Ato em defesa da imprensa

Curitiba, a capital do estado de exceção

Por Rogerio Dultra

10 de maio de 2017 : 10h23

(Imagem: Globonews)

Por Rogerio Dultra dos Santos, colunista d’O Cafezinho

Hoje, num desdobramento típico do nosso realismo fantástico, o futuro da democracia brasileira será decidido em Curitiba. O palco está armado – até os dentes, segundo vídeos que documentaram ontem as movimentações da tropa de choque da PM na capital paranaense. Assim Lula e as centenas de movimentos sociais que se organizaram para manifestar o seu apoio ao ex-Presidente serão recebidos.

Na madrugada de hoje, foram filmados morteiros sendo jogados no acampamento do MST, perto do centro da cidade. Helicópteros, “caveirões”, proibição de circulação nos arredores da Justiça Federal, o clima de estado de sítio foi cuidadosamente preparado pelas autoridades.

No último dia 28, o da greve geral, não se esperava a reação violenta e descabida da PM – em especial no Rio de Janeiro. Já em Curitiba, hoje, a PM do governador Beto Richa, que massacrou professores e alunos da rede estadual, não surpreenderá se repetir a atuação usual contra os movimentos sociais. E provavelmente o fará mesmo sem provocação. Oxalá eu esteja errado.

Para completar o clima, a Globonews já prepara o ambiente para uma eventual prisão de Lula, antecipando que Moro não aceitará “desacato”.

Se esta tragédia anunciada ocorrer nas próximas horas, sacramenta-se o estado de exceção, a suspensão do Direito, e podemos falar sem erro que estaremos sob ditadura. O passo seguinte certamente será a supressão das eleições de 2018, onde não se tem clareza de que um candidato que representa os interesses do regime poderá ser eleito.

Nunca é demais lembrar que o regime Temer é uma espécie de desdobramento natural do projeto de poder de Eduardo Cunha. Assistir ao House of Cards Tupiniquim equivale testemunhar o desenrolar grotesco de um espetáculo que mortifica a democracia. Tanto mais quando se testemunha que o golpe se desdobra em destruição de direitos, repressão e desemprego, desembocando na fraude das eleições em 2018.

O regime não esconde funcionar como plutocracia. Os ricos mandam subtrair as riquezas do país através da destruição das forças políticas que sempre reagiram ao seu desmonte. A realização deste “projeto”, através da violência, certifica a ditadura.

A questão não é singela. A noção de que o 1º de abril de 1964 consumou um golpe de Estado não se instalou naturalmente na consciência dos brasileiros. Apesar dos esforços de historiadores, cientistas sociais, militantes e personagens da época, até hoje existem os que defendam que o que houve, foi sim, uma revolução. Contra o comunismo. E uma revolução democrática.

A diferença de hoje para a dos resistentes às posteriores comprovações de que o golpe se fez ditadura – e violenta – é que nos dias que correm paira no ar um cheiro estranho, um constrangimento que não ousa reivindicar a verdade da “revolução constitucional” capitaneada pelo temeroso Michel. Afinal, o rótulo artificial de impeachment para o golpe é menor e menos glorioso que a ideia de que o golpe teria se produzido como revolução. Desta vez, os golpistas não acertaram nem na retórica de justificação.

Muito mais velozmente que em 1964, o golpe judiciário-midiático-parlamentar de 2016 deságua não somente no seu esgotamento político, mas, em particular, para a sua falta de consistência simbólica. Os desdobramentos do interrogatório de Lula hoje em Curitiba coroará este fato.

E porque, apesar dos esforços do mass media, isto não surpreende?

Mais uma vez a história pode trazer luzes ao presente. Em 1964 o golpe representou a culminância de um conjunto de articulações desde muito e por muitos operada.  A classe empresarial e os oficiais das Forças Armadas foram doutrinados pelos EUA desde final dos anos 1940 na Doutrina de Segurança Nacional, abdicando da soberania e da defesa das fronteiras contra ameaças externas para centrar fogo nas organizações sociais e sindicais – o inimigo interno.

Obviamente que este movimento de radical mudança da tradição nacionalista e que atingiu as forças militares do cone Sul fora longamente articulado, antes do final da Segunda Guerra, por intelectuais ligados às instituições de Estado dos EUA.

Assim, havia uma efervescência anabolizada artificial, mas solidamente constituída e que, alinhada com uma tradição cultural escravista, objetivava combater a institucionalização de procedimentos democráticos, em especial a articulação política da classe trabalhadora.

Nesse sentido, a cultura do golpe de Estado corria nas veias das classes dirigentes e se espalhava pelas classes médias através da propaganda financiada pelos EUA, por instituições como o IPÊS e o IBADE – no que os norte-americanos denominam hoje de smart power.  E, ainda assim, levou mais de 10 anos para se cristalizar.

O golpe de 2016, sabe-se hoje, ensaiou sua eclosão desde 2003, quando da primeira eleição majoritária vitoriosa do Partido dos Trabalhadores. Lula não podia governar. Esta era a palavra de ordem que transbordava em metáforas nos jornais de grande circulação.

Prontamente articulou-se parlamento, judiciário e mídia em torno da CPI dos Correios, que se transformou na famigerada AP 470 do STF.

Sem um projeto de país, sem uma interpretação que desse sentido a ascensão dos trabalhadores ao poder, sem condição de estabelecer uma estratégia de ocupação de “corações e mentes” – ao contrário do que se acusava o PT então, de “aparelhamento” – o governo Lula não foi capaz de sequer compreender que as instituições políticas estavam em marcha acelerada para o golpe.

Herdeiros diretos do modus operandi da ditadura empresarial-militar, Judiciário, mídia e setores marginalizados do Congresso Nacional de então – capitaneados pela figura abjeta de Roberto Jefferson, ex-Ministro de Collor – articularam a narrativa do mensalão.

A “ética na política” foi a bandeira politicamente correta a se colocar no lugar do “mar de lama” que a direita anteriormente queria jogar no colo de Getúlio. Isso enquanto Vargas implantava a Petrobrás, a Eletrobrás, a Vale do Rio Doce e garantia o aumento de 100% do salário mínimo dos trabalhadores, reafirmando, a ferro e fogo, a legislação trabalhista.

Hoje a orientação é não deixar a esquerda ir tão longe como foi Vargas.

O alvoroço causado nas elites pelas as conquistas sociais efêmeras – porque não transformadas em direitos ou cláusulas pétreas – dos governos Lula-Dilma produziu forte reação. O impeachment foi o desdobramento natural da articulação de grupos que foram democraticamente alijados do poder por mais de uma década.

Mas, ao fim e ao cabo, este golpe começou pelas mãos de Eduardo Cunha. Simbolicamente não se sustenta. Historicamente demonstrará a sua inconsistência.

Rogerio Dultra

Professor do Departamento de Direito Público da Universidade Federal Fluminense (UFF), do Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Justiça Administrativa (PPGJA-UFF), pesquisador Vinculado ao INCT/INEAC da UFF e Avaliador ad hoc da CAPES na Área do Direito.

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12 comentários

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Aroldo

10 de maio de 2017 às 19h56

Que mente fértil. A Polícia garantiu o Estado de Direito, o sr. Lula prestou seu depoimento e seus “companheiros” de baderna apenas não puderam fazer bagunça, como é potencial desses movimentos baderneiros que se utilizam de pessoas para atingir seus intentos. Comunistas podres, bolivarianos, inimigos da Pátria Brasil. Parabéns, Paraná.

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Reginaldo Gomes

10 de maio de 2017 às 17h19

Se perguntar pra qualquer policial da tropa de choque em que governo ele e sua família eram mais felizes, sem vacilar ele afirmará: ” no tempo do lula!”, porém , a globo, nos seus devaneios, criou uma atmosfera fantástica de negação da realidade, em que afirma para o povo; que é testemunha ocular do fato, que o fato não ocorreu!!! A globo está completamente doida num surto psicótico. (e o povo já sabe que ela tá doida).

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    ari

    10 de maio de 2017 às 18h07

    Tenho minha dúvidas, Reginaldo. Óbvio que não posso generalizar minha observação, mas conheço 3 PM’s, todos com casa do Minha Casa Minha Vida, um deles com uma irmã que foi ajudada pelo bolsa família, um outro cujo filho está na faculdade graças aos programas do PT e basta falar o nome de Lula perto deles para reagirem como cães raivosos

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Antonio C Guerreiro

10 de maio de 2017 às 17h13

Toda essa palhaçada faz parte de golpelhozinho de meia tigela e tudo leva aos EUA e Capitais Internacionais. Novo golpe, e sem nenhuma novidade ou especial ação. Basta seguir a trilha do lucro, isto é, PARA QUEM VAI O LUCRO, DINHEIRO do nosso PRÉ~SAL e de nossas riquezas.
Desde 1954 (com a morte do Getúlio) é a mesma coisa. Sempre o Capital Estrangeiro usando recursos do governo americano (soldados e agentes da cia, bem como o dinheiro para os corruptos – que neste caso são o PSDB DEMO E GRANDE IMPRENSA) e com a IMPRENSA sempre o principal instrumento.
E marcadamente com o intuito de gerar lucro para o CAPITAL FINANCEIRO que nem vão servir para “compensar” os gastos do governo americano. Ou seja, os custos (prejuízos) com o povo americano, e o lucro com as empresas (nem sempre americanas – SHELL E ESSO, por exemplo).
Sempre o Capital externo tendo como INSTRUMENTO principal a MÍDIA , agora incrementada também pelas redes sociais.
Os instrumentos menores ( militares em 64 e juízes e procuradores em 16) são trocados a bel prazer.
Me causa mais espanto e estarmos passando por isso novamente. Repetição banal de “modus operandi” pra lá de conhecido.
Sinto agora falta de uma VERDADEIRA DIREITA Brasileira ( e eu sou esquerdista de carteirinha) para podermos dar respostas a altura dessa DESNACIONALIZAÇÃO promovida por esses venais de plantão, que no caso atual a MÍDIA e os JUÍZECOS E PROCURADORES de meia pataca.
Me pergunto ainda, se fosse ao contrário. Se o Moro e Delagnol estivessem atacando a CHEVRON e a Chevrolet para desnacionalização dos EUA?????
Como se comportariam os Republicanos dos EUA ????? E o que a CIA e o FBI fariam para PARAR essa sangria no EUA ???
Será que “pequenos ” acidentes de avião, mal solucionados seriam feitos para estancar essa sangria, se ocorresse nos EUA??????
Pois é, sinto falta de UMA DIREITA Brasileira. Que FAÇA o que os ESTADOS UNIDOS FAZEM – E NÃO – o que eles DIZEM para fazermos.

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Carlos de oliveira

10 de maio de 2017 às 14h25

Depois de mais de uma década no poder o pt se quer tentou implantar nenhuma das reformas historicamente defendidas pela esquerda. Aplicou uma série de medidas populistas que classificou de conquistas sociais. Na economia promoveu uma bagunça ao não seguir uma política ortodoxa puramente e nem seguir as soluções propostas pelos economistas de esquerda. Na política se aliou sem necessidade ao pior do congresso e das elites empresariais. Por fim se locupletou na roubalheira. Quando é que a esquerda vai acordar e parar de apoiar esse monstro?

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Fernando

10 de maio de 2017 às 14h12

Para combater a violência e o tráfico dizem que não tem contingente policial.

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    NICO

    10 de maio de 2017 às 22h05

    A unica coisa que esses policiais fizerem hoje, foi ficar o dia inteiro em pé e com muita dor nas pernas, sem fazerem absolutamente nada. Imaginem quanto não custou toda essa “palhaçada”. Só faltou chamarem o FBI para dar uma força na “segurança”. Que medo do povo não? Os comerciante devem estar adorando passar o dia inteiro sem vender nada (tudo interditado). Só prejuízo. Deveriam cobrar do Moro por todo esse prejuízo, já que ele ganha mais de cem mil por mês (dizem no noticiário e eu acredito). Os moradores e comerciantes deveriam entrar com ações na justiça, pedindo ressarcimento pelos danos sofridos nos dias 09 e 10 de maio de 2017.

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Carlos

10 de maio de 2017 às 12h43

Vale lembrar que essa reação foi criada pelo próprio movimento, que falava que iam “invadir” Curitiba, fora os posts belicosos de ambos os lados nas redes sociais. Um prometendo “pegar” o outro nesse dia…

A melhor coisa que foi feita é esse aparato pesado de contenção perto da Justiça Federal, e o pedido do Moro para que os “apoiadores” não saíssem de casa.

Se deixassem tudo ocorrer solto, ia dar merda com certeza.

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Sergio Navas

10 de maio de 2017 às 12h09

O Fascismo reside em Curitiba.

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JOSE LUIZ DE ALMEIDA

10 de maio de 2017 às 11h16

Isso mesmo caro Rogério, jornalista profissional: “A questão não é singela. A noção de que o 1º de abril de 1964 consumou um golpe de Estado não se instalou naturalmente na consciência dos brasileiros…” – Essa sempre foi a minha opinião, pois majoritariamente um povo que não é estimulado a ler, a questionar e a buscar conhecer os fatos históricos verdadeiros do seu país. Esse povo não é capaz mesmo de entender o que está acontecendo. Mesmo que haja comodismo, e entregue o seu cérebro preguiçoso às redes de manipulação da comunicação em massa. É certo também que não se trata de uma deficiência apenas dos desafortunados na vida. É, como sabemos, especialmente de brasileiros classificados em condições econômicas melhores aos dos demais. Que frequentam ainda universidades públicas egressos das melhores escolas de ensino particulares. Porém isso não é suficiente para dar-lhes uma visão de mundo mais aberta e menos corrompida. Parabéns ao jornalista Rogério, que com isenção demonstra sua capacidade técnica e ética para traduzir (expressar livremente) parte da visão do atual momento conturbado que o nosso Brasil atravessa, em sua geopolítica, incluindo toda a américa latina e países de todos os continentes do planeta.

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    Renato Brasil

    10 de maio de 2017 às 17h25

    Primeiramente vamos deixar claro que quem elegeu Temer foi quem votou na chapa 13. Temer é o que voces PTistas colocaram no poder juntamente com Dilma.
    Esse blog financiado pelo PT é uma comédia mesmo.

    CADEIA PARA TEMER, LULA, AÉCIO E CIA.
    E escola para Dilma kkkkkkkkkkk

    Eu nao tenho bandido favorito

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    ari

    10 de maio de 2017 às 18h12

    Há muito tempo descobri que educação formal nada tem a ver com consciência política. Numa das pesquisas recentes, por exemplo, o número de pessoas com curso superior que apoiam Bolsonaro é assustador. Não tenho dados concretos para afirmar, mas, como, no passado, estudar era privilégio, há várias gerações de doutores que nada mais são do que uma casta.

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