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Mais uma agressão por intolerância religiosa: tudo a ver com o nosso histórico racista e escravocrata

Por Pedro Breier

21 de agosto de 2017 : 13h25

Uma senhora de 65 anos, Maria da Conceição Cerqueira da Silva, foi agredida com pedras na última sexta-feira em Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro. Leiam o revoltante relato da reportagem do G1:

Migrante nordestina, Maria estabeleceu moradia em Nova Iguaçu há quatro décadas. Candomblecista, passou a sofrer constantes ataques verbais por parte da vizinhança, segundo afirmou a filha dela, a vendedora Eliane Nascimento da Silva, de 42 anos.
A vendedora contou que também recebe ofensas por conta de sua religião. Ao contrário da mãe, ela é umbandista, prática também de matriz africana.
“Eu engulo calada [as ofensas]. A minha mãe não, ela enfrenta. Ela tem sangue nordestino, é uma idosa, semianalfabeta, e acaba revidando as agressões verbais. Só que o que fizeram com ela dessa vez foi uma covardia”, ressaltou.
Segundo Eliane, nesta sexta a mãe passava pela rua quando ouviu uma vizinha, que reiteradamente lhe dirige ofensas, dizer “lá vem essa velha macumbeira. Hoje eu acabo com ela”. Maria foi tirar satisfações e a vizinha pegou uma pedra no chão e arremessou contra a idosa.
“Ela [a vizinha] estava com a filha pequena no colo. A menina começou a chorar porque não entendeu o motivo da mãe fazer aquilo. Minha mãe chegou em casa esvaindo em sangue e o meu pai, um senhor de 72 anos, ficou desesperado sem saber o que fazer”, contou Eliane.

Casos de agressão por intolerância religiosa são recorrentes no Brasil. Em 2015, uma menina de 11 anos também foi agredida com uma pedrada no RJ. No Estado do Rio, o Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos (Ceplir), criado em 2012, registrou 1.014 casos entre julho de 2012 e agosto de 2015, sendo 71% contra adeptos de religiões de matrizes africanas, segundo matéria da BBC.

A intolerância contra as religiões de matrizes africanas é, evidentemente, um dos refúgios do racismo. No mais recente caso de violência, relatado acima, juntou-se ao preconceito racial o preconceito contra os nordestinos.

Como o racismo escancarado não é mais aceitável socialmente, ele acaba migrando para comportamentos associados à população negra.

A recente tentativa de criminalização do funk, em projeto de lei apresentado no Congresso, é um exemplo. Em 2015 um projeto de lei apresentado na Assembleia dos Deputados gaúcha tentou proibir o sacrifício de animais em cultos de origem africana. O poder público, que deveria ter o papel de garantir a liberdade religiosa de todos os cidadãos, acaba, muitas vezes, sendo um agente propulsor da intolerância e da violência.

Para completar, alguns pastores de igrejas neopentecostais instigam o ódio ao associar a macumba com maldade, com o “demônio”, etc. Inclusive por meio de transmissões de cultos na TV aberta, em rede nacional (alô, Ministério Público)!

A origem da umbanda é retrato do pesado histórico racista do nosso país. A inclusão de elementos católicos na religião teve o objetivo de torná-la palatável aos senhores de escravos. A umbanda acabou abarcando um sincretismo religioso incrível, com elementos africanos, católicos e indígenas. É um belo exemplo de como as ricas e diferentes culturas que compõem o Brasil podem e devem conviver em paz.

Situações tristes e inaceitáveis como a agressão sofrida pela valente dona Maria são, portanto, reflexos do arraigado racismo brasileiro, que vem da nossa origem escravocrata não resolvida. Com a palavra, o sociólogo Jessé de Souza:

As pessoas são montadas, criadas, pelas instituições, e isso é fácil provar. E a instituição básica no Brasil foi a escravidão. Mas o Brasil nunca criticou a sua herança escravocrata. É importante repetir sobre isso porque se um povo não tem memória, ele não reflete sobre o que ele é, de que maneira que a história foi feita. Mas isso é feito com um sentido, para que a gente nunca saiba quem a gente é, quem manda na gente e de que modo manda.

Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve n'O Cafezinho desde 2016, sendo atualmente um dos editores do blog.

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18 comentários

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Carrie Coleman

22 de agosto de 2017 às 23h13

Cadê os coxinhas e as pessoa de “bem” condenando esse ato de violencia contra uma mulher pacífica exercendo sua religião( o que é seu direito constitucional)? Não vejo o MBL aqui condenando essa violencia. Não vejo um troleiro da direita mostrando sua indignação contra essa brutalidade. Canalhas!

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Valeria

22 de agosto de 2017 às 17h08

Sou evangélica. Se há algo que Jesus ensinou foi a tolerância. Jesus mandou amar ao próximo como a si mesmo. Jesus incluiu os marginalizados : mulheres, crianças, estrangeiros, religiões diferentes. Jesus foi acusado por se sentar a mesa com os pecadores.
Me causa preocupação, de um lado uma bancada evangélica que se associou ao lado oposto ao que Jesus defendeu, mas também me preocupa uma ideação de culpar aos evangélicos ainda que sem provas.
É bem verdade que existem pessoas que se denominam evangélicos, mas não possuem um comportamento compatível com o cristianismo. Mas esperar a perfeição de evangelicos ou de qualquer outro ser humano com ou sem religião , é perda de tempo. Mas promover caça as bruxas aos evangélicos pode resultar numa nova noite de São Bartolomeu. Quem tem consciência que reflita.
Quanto aos “demonios” será que nunca ninguém passou por uma casa de artigos religiosos de um banda e viu uma estátua de um homem vermelho de tridente? Ou uma mulher vermelha de tridente? Estou equivocada?

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Emerson

22 de agosto de 2017 às 13h48

Nunca, nenhum pastor instiga a violência. Eles dizem que tem que orar por quem é de outra religião, seja lá qual for. É importante dizer, que as pessoas odeiam os evangélicos, e por isso, os acusam de fazer intolerância religiosa, e isso na verdade é intolerância religiosa. Os pastores não são os donos da verdade, apenas pregam a Bíblia, que é a verdade. Quando acusam políticos evangélicos de serem envolvidos em corrupção, aí vemos intolerância religiosa, pois a corrupção no país, não tem partido nem religião, infelizmente estão todos partidos e religiões envolvidas.

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Luiz Carlos

22 de agosto de 2017 às 08h51

Vamos combinar: a única religião, no Brasil, que ataca as outras religiões, é a evangélica. Essa mesma que tem uma bancada na política em que, quase todos, estão envolvidos com corrupção. Temos que denunciar isso, de maneira direta e sem meias palavras. Infelizmente esses pastores pregam o ódio e a segregação religiosa, pois eles acreditam ser os donos da verdade. Tá dito, sem meias palavras.

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    Emerson

    22 de agosto de 2017 às 13h50

    Sua manifestação é um belo exemplo de intolerância religiosa, acusa, sem provas. Acusa por ódio. Mas ,que Deus te abençoe.

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Carrie Coleman

22 de agosto de 2017 às 08h01

Sou branca e não tenho religião, mas sei que a alma brasileira é negra e disso um tenho um enorme orgulho. Minha alma brasileira é NEGRA! Obrigado povo negro por tudo o que voces nos deram e continuam dar: música, cultura, tradição, dignidade em face de tanta desciminação. O povo negro é o que o Brasil tem de mais lindo e humano! Como disse o nosso grande Chico Buarque “Eu, que não creio, peço à Deus a minha gente. É gente humilde, que vontade de chorar.”

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Lucia Stone A. da Rosa

22 de agosto de 2017 às 03h51

Absurdo!!
Profundamente lamentável!!

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Ana Veronica Miyasaka

22 de agosto de 2017 às 03h38

IGNORÂNCIA PURA E SIMPLES,SOMOS DESCENDENTES DIRETOS DE NEGROS E ÍNDIOS E NOSSA RELIGIÃO VEM DOS ENSINAMENTOS DELES.

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Iran Lima

22 de agosto de 2017 às 01h22

Covardes!! Esses q fez isso devem pagar ..
Preconceito ,agração a idosa Mulher, … devem mofá lá!!

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Valdete Lima

21 de agosto de 2017 às 20h55

O Brasil só será um grande país quando suas origens forem do conhecimento de todos. Com debates em todas instâncias de ensino e a nossa História sendo ensinada. Negros, brancos, índios, o que sabemos da verdadeira História do Brasil? Realmente, o” grande irmão” não quer que saibamos quem somos. Deixa estar assim que é melhor pra ”eles” . Mas, acredito, que um dia virá que meus netos ou bisnetos conhecerão como foi formado esse Brasil varonil.

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Mario Barboza

21 de agosto de 2017 às 23h19

Isso é coisa de romano devasso travestido de cristãos, que engana, enrola e tira de pobres e excluídos…

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Mario Barboza

21 de agosto de 2017 às 23h18

Não foi judeu, católico ou muçulmano..

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Antonio Gonçalves

21 de agosto de 2017 às 23h10

Chega de atacar e tentar destruir os templos e atacar as pessoas, mostre quem é batuqueira e façam um trabalho pra esses imbecis verem quem provoca leva mande um exu, atormentar sua vidas.

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Carmem Stewart

21 de agosto de 2017 às 22h56

E os bolsonitos acrediram que bolsonaro é a resposta para a intolerencia

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Leiliane Oliveira

21 de agosto de 2017 às 19h08

Tem que fazer BO.

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RB Bloisi

21 de agosto de 2017 às 18h21

Que ABSURDO!!!!

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Sirlei Moura

21 de agosto de 2017 às 17h53

Eu digo e repito sou católica mas tenho profundo respeito por todas as religiões.A intoleracia tem que Acabar.Como é que as pessoas tem coragem de falar em Deus e ao mesmo tempo ter preconceito com as escolhas dos outros.Hipócritas.

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Vania Freitas Andrade

21 de agosto de 2017 às 17h25

Lamentável!

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