STF discute prisão em 2ª instância

Michel, entre a mala e a mata

Por Denise Assis

26 de agosto de 2017 : 14h41

(Encontro de lideranças indígenas com o governador do Amapá Jorge Nova da Costa. Foto: Dominique T. Gallois, 1989)

Por Denise Assis

Articulistas e articulados, ativistas e até os que não diferenciam um pé de couve de um pé de alface ficaram estupefatos com a medida de Michel, de extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca), entre o Pará e o Amapá. Nunca é demais lembrar que ela foi criada em 1984, pelo ditador João Figueiredo, que apesar do seu conhecido estilo rude teve – conforme ficou demonstrado – mais sensibilidade com o torrão, do que Michel, o indevido. Para Michel, que provavelmente jamais se arriscaria a uma descida às matas da região, aquilo lá “não é nenhum paraíso”.

Foi o que mandou que os seus assessores dissessem depois do barulho comprado com os ambientalistas do país e de todo o planeta.

Depende do ponto de vista. Claro que para quem se preocupa em trocar sofás de couro por estofados pretos, tem medo de fantasmas (e da própria sombra), e mais noção das dimensões de uma mala com rodinhas do que do espaço que ocupam as nossas florestas, uma imensidão verde povoada por indígenas não chega mesmo a mover um músculo do seu rosto.

Diga-se de passagem, exercício difícil, depois de tantas intervenções.

Segundo o comunicado oficial, “hoje, infelizmente, territórios da Renca original estão submetidos à degradação provocada pelo garimpo clandestino de ouro, que, além de espoliar as riquezas nacionais, destrói a natureza e polui cursos d’água com mercúrio”, mandou dizer. A tal nota afirma ainda que: “não só não haverá danos às áreas preservadas, como o novo decreto vai “coibir essa exploração ilegal, recolocando sob controle do Estado a administração racional e organizada de jazidas minerais importantes, que demandam pesquisas e exploração com alta tecnologia”.

Aí a notícia carece de reflexão. O governo de Michel sabe que a região é ocupada por garimpos clandestinos e não toma nenhuma providência no sentido de fiscalizar e punir os invasores. Desta feita, em vez de tirar o bode da sala, resolve vender a sala com bode e tudo. Aliás, não é a primeira vez que Michel se põe paralisado diante de um mal feito.

A “natureza” que está sendo destruída, Michel, é a do país que você administra. Não é o quintal do vizinho. Ao mesmo tempo, soa estranha a garantia de que agora, quando passar para mãos certamente estrangeiras e privadas, haverá um “controle” e uma “administração racional e organizada de jazidas minerais importantes”.

Como assim? Qual foi o pedaço que eu perdi? Há, no momento, na Renca, uma malha de mineração ilegal sabida e mapeada, que rola solta como a Casa da Mãe Joana, sem que o governo de Michel faça nada para “coibir” as infrações. Em passando para a iniciativa privada, segundo o documento emitido por sua orientação, os empreendimentos que porventura se instalem na área de conservação estaduais no Amapá e no Pará cumprirão “exigências federais rigorosas para licenciamento específico, que prevê ampla proteção socioambiental”.

Ora, enquanto está sob o seu governo é um verdadeiro bordel a céu aberto, mas sob a égide da exploração sob alta tecnologia privada (e por que ele reduz tanto a verba para a pesquisa científica?) tudo será organizado, limpo, vistoriado e os índios respeitados. Já posso imaginá-los num cercado, como no zoológico, com placas de: “é proibido jogar amendoins”.

Sem a menor cerimônia a nota segue afiançando que “o compromisso do governo é com o soberano desenvolvimento sustentável da Amazônia, sempre conjugando preservação ambiental com geração de renda e emprego para as populações locais”.

Michel não tem a menor noção do que está falando. Não teve, como eu, a oportunidade de ver aquela tribo de Wayampis, sob a neblina da mata, ao amanhecer, com, seus colares de contas azuis e vermelhas, cruzados nos peitos miúdos e estufados de orgulho, cantando o hino nacional, para recepcionar os jornalistas. A mata, naquele momento, era uma catedral, que fazia ecoar as vozes infantis dos indiozinhos, enquanto eu continha a custo a emoção de ver aqueles curumins num lugar que quase cai do nosso mapa, de tão distante, homenagenado a pátria. É certo que essas crianças não verão país nenhum, mas é certo também que você não terá nunca a oportunidade de viver esta cena, Michel. E, depois, que importância tem isto, não é mesmo?

Denise Assis

Denise Assis é jornalista e autora dos livros: "Propaganda e cinema a Serviço do Golpe" e "Imaculada". É colunista do blog O Cafezinho desde 2015.

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14 comentários

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Jose Roberto Michel

28 de agosto de 2017 às 12h02

QUER SABER COMO FUNCIONA A MÍDIA PODRE (GLOBO, ETC)?
ASSISTA, NA NETFLIX, AO FILME MEXICANO “A DITADURA PERFEITA”

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Julio Spina Napoleao II

27 de agosto de 2017 às 22h59

A GLOBO É INCOMPATÍVEL COM A DEMOCRACIA.

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Ricardo Sales

27 de agosto de 2017 às 15h10

Infelizmente o cargo não está nas mãos dele. Ele apenas é pau mandado. Qualquer um percebe isso.

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Nelson Eduatdo Schilieve

27 de agosto de 2017 às 14h20

Me digam, pra serve o índio?

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Marco Antonio Ferreira

27 de agosto de 2017 às 04h14

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Iraque Melo

27 de agosto de 2017 às 04h05

Quando os LADRÕES Portugueses aqui INVADIRAM, a primeira coisa que eles fizeram foi ROUBAR as terras dos Índios; posteriormente, foi celebrada uma MISSA, a fim de comemorar o ASSALTO. Mais de 500 anos já rolaram no calendário Gregoriano, e os brancos “civilizados” e ladrões continuam ROUBANDO as terras dos Índios. No entanto, isso não tem a menor importância. Índio não pertence à espécie humana !!

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Marcos Pinto Basto

27 de agosto de 2017 às 00h43

Enquanto não for deflagrada uma GREVE GERAL IRRESTRITA que force esse miserável TRAIDOR Temer a deixar o Planalto para dar entrada na Papuda, acompanhado de toda a quadrilha, somos obrigados a assistir ao desmonte criminoso de nossa economia e desbaratamento do patrimônio inegociável da Nação! Não adiantam mais comentários repudiando as ações deste grande canalha que continua tumultuando a vida nacional. Temos que partir para o ataque, cortando o mal pela raiz e nada mais eficiente que paralisar o País até os ratos, hienas e urubus serem trancafiados na Papuda, isto porque somos muito bonzinhos, noutro país deste mundo, tinham garantido o fuzilamento em praça pública.

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Eloiza Augusta

27 de agosto de 2017 às 00h07

Parabéns pelo excelente texto.

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Cynthia Araujo Pereira

26 de agosto de 2017 às 22h07

Quer entregar nossa Amazônia seu canalha, entregue seu cargo antes que acabe de entregar nosso país !

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Carlos

26 de agosto de 2017 às 16h17

Esta reserva já estava com os dias contados quando em março passado, a mesma foi colocada a disposição de mineradoras canadenses. Temer já havia premeditado a venda para mineradoras multinacionais. Isso é um ato de lesa pátria, porém, não existe instituição nenhuma que possa reverter a entrega do país ao capital estrangeiro, pois todos conspiraram a favor da quadrilha que tomou o poder, inclusive as forças armadas.

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Couto

26 de agosto de 2017 às 15h06

É triste, mas essa ditadura está sendo pior que a militar. A quebra da soberania nacional é um crime por cuja punição espero que venha logo. É irônico, mas Figueiredo disse: “um dia vocês sentirão saudade de mim”

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    Maurilio

    27 de agosto de 2017 às 08h52

    Não sinto saudade do ditador Figueiredo, mas com certeza nos lembramos dele nesta hora. Putz, até um ditador militar respeitou mais nossas reservas que o pulha corno que ocupa o trono no momento.

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