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Rogério Bitarelli Medeiros: O jovem Marx ganha as telas do cinema

Por Theo Rodrigues

30 de dezembro de 2016 : 08h20

Em abril de 2016, publiquei um texto sobre as conclusões das filmagens de “O Jovem Marx”, do cineasta haitiano Raoul Peck, cujo lançamento no Brasil está previsto para meados de 2017. Faço novamente sua publicação, com os acréscimos que Iinicialmente se seguem.

OS ANOS REBELDES DE MARX NA CAPITAL DA MODERNIDADE

Por Rogério Bitarelli Medeiros

“O Jovem Marx” é um filme biográfico, o retrato de um homem novo que, ao mesmo tempo, encarnava o novo homem, em um período turbulento na Europa sacudida por diversos movimentos populares e socialistas. O destino raro desse homem, que compartilhou a sua vida e a de sua família com a realização de um ideal, o preço do exílio e da dolorosa privação, tem também aspectos muito românticos. Embora tenha sido adepto do realismo empreendido pelo pintor Gustave Coubert, Marx viveu sua juventude sob a atmosfera inquieta e atormentada do romantismo, na Alemanha, França, Bélgica e Inglaterra .

Aos 26 anos, Karl Marx embarca para o exílio junto com sua esposa, Jenny. Na Paris de 1844, ele conhece Friedrich Engels, filho de um industrial, que investigava o nascimento da classe trabalhadora britânica. Uma amizade que não mudaria somente seus destinos individuais, pois doravante o mundo jamais seria o mesmo e seus impactos econômicos, políticos e sociais seriam sentidos no século seguinte. Entre a censura e a repressão, os tumultos e as manifestações políticas, eles liderarão o movimento operário em meio ao nascimento da era moderna. Nesse período, Marx intensificou os seus estudos sobre economia política, os socialistas utópicos franceses e a história da França, produzindo reflexões que resultaram nos Manuscritos de Paris, mais conhecidos como Manuscritos Econômico-Filosóficos.

Estamos em Paris, 1845, então a capital da modernidade segundo o geógrafo britânico David Harvey. No atelier de Courbet, entre alguns modelos pintados pelos alunos e em torno de uma mesa, Karl Marx joga xadrez com o anarquista russo Mikhail Bakunin, então refugiado do czarismo russo, para o divertimento de sua esposa Jenny Marx, née von Westphalen, herdeira da velha nobreza teutônica, de seu amigo Friedrich Engels, de Courbet e do pensador e ativista Pierre-Joseph Proudhon. Essa imagem de amizade, que se revelará muitas vezes conflituosa e trilhando caminhos divergentes, sintetiza a complexa e extremamente dinâmica atmosfera política do século XIX.

Nascido em Port-au-Prince (Haiti), em 1953, o cineasta Raoul Peck, passou a infância em Leopoldville (hoje Kinshasa), Congo, após sua família fugir da ditadura de François Duvalier, estudou engenharia na Alemanha e em seguida, cinema. A carreira começou com “O Homem no Cais” (1993), um trabalho muito engajado, sobre a ditadura de Duvalier; em seguida vieram “Lumumba” (2000) sobre o líder assassinado da independência congolesa e “Alguns Dias em Abril” (2005), uma série da HBO sobre o genocídio de Ruanda. Enquanto isso, ele foi ministro da Cultura no Haiti.

Em “O Jovem Marx”, Raoul Peck contou com a colaboraçao do roteirista francês Pascal Bonitzer, sendo a história concentrada nos anos 1843-1848. O período termina com a redação do Manifesto Comunista, que defende uma concepção dialética da história e estabelece as bases para um movimento operário internacional unificado. Antigo crítico da revista Cahiers du Cinéma, Benitzer adaptou em 1976 o livro de Michel Foucault “Eu, Pierre Rivière, Tendo Abatido Minha Mãe, Irmã e Irmão: Um Caso de Parricídio no Século XIX“ para o diretor René Allio. August Diehl ( “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino), ator conhecido na Alemanha, é Marx; Stefan Konarske (“Trem Noturno Para Lisboa”, de Bille August ), é seu jovem amigo, Engels; Vicky Krieps, atriz luxemburguesa, é Jenny, o veterano Olivier Gourmet é Proudhon.

UM FILME SOBRE A JUVENTUDE E A REVOLUÇÃO
Rogério Bitarelli Medeiros

“O Jovem Marx” narra a juventude do filósofo, sociólogo e economista, revolucionário alemão e sua amizade com o filósofo Friedrich Engels. Baseado em um roteiro co-escrito pelo diretor Raoul Peck e Pascal Bonitzer, o filme tem sua ação situada na Europa entre 1844 e 1848. A fatia da vida de Marx abordada é o contexto da emblemática Revolução de 1848, cujo epicentro foi Paris e que envolveu vários países da Europa. Este é o momento em que Marx e Engels concluem na Bélgica o Manifesto Comunista, que forma a base dos movimentos revolucionários.

Na Alemanha uma oposição intelectual em crise é fortemente reprimida. Na França, os trabalhadores do Faubourg Saint-Antoine estão em ampla atividade. Na Inglaterra, também, o povo está nas ruas em plena ebulição da revolução industrial. A consolidação do poder político da burguesia e o surgimento do proletariado industrial enquanto força política foram os reflexos mais importantes daquele ano. Também chamada de Primavera dos Povos, este conjunto de revoluções, de caráter democrático, nacionalista e socialista, foi iniciado por uma crise econômica na França, e foi a onda revolucionária mais abrangente da Europa, embora, em menos de um ano, forças conservadoras tenham retomado o controle e as revoltas sociais em cada nação tenham sido dissipadas. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, a Primavera dos Povos foi a primeira revolução potencialmente global, tornando-se um paradigma de “revolução mundial” que alimentou rebeldes de várias gerações.

Aos 26 anos, Karl Marx (1818-1883), em companhia de sua esposa Jenny (1814-1881), caminha pelas estradas do exílio. Em Paris, conhece Friedrich Engels (1820-1895), filho de um grande industrial alemão, que estudava as condições de trabalho do proletariado inglês. Ambos, filhos de família tradicional, brilhantes e desafiadores, vão organizar um movimento revolucionário. unir e forjar suas próprias ferramentas teóricas para além das fronteiras da Europa, visando emancipar os povos oprimidos do mundo. Produzido por Agat Films & Velvet Film, na França, Sweden, na Alemanha, e Artemis Prods, na Belgica, o filme, segundo Peck, mostra o surgimento de dois jovens intelectuais audaciosos que terão um impacto extraordinário sobre o mundo durante o século XX e seguinte.

Nascido em Port-au-Prince, Haiti, em 1953, Raoul Peck viveu sua infancia em Leopoldville (hoje Kinshasa), Congo, fugindo com seus pais da sangrenta ditadura de Duvalier Após seus estudos de engenharia na Universidade de Berlim, ele ingressou na Academia de Cinema e Televisão de Berlim (DFFB). Entre o documentário e a ficção, Raoul Peck trabalhou tanto para o cinema quanto para a televisão. Seus principais filmes de ficção são “O Homem no Cais” (1993), Haiti, o “Silêncio dos Cães” (1994) e Lumumba a “Morte do Profeta” (2000). Em 2005, produziu e dirigiu para a HBO “Às Vezes, em Abril”, que aborda o genocídio ocorrido em Ruanda na década de 1990. Posteriormente realizou Moloch Tropical. Peck foi Ministro da Cultura da República do Haiti entre 1995 e 1997. Ele recebeu o Human Rights Watch e o Prêmio Irene Diamond pelo conjunto de seu trabalho em favor dos direitos humanos
O filme narra a amizade do casal Karl e Jenny Marx e de Engels com Gustave Courbet (1819-1877), que foi um importante pintor francês do século XIX e considerado um dos principais representantes do Realismo nas artes plásticas. Uma cena mostra uma visita que os três jovens fizeram ao atelier do artista, juntamente com outras personalidades revolucionárias daquela época como Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) e Mikhail Bakunin. (1814-1876).

Courbet nasceu numa rica família de fazendeiros, em 10 de junho de 1819, na cidade de Ornans (França). Além da pintura, dedicou-se ao ativismo político, defendendo ideias democráticas, republicanas e socialistas Em 1871, militou na Comuna de Paris, chegando a participar de seu breve governo. Logo após, foi preso e recebeu várias multas pela participação no movimento. Para escapar das elevadas multas do governo, fugiu para a Suíça, onde foi morar numa velha estalagem na zona rural. Viveu ai até seus últimos dias de forma modesta e quase anônima.

Rogério Bitarelli Medeiros é Doutor pela Université de Paris VII.

Theo Rodrigues

Theo Rodrigues é sociólogo e cientista político.

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6 comentários

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rogeriobezerra

03 de janeiro de 2017 às 14h56

Em Floripa chegará apenas com fim do capEtalismo…

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Isaque Duarte

30 de dezembro de 2016 às 17h26

Que pena, bem provável que o filme não chegue nos fracos ou inexistentes cinemas cubanos, venezuelanos ou norte coreanos, afinal todo o fracasso nacional, econômico e social foi inspiradas nas já refutadas teorias marxistas. Acho pouco provável que o filme aborde o que ocorreu posteriormente a Marx. Inspirando grandes ditaduras sanguinárias ao redor do mundo. Que somados os números dos genocídios, realmente supera as guerras religiosas de todos os séculos, a primeira e a segunda guerra mundial, as vitimas sempre morrendo fuziladas ou na maioria das vezes, desnutridas. Afinal, o grande objetivo do socialismo é a igualdade, mas não a igualdade de riquezas e sim de misérias. Acredito que o filme será uma grande produção, afinal será produzido em um país capitalista (risos). De qualquer forma, se a entrada for inspirada no marxismo e for de forma gratuita eu assisto, caso contrário, não gasto mais nenhum real com qualquer coisa que venha do marxismo, já gastei muito com livros de esquerda, que no fim são pobres intelectuais. Realmente quando você só consome o que vem da esquerda é algo incrivel, mas quando começa a consumir as obras do outro lado também então, seus olhos se abrem de tal forma. Forte abraços Theo Rodrigues, espero que você não censure meu comentário.

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    Zenio Silva

    02 de janeiro de 2017 às 00h21

    Mais um que não teve ‘fôlego’ para ler o Capital!

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    rogeriobezerra

    03 de janeiro de 2017 às 15h02

    Sábio da Irmandade grã traidora! Todo avanço social alcançado nos países desenvolvidos deveu-se às ideias socialistas. Ou Vossa Sabedoria crê que os Taradões do dinheiro de lá adoram os Trabalhadores? Na reuniãozinha desta semana peça ao grã traidor que lhe arrume outras palavras, essas são servis demais.

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    Miriam

    13 de janeiro de 2017 às 19h27

    De onde vc tirou que em Cuba não existe cinema ou sala de cinemas?????? Estive em Havana em pleno Festival anual de cinema em 2008 e não só assisti excelentes filmes a preços irrisórios como vibrei com grandes salas cheias de jovens cubanos!

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João Bosco da Mota Alves

30 de dezembro de 2016 às 09h05

Beleza. Aguardo

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