de 2016 às 16h13

Gostei muito da matéria sobre o futebol colombiano, aqui no Brasil somos melhor informados sobre o futebol europeu que o latino americano!

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