Live com Miguel do Rosário (convidado especial: Luiz Moreira)

Janot martela os últimos pregos no caixão de Temer, mas não faz diferença

Por Miguel do Rosário

26 de junho de 2017 : 10h48

A capa do Globo de hoje poderia levar um analista afoito a afirmar, pela enésima vez, que “o governo Temer acabou”, ou, para ser mais dramático, que “o governo Temer morreu”.

Entretanto, a afirmação, mesmo correta, levaria a uma falsa conclusão, porque o governo Temer, como se sabe, já nasceu morto. É um governo de morto-vivos, controlado remotamente por articulações entre barões de mídia, a alta burocracia, banqueiros e empresários.

Estando morto, o governo Temer não pode ser morto, da mesma forma que não se pode assassinar um cadáver.

Entretanto, mesmo morto, o governo Temer… resiste, administra, nomeia e demite, e continua liderando o mais brutal e acelerado processo de desmonte do Estado da nossa história.

É, aparentemente, um mistério, mas que se explica porque os verdadeiros donos do poder, o judiciário e a mídia, permitem que o governo siga em frente, desde que ele se limite estritamente a levar adiante o programa de desmonte.

Ora, sobre Dilma jamais pesou nenhuma suspeita de tamanha gravidade (tanto que seu impeachment se deu por conta de esotéricas “pedaladas fiscais”) e mesmo assim era atacada na mídia com uma virulência diária que a mídia nunca usou contra Michel Temer.

O posicionamento da Globo em relação a Temer é repleto de ambiguidades e jogo duplo. A Globo apoia Michel Temer, cujo governo bancou o seu novo “centro de jornalismo”, mas finge um posicionamento crítico, porque sabe que a sua força deriva de seu poder de fogo. No dia em que a classe política deixar de ter medo da Globo, então poderemos pensar numa regulamentação da mídia que possibilite a criação de um sistema de comunicação mais democrático e plural.

Por exemplo, durante o julgamento do mensalão, Chico Caruso fazia charges brutais contra os réus. Algumas delas eram positivamente sádicas, com os réus nus, expostos. Nada disso jamais foi feito contra Aécio Neves ou Michel Temer. Sobretudo, nada de maneira sistemática, repetitiva.

Temer, no entanto, possui três trunfos importantes, que garantem o apoio da elite:

1) As “reformas”, trabalhista e previdenciaria. Temer precisa entregá-las, e só ele tem a desonestidade suficiente para fazê-lo, assim como apenas Eduardo Cunha possuía o mau caratismo e o cinismo necessários para liderar o impeachment. Para aprovar as reformas, é preciso corromper os deputados, visto que estes temem o desgaste político e eleitoral de se alinharem a um governo tão impopular, e a reformas tão odiadas pela população. O discurso ético das elites e sua “indignação moral”, portanto, sempre foram radicalmente falsos.

2) A estabilidade econômica e política. O país está exausto. Desde, pelo menos, junho de 2013, que vivemos uma interminável crise política. O processo de impeachment foi uma aposta desesperada da elite, que não deu certo. Mas o jogo foi perigoso, porque a instabilidade gerou um desemprego monstruoso, que ameaça engolfar as cidades numa incontrolável onda de violência. O risco de convulsão social aumenta a cada dia. Temer, apesar de ter sido o responsável pela maior instabilidade de todas, que foi a ruptura política trazida pelo impeachment, hoje joga com a carta da estabilidade.

3) O medo de Lula e a falta de um plano B das elites. As elites conspiraram para derrubar a presidenta eleita com 54 milhões de votos, e a substituíram por um presidente medíocre e submisso aos ditames do mercado. Mas elas não tem um plano B sem houver necessidade de se livrar de Michel Temer. Além disso, Lula cresce nas pesquisas. É evidente que os conspiradores não investiram tão pesado na crise, não foram tão fundo em sua loucura destrutiva, para que o poder voltasse às mãos do PT. Temer sabe disso, e não é por outra razão que seus apoiadores (declarados ou ocultos), no judiciário, no MP, e na mídia, continuam operando para jogar a opinião pública contra o PT. Daí os desdobramentos incessantes da Lava Jato, as conduções coercitivas de funcionários do BNDES, as manchetes sensacionalistas em torno de denúncias escritas às pressas.

Essas são as razões pelas quais, mesmo que Rodrigo Janot aferrolhe os últimos parafusos no caixão de Michel Temer, isso não fará muita diferença. Temer continuará exercendo a presidência de dentro do caixão.

Por outro lado, se Temer é um morto-vivo, não podemos falar o mesmo da política. A política continua muito viva, e por isso mesmo ela vai se afastando cada vez mais de Temer e seu governo. Essa é a razão para a ascensão de Lula nas pesquisas: a população o vê como o político com melhores condições de derrotar o governo morto-vivo de Michel Temer.

Quanto aos outros candidatos, como Doria, Bolsonaro e Moro, eles se beneficiam da ignorância do eleitorado e da manipulação da mídia, que não os associa, como deveria, ao governo Temer, do qual eles são aliados e fiadores. Mas essa é uma verdade que vai ficar cada vez mais evidente, a cada dia, e a mídia, ao esconder isso, perderá ela também o pouco prestígio que ainda lhe resta.

Sobre a denúncia propriamente dita contra Michel Temer, vamos esperar que ela ocorra, para tecer comentários sobre ela.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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17 comentários

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Beba Monteiro

27 de junho de 2017 às 18h58

No Brasil, tucano pode ser flagrado traficando droga ou de arma na mão desovando um corpo, que não vai preso. Portanto, não vai ser surpresa pra ninguém se daqui a pouco houver uma filiação em massa nas cadeias do país, porque todo mundo já descobriu que ter filiação ao PSDB é o mesmo que ter um habeas corpus preventivo. Né mesmo?

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Marco Antônio Coutinho Costa

27 de junho de 2017 às 13h42

Não entendo porque os petistas estão tão bravos. Temer não foi o vice na chapa vencedora? Não ganhou de vocês 54 milhões de votos?
Não era o “todo queridinho” dos vermelhos?

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Jairo Gomes Viana

27 de junho de 2017 às 00h53

É de dar asco o que vem acontecendo no Brasil. Não é novidade o ódio que a décadas vem sendo direcionado ao PT, principalmente porque o homem vindo do povo, sem diploma universitário, de classe pobre fez vale a máxima de que qualquer cidadão brasileiro pode ser presidente do Brasil, quando em pleno domínio das suas funções e capacidade mentais. Jamais se podia imaginar que um metalúrgico chegaria ao mais alto posto, um chefe de nação respeitado no exterior, sendo o Cara. Isso foi possível, mas ódio ganhou proporções e preconceito, era inadmissível o PT se eternizar no poder, por que certamente depois da Dilma viria Lula que faria sucessor. Então a ordem desde primeiro de janeiro 2015, era interromper o projeto PT, para impedir a volta do Cara. A ordem era aniquilar com o PT, cassar seu registro extinguir com o partido, que embora tenha cometido erros , o PSDB, o PMDB e DEM não foram diferentes. A diferença que a direita no poder não havia investigação, por mais que o escândalo viesse a tona. É repetitivo dizer se é o Lula ou a Dilma no lugar do Temer, o Congresso Nacional o Senado, o STF, a Globo, o Moro, o Deltan, a OAB e os coxinhas do Vem Pra Rua já teriam feito o impossível para tira o Lula ou a Dilma da presidência. O caso Temer vai se arratar, mas se isso, não acontecer alguém da direita vai assumir o poder. O Lula pode ser preso, por que assim deseja o Moro, a Globo e a direita. Lula é a grande ameaça por que ele deu certo e no Brasil há quem deseje que as coisas não deem certo, por atende a elite.

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Elisabeth Pignatari Rovai

26 de junho de 2017 às 18h58

Aquele ali meio escondidinho na foto é o Moro??????kkkkk

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jorge

26 de junho de 2017 às 15h50

Ótimo pensamento. O brasileiro cada dia mais otario. Compra os poemas politicos y defende eles como se fosse a sua familia. Não enxerga , não quer enxergar. Mais quais brasileiros? Os únicos otarios que não enxergan são as pequenhas vermes da elite. O povo enxerga bem certo

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Jose Alberto uchoa

26 de junho de 2017 às 15h38

Pela primeira vez tenho a oportunidade de ler algo tão prazeroso e verdadeiro. Um texto que não tem medo de mostrar a verdadeira farsa desses políticos (corjas) corruptos, ladrões e traidores. E de um Império que dispõe alguns de seus apresentadores escondendo-se atras de um microfone a mostrar a verdade de maneira destorcida para a nossa sociedade. Deixando assim bem claro qual o lado da Emissora, que em vez de Popularizar mais com a população, faz questão de mostrar-se mais e mais Elitizada .

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marcos de avila

26 de junho de 2017 às 15h02

pensei que só o portal 247 botasse no ar reportagens esquerdopáticos e tendenciosos, defendendo o indefensável, pois o repórter passou mais tempo falando de pretensos crimes contra a presidente de esquerda, que para transmitir a notícia em si, lamentável, faz como os outros meios de comunicação, passa somente a mensagem que lhe interessa, para mim político que se envolve em maracutaia tem que ir para o paredão, pois rouba o povo e condena milhares a morte por desassistência, não importando de que partido seja.

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Atreio

26 de junho de 2017 às 11h58

m ais respeito, fio.

sem crime, sem imepachment.
por isso dilma volta – e canalhas em brasilia já se mijam de medo.

aécio, mt da mala, serginho EUA, tantan nhol…. todos irão ajoelhar no milho por terem insistido em pisar fora da faixa..

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Fabio

26 de junho de 2017 às 11h32

Tem certeza que anta era a Dilma?
Pense melhor, use o espelho e reflita bem ok

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Jorge L. Moreira

26 de junho de 2017 às 14h17

Parece mentira mas ele vai ficar até o fim e o aecio não vai ser preso. Lixo de país dominado completamente pela elite q, por sua vez, tem as botas lambidas pela classe média.

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Neli Rodrigues Ramos

26 de junho de 2017 às 14h14

Governo temer está morto fez tempo só não vê não quer

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Mário Ferreira

26 de junho de 2017 às 14h04

A maior interessada na continuidade do Temer é a Globo. Para o oligopólio da grande mídia associado aos rentistas esse governo é sopa no mel. Quanto mais fraco melhor, fica mais suscetível aos interesses da casa grande. Para o Congresso também é ótimo, a precariedade do governo facilita as negociatas e aumenta os lucros. Por isso, vão manter o morto embalsamado até encontrarem uma maneira segura de substitui-lo por outro reposto de confiança.

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Paulo L Maia

26 de junho de 2017 às 13h59

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    Jairo Gomes Viana

    27 de junho de 2017 às 01h05

    É de dar asco o que vem acontecendo no Brasil. Não é novidade o ódio que há décadas vem sendo direcionado ao PT, principalmente porque o homem vindo do povo, sem diploma universitário, de classe pobre fez valer a máxima de que qualquer cidadão brasileiro pode ser presidente do Brasil, quando em pleno domínio das suas funções e capacidade mentais. Jamais se podia imaginar que um metalúrgico chegaria ao mais alto posto, um chefe de nação respeitado no exterior, sendo o Cara. Isso foi possível, mas ódio ganhou proporções e preconceito, era inadmissível o PT se eternizar no poder, por que certamente depois da Dilma viria Lula que faria sucessor. Então a ordem desde primeiro de janeiro de 2015, era interromper o projeto PT, para impedir a volta do Cara. A ordem era aniquilar com o PT, cassar seu registro e extinguir com o partido; que embora tenha cometido erros , o PSDB, o PMDB e DEM não foram diferentes. A diferença é que com a direita no poder não havia investigação, por mais que o escândalo grave e viesse a tona. É repetitivo dizer se é o Lula ou a Dilma no lugar do Temer ou do Aécio, o Congresso Nacional o Senado, o STF, a Globo, o Moro, o Deltan, a OAB e os coxinhas do Vem Pra Rua já teriam feito o impossível para tirar o Lula ou a Dilma da presidência. O caso Temer vai se arratar, mas se isso, não acontecer alguém da direita vai assumir o poder. O Lula pode ser preso, por que assim deseja o Moro, a Globo e a direita. Lula é a grande ameaça por que ele deu certo e no Brasil há quem deseje que as coisas não deem certo, por atende a elite.

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    Jairo

    27 de junho de 2017 às 01h11

    Paulo L Maia foi ótima a charge, só faltou o Aécio. Talvez seja ele com a cara de pau escondida no caixão, atrás do FHC, com medo de ser preso.

    Responder

Jonas Moreira

26 de junho de 2017 às 13h52

Mais uma análise que não avalia criticamente o Meirelles e cia…. Parecem a serviço dos interesses do grande capital!

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Maria Madalena Nunes Venceslau

26 de junho de 2017 às 13h50

Nada acontece

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