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Brasília - DF, 31/08/2016. Michel Temer durante posse como Presidente da República no Senado Federal. Foto: Beto Barata/PR

A contenção da democracia e o fim do Brasil

Por Redação

09 de novembro de 2016 : 18h12

Presidente interino, Michel Temer, durante sua posse no Senado Federal (Foto: Beto Barata/ PR)

por Cláudia Versiani

Consta que o indigenista Noel Nutels, chamado de “o índio cor-de-rosa”, logo após o golpe militar de 1964 perguntou a amigos quanto tempo duraria a ditadura. Depois de ouvir vários palpites, disse: vai durar cem anos.

Nutels se referia não à ditadura propriamente dita, mas aos reflexos negativos que a quebra da normalidade democrática acarretaria ao país. E também às consequências do desmonte do que funcionava bem — a educação pública, por exemplo, que, como disse Darcy Ribeiro, deve o mau funcionamento não ao acaso, mas a um projeto.

O golpe de 64 trouxe imensos retrocessos institucionais, como se sabe. Sem falar de prisões arbitrárias, torturas e assassinatos de presos políticos. Mas, em certo aspecto, o golpe parlamentar-midiático-jurídico atual — que começou com o chamado “mensalão”, continuou nas jornadas de junho de 2013 e foi incrementado pela atuação canalha do candidato derrotado em 2014 — é pior.

Os militares, retrógrados e autoritários, ao menos eram nacionalistas.

Os golpistas de agora, também retrógrados e autoritários, são, como se dizia tempos atrás, entreguistas. Não se pejam de entregar o petróleo, de possibilitar a compra de terras por estrangeiros, de cogitar abrir mão do Aquífero Guarani em favor de empresas multinacionais.

A intenção de desmonte é clara. É a destruição do Brasil, a entrega de riquezas, o desprezo pelo povo, esse mero detalhe. A quadrilha que assaltou a república não tem projeto de país. Tem ganância pelo poder e comportamento de ave de rapina dividindo butim de guerra. Haja vista o aumento dos proventos do judiciário e do legislativo e a amplificação dos recursos publicitários pagos à velha mídia, parceira e incentivadora do golpe.

Tudo em meio a grave crise econômica. Enquanto isso, em nome da mesma crise, o ataque às tímidas conquistas sociais e aos direitos dos trabalhadores, conquistados em anos de luta.

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Internet também é cultura: gráfico recentemente divulgado nas redes sociais, sem indicação de autoria, mostra a composição de poder durante os 516 anos que se seguiram à chegada dos portugueses: em 64% do tempo, o país foi colônia; em 13,4%, monarquia; em 8%, república oligárquica; em 7,6%, ditadura. E, finalmente, em 7%, república democrática.

Essas informações, se não forem absolutamente corretas, não estarão longe da realidade. A configuração histórica brasileira explica o fato de a democracia ser insuportável às oligarquias. Raymundo Faoro disse que as elites querem um país com 20 milhões de habitantes e uma democracia sem povo.

Para as oligarquias, vantagens, aumentos de salário, auxílios-moradia e quejandos. Para os restantes, a PEC 241, que corta gastos com saúde, educação e assistência social durante inacreditáveis vinte anos, tempo de desenvolvimento de toda uma geração.

A Casa-Grande não está acostumada com o povo. Não deseja proximidade, não lhe reconhece direitos. O poder é aceitável apenas enquanto administrador de seus ancestrais privilégios, como tem sido há séculos. Assim, entende-se a revolta por várias eleições presidenciais — e quantas mais houvesse — perdidas.

A democracia estava excessiva, era necessário contê-la. Porém, é fácil começar um golpe. Difícil é prever como termina. De acordo com o professor Pedro Serrano, a grande ilusão da direita é achar que do autoritarismo extremo vem a ordem. A experiência mostra que, ao contrário, vem o caos.

A história, essa provecta senhora, não é regida pelo tempo humano. Tem suas próprias leis e prazos. Embora se permita alguns recuos, segue em frente.

Cabe a pergunta: quanto vai durar o golpe? Haverá como conter esses trogloditas? Ou será preciso esperar que a história dê conta deles, ou que eles se entredevorem — como, aliás, já começa a acontecer?

Cláudia Versiani é jornalista, fotógrafa e professora do curso de Comunicação Social da PUC-Rio, além de autora dos livros “Os homens de nossas vidas” (crônicas) e “Bodas de Sangue: a construção e o espetáculo de Amir Haddad” (fotografias)

 

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3 comentários

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jeff beck

11 de novembro de 2016 às 12h48

Cada vez mais claro para mim que o golpe foi da turma do Judiciário.. quem tem o poder de fato atualmente é o Judiciário. Que submete o executivo e legislativo as suas ordens.. legais ou não..

É uma ditadura de colarinho branco.. Estado do “Direito”

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Gilmar Antunes Miranda

09 de novembro de 2016 às 20h20

Uma das consequências desse projeto fascista e entreguista de poder é a manipulação da informação pela imprensa concentrada em poucos magnatas. Além disto, mesmo o sistema de ensino público e o privado – este, apesar de melhor – é alienante pelo controle da informação, qe não está voltado a ensinar a pensar, à reflexão e questionamento do mundo ao redor. Uma consequência de tudo isto, p.ex, é a crença qe nos foi incutida de qe os americanos, e somente eles, foram capazes de pousar na Lua, sem qe milhões não sejam capazes de perceber qe isso não passa de manipulação política, bastando para desmascarar está farsa a simples constatação de que, se fossem mesmo capazes desta façanha, os recursos tecnológicos usados certamente teriam sido aperfeiçoados a tal ponto qe não só eles mas outras nações desenvolvidas já o teriam conseguido tb.
Mas não. O qe vemos hoje, senão qe os estadunidenses, mesmo pra irem à estação espacial internacional, estão usando as naves Soyuz russas, que jamais saíram da órbita baixa do nosso planeta?
Em conclusão, a meu ver, nem russos nem americanos detém tecnologia ainda para descerem com segurança na Lua.
E mais: não há informação sequer de que tenham descido uma sonda capaz de pousar e filmar em detalhes a superfície lunar e os aparelhos qe dizem ter deixado lá.
Quem tiver um pouco de interesse no assunto, veja no Youtube o documentário da Fox Television, que é americana, decaindo a farsa.
Uma outra farsa: os atentados de 11.9. Foram forjados pelo governo norte americano para justificar a invasão criminosa do Afeganistão, cujo povo paga até hoje por essa barbárie. Também documentado pelos próprios americanos no Youtube.
Este é o retrato da manipulação da informação pelos meios de comunicação que vigoram em nosso país, por interesses financeiros.

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    RuydeLimaeSilva

    11 de novembro de 2016 às 09h18

    É um prazer e um alívio ler comentários como estes, do Gilmar e da Claudia. Subscrevo-os todos e os felicito pela objetividade e senso de verdade.Também eu em 64, apesar dos meus 18 anos, entendi que algo de muito grave estava acontecendo e que não seria uma simples “restauração” ou “Nova República” que iria desfazer o mal praticado e nos reconduzir para o leito da normalidade (primeiro porque seriam feitas por eles mesmos).Aí está.Partiu-se algo que nos era caríssimo e fundamental na edificação de uma verdadeira República Democrátca (e olha que estou falando apenas de uma República Democrática Burguesa). Mas vocês vêem? O descrédito e o desencanto com esta forma de “democracia” (Inglaterra, EUA,França, Itália, Alemanha, Grécia, Espanha,Itália, Portugal) está se alastrando por toda a parte.Nos dias que correm, os próprios filhos da Terra da Liberdade (Home of the Brave) estão dizendo que Trump não os representa.E Rajoy representa os espanhóis? Hollande representa os franceses? Merkel representa os alemães? Temer representa os brasileiros? Como dizia Papai Pernilongo (Fred Astaire) : “Something’s gotta give”. Algo tem que acontecer.

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