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A “intervenção federal” que o Rio precisa: mais emprego, transporte, saúde e educação

Por Miguel do Rosário

16 de fevereiro de 2018 : 12h55

O dia amanheceu hoje com um anúncio vindo de toda parte: o presidente Michel Temer, vulgo vampirão neoliberal, vai decretar uma espécie de Estado de Sítio para o Rio de Janeiro, ou, numa linguagem mais jornalística, irá promover uma “intervenção federal” na segurança pública do Estado, com uso do Exército.

É uma solução já manjada. Toda vez que o Rio enfrenta problemas no campo da segurança pública, o governo, a Globo e a classe média apavorada/manipulada chamam o Exército, cujos tanques de guerra se posicionam às portas das favelas, fazendo pose para o Jornal Nacional.

As estatísticas mostram, porém, que as taxas de criminalidade não diminuem com a presença do exército. Ao contrário, aumentam. Confira esse gráfico, publicado pelo jornal Extra ao final de agosto de 2017, após um mês de presença do exército no Rio.

Mesmo com a presença de quase 9 mil soldados no Rio, de 28 de julho de 2017 ao final de agosto, quase todas as taxas de crime aumentaram, e muito. O número de homicídios na capital, por exemplo, cresceu 27% em agosto de 2017, mesmo com a presença do exército.

A principal “ghost news” (aquelas notícias assustadoras que nunca aparecem na mídia) do Rio, na verdade, quando se trata do tema da segurança pública, são os números que se referem ao desempenho da economia.

Os efeitos Lava Jato continuam devastando a indústria fluminense. O quadro do desempenho da arrecadação fiscal, publicado no último boletim de conjuntura econômica fluminense, do Ceperj, mostra que a indústria, principal fonte de receita fiscal do estado, pagou 6% a menos de impostos em 2017.

Entretanto, é no indicador de emprego, em especial nos setores de derivados de petróleo e máquinas e equipamentos, que encontramos os dados mais assustadores, e que explicam o caos vivido pelo Rio. Confira abaixo os gráficos que fizemos, com base em números compilados pela Firjan.

Por “concidência”, as linhas começam a desabar com muita força exatamente a partir do início da operação Lava Jato, ou seja, em meados do primeiro trimestre de 2014, ou pouco depois, ganhando intensidade a partir de 2016, com o golpe, quando dois fatores destrutivos se juntam com o mesmo objetivo de arruinar o Estado e reduzir os investimentos: Lava Jato e governo Temer.

 

 

 

O Rio de Janeiro vive ainda um outro problema, também derivado da Lava Jato. A intervenção judicial no setor de transportes está produzindo um segundo foco de destruição na economia do estado.

A corrupção endêmica e terrível do setor de transportes, ao invés de ser combatida tendo como preocupação central a melhora dos serviços oferecidos ao cidadão, assim como não provocar desemprego e perda de arrecadação, foi tratada pelas autoridades do judiciário, como Marcelo Bretas, e do Ministério Público, com a mesma irresponsabilidade vista nas investigações comandadas por Sergio Moro. Como consequência de prisões sensacionalistas, arrestos de bens, bloqueio de contas, determinados sem cuidado, apenas para gerar manchetes na Globo, linhas de ônibus estão sendo interrompidas, funcionários estão sem pagamento e a arrecadação fiscal do setor está despencando. Alguém poderia falar: ah, mas você prefere que a corrupção continue? Claro que não. Essa estratégia ianque, todavia, de afundar o país achando que daí nascerá democracia, não deu certo no Iraque nem dará certo no Rio. É preciso bom senso, responsabilidade e respeito pelas empresas de áreas estratégicas, cujos serviços e bens pertencem ao cidadão e ao Estado, não a seus donos.  Se o Judiciário quer intervir numa empresa, então que determine sua estatização, ao invés de fazer bloqueios bancários que irão paralisar o serviço e suspender o pagamento de seus funcionários.

O transporte público no Rio vive o pior momento de sua história. Os cidadãos fluminenses experimentam, diariamente, situações desesperadoras. Investimentos pesados em transportes mais modernos e eficientes, em especial trens, metrôs e corredores especiais de ônibus, poderiam gerar milhões de empregos, elevar a produtividade econômica do estado, melhorar sua arrecadação e, sobretudo, aliviar as tensões sociais que tem gerado tanta violência.

A indústria de óleo e gás, por sua vez, precisa renascer. Mas isso é uma consequência direta do golpe. A paralisia e virtual suspensão da construção da refinaria em Itaboraí, a Comperj, exigida pela Lava Jato, destruiu a oportunidade mais real, em décadas, de libertação econômica da baixada fluminense.

Os anos que se seguiram à descoberta do pré-sal, quando a Petrobras começou a investir pesado em pesquisa, desenvolvimento e refino, foram o momento em que a baixada fluminense, uma das regiões mais miseráveis e violentas do país, chegou mais perto do sonho de se desenvolver com justiça social.

Mas o governo Temer e a Globo preferem botar tanques na rua.

A crise fiscal provocada pela Lava Jato tem paralisados os serviços públicos essenciais, como saúde e educação, gerando insegurança e desespero na população, elevando as tensões sociais, a pobreza, e criando um clima propício ao aumento da violência.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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