Bahia: Refinaria privatizada provoca desabastecimento de Gás de Cozinha

Tome e leia, amigo leitor!

Por Rogerio Dultra

03 de janeiro de 2017 : 12h49

 

Convite à leitura do novo livro de Paulo Henrique Amorim

Por Epaminondas Demócrito d’Ávila*

Diz a lenda que Agostinho, imerso em profunda crise intelectual e existencial, ouviu no verão de 386 uma voz de criança, dizendo-lhe repetidas vezes: tolle, lege – Tome e leia! Agostinho seguiu o conselho, leu – e virou Santo Agostinho. O resto é história.

***

O Brasil está mal. O jornalismo, bem.

Explico-me: não me refiro à mídia impressa e televisiva, à Rede Globo, à VEJA, ÉPOCA e ISTOÉ, aos jornalões, à asinina opinião publicada, que usurpa a opinião pública e é controlada por algumas famílias ou, como diz com mais propriedade o termo italiano, do Mezzogiorno: famiglie.

Refiro-me ao jornalismo renascido, renovado, reinventado, não apenas vivo, mas vigoroso nesses tempos bicudos. Ao jornalismo primevo, que retorna às suas origens no séc. XVIII, quando os iluministas europeus opuseram aos arcanos do Estado absolutista a “esfera pública” (Öffentlichkeit), descrita por Jürgen Habermas na sua famosa tese de livre-docência de 1961, publicada em 1962.

Paulo Henrique Amorim, ou simplesmente PHA, sociólogo de formação, é um dos representantes mais originais desse novo e velho jornalismo. É também um dos seus representantes mais completos. Move-se com igual desenvoltura na escrita e na oralidade, em benefício de ambas.

Lançado há um ano, seu livro O quarto poder é uma das melhores obras sobre a mídia no Brasil. Seu blog Conversa Afiada e os clips da TV Afiada são um esforço diário em desasnar o leitor e ouvinte e lançar fachos de luz nas trevas midiáticas.

Seu novo livro, Manual inútil da televisão e outros bichos curiosos (São Paulo, Hedra, 2016) foi lançado em 22 de novembro em São Paulo na Livraria Saraiva em Higienópolis, perto da residência de FHC, que não deve ter comparecido na noite de autógrafos para comprar o livro do colega.

O livro contém vários manuais de TV e muitas histórias do repórter de televisão Paulo Henrique Amorim. Na opinião do autor, “histórias e nada mais do que isso” (p. 9; os números entre parênteses sempre indicam a página). Permito-me discordar. As histórias de PHA são uma forma muito clássica e peculiar de narrar a História: permitem ouvir na anedota o sopro da História, apresentam o universal no particular. São histórias e muito mais que histórias: ecos da História. Sua brevidade é resultado de longa observação do mundo e de um extraordinário poder de síntese, que muitos pensadores acadêmicos não alcançam.

Nesse sentido, a sugestiva dedicatória a Hedyl Valle Jr., “que me levou do jornal para a televisão na esperança de ‘trocar a profundidade pelo alcance'” (7), merece um comentário, aqui formulado como pergunta retórica: seriam a profundidade e o alcance mutuamente excludentes?

A composição do livro é engenhosa e de simplicidade sofisticada. Os manuais e as anedotas, estas contadas com virtuosismo e elegância, são pontuados por frequentes textos de extrema brevidade. Eles funcionam como contrapontos à ‘música’ do texto e convidam o leitor a estabelecer novos nexos entre os capítulos. Três exemplos: O Ministério Público é o DOI-CODI da democracia”. De um constituinte de 1988 (51), “Mídia técnica foi o jeito que o Lula e a Dilma acharam de, tecnicamente, fazer publicidade do governo na Globo.” Roberto Requião (62) e “Jornal, rádio e tevê são instrumentos políticos.” Assis Chateaubriand (69). “Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère” (Baudelaire, na tradução de Ivan Junqueira: “Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”): você pode imaginar testemunho mais insuspeito do que o de “Chatô, o rei do Brasil”?

Livros são também escritos pelos seus leitores, que glosam os raciocínios sugeridos pelos autores. Na melhor tradição iluminista, PHA conta com o leitor co-autor. Mobiliza o leitor, dá asas à sua imaginação. Deixa espaços nas entrelinhas do seu texto. Sabe que sem leitores co-autores nunca teremos uma esfera pública.

Concluo essa breve resenha com uma das muitas sutilezas, que PHA acomodou em uma oração subordinada relativa, ao mencionar que a cantora Madonna dera “uma entrevista ao David Letterman, que o Jô Soares inutilmente tenta imitar”.

***

Tome e leia, amigo leitor! Você não se arrependerá.

 

* Jurista, filósofo e professor emérito

Rogerio Dultra

Professor do Departamento de Direito Público da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Justiça Administrativa (PPGJA-UFF), pesquisador Vinculado ao INCT/INEAC da UFF e Avaliador ad hoc da CAPES na Área do Direito.

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3 comentários

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Antonio Souto Coutinho

03 de janeiro de 2017 às 13h34

É interessante o livro de Lima Duarte ” Memórias do Escrivão Izaias Caminha, que mostra o comportamento da imprensa de sua época. É igual ao da grande mídia atual. Em certo trecho ele diz que é “engano dizer que a imprensa é o quanto poder: é o primeiro”. A publicação do livro lhe custou vários anos de ostracismo. Vale a pena também o conhecer discurso de Requião sobre a história da nossa mídia, proferido por ocasião do último golpe paraguaio

Responder

    Gilmar Antunes Miranda

    03 de janeiro de 2017 às 18h25

    O ator a quem vc se referiu deve sera o Lima Barreto.

    Responder

      Antonio Souto Coutinho

      04 de janeiro de 2017 às 08h22

      Você tem razão. Horas depois fiquei na dúvida se eu tinha sido sido traído pelo nome do ator. Obrigado. Feliz ano novo com paz, saúde e democracia.

      Responder

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