Boulos no programa de Maurício Meirelles

EFE/ Antonio Lacerda

Ouviremos o alerta de Mano Brown?

Por Miguel do Rosário

30 de outubro de 2018 : 15h17

Antes de fazer os primeiros comentários sobre a conjuntura nascida da eleição deste domingo, vamos reunir os dados objetivos que temos à disposição.

Considerando que o último Datafolha, com pesquisas feitas nos dias 26 e 27 de outubro, acertou o resultado das eleições do domingo 28, cravando exatamente os 55% X 45% mostrados pelas urnas, podemos usá-lo como referência para analisar as características sócio-econômicas do eleitor.

Os resultados frios das urnas, por sua vez, podem ser conferidos no site do TSE. Alguns jornalões também oferecem, gratuitamente, infográficos e mapas com os resultados eleitorais: G1, Folha, Estadão.

Comecemos pelos resultados no exterior. As informações foram colhidas de uma reportagem do Estadão.

Nas 16 seções de Paris, Haddad recebeu 69,45% dos votos válidos. Na capital francesa, 4.654 eleitores foram às urnas e deram 30,55% dos votos a Bolsonaro. Brancos e nulos somaram 402 votos.

Bolsonaro também ganhou no Reino Unido, onde levou 61,38% dos 8.405 votos válidos em Londres. Haddad teve 38,44%. Pouco tempo antes de as seções da embaixada brasileira em Londres serem fechadas, houve um princípio de confusão, controlado pela polícia.

Em Genebra, na Suíça, Bolsonaro ganhou com 58,4%. Fernando Haddad ficou em segundo lugar com 1.077 votos. Na seção de Zurique, a diferença foi mais expressiva. Bolsonaro teve 2,7 mil votos e Haddad, 1,7 mil.

Nestas eleições 2018, há 500.727 brasileiros aptos a votar em 99 países. Em relação à eleição de 2014, houve um aumento de 41%, resultado de uma campanha feita pelo Ministério das Relações Exteriores. Foram instaladas 744 urnas em 171 locais.

Segundo o TSE, um total de 201.176 brasileiros votaram no exterior. Destes, 130 mil, ou 71%, votaram em Jair Bolsonaro.

Haddad recebeu 53.730 votos no exterior, neste segundo turno, ou 29% dos votos válidos.

Certamente, estes 71% de brasileiros residentes no exterior, que votaram no candidato do PSL, não são “fascistas”.

Tenho dúvidas também se votaram em Bolsonaro porque são classe média e a classe média “odeia pobres”. Em sua maioria, são imigrantes que trabalham duro, e que, por alguma razão, enxergaram qualidades em Bolsonaro que não viram em outros candidatos; entre essas “qualidades”, possivelmente está a de fazer oposição dura, implacável, ao PT.

Vamos agora analisar a votação nas urnas do Brasil.

Segundo o TSE, 116 milhões de brasileiros compareceram às urnas neste segundo turno. É um número apenas um pouco menor ao comparecimento no primeiro turno, que foi de 117 milhões de eleitores.

Diante de um número dessa magnitude, me parece fútil olhar para a abstenção de 20%, ou 30 milhões de eleitores.

Bolsonaro recebeu 57,8 milhões de votos, o que correspondeu a 55% dos votos válidos, a 28% da população brasileira e 39% do eleitorado total. Eu fiz uma tabela comparativa com o desempenho eleitoral de Donald Trump em 2016.

Trump venceu as eleições americanas com 63 milhões de votos, o que correspondeu a 46% dos votos válidos, a 19% da população total do país naquele ano e a 28% dos cidadãos americanos com mais de 18 anos e aptos a votar.

A tabela mostra que Bolsonaro obteve uma votação muito relevante, e que ele representa, portanto, uma parcela expressiva da população brasileira, que precisa ser ouvida e com a qual as forças políticas democráticas, justamente por serem democráticas, precisam estabelecer diálogo.

No estado do Rio de Janeiro, onde Dilma ganhou em 2014 com 55% dos votos válidos, Bolsonaro obteve, neste segundo turno, 68% dos votos válidos. No município do Rio de Janeiro, Bolsonaro ganhou com 66%.

Em Minas Gerais, onde o PT havia obtido, no segundo turno de 2014, 52% dos votos válidos, Bolsonaro ganhou este ano com 58% dos votos. Na capital do estado, Belo Horizonte, Bolsonaro obteve 65% dos votos.

Em algumas capitais do Nordeste, Bolsonaro teve um bom desempenho. Em Recife, Pernambuco, por exemplo, o deputado conseguiu 47% dos votos válidos. Em Maceió, Alagoas, Bolsonaro ganhou com 62% dos votos.

Haddad teve seu melhor desempenho no Piauí, onde obteve 1,4 milhão de votos, ou 77% do total de votos válidos.

Agora vamos analisar o último Datafolha, desta vez não mais para avaliar o potencial de cada candidato, mas para entender o perfil sócio-econômico do eleitor que foi às urnas no último domingo. Conforme dissemos no início do post, a feliz coincidência entre o resultado das urnas e os números da pesquisa dão a estes últimos uma dimensão objetiva muito importante para nossos debates.

A coincidência, no entanto, não foi completa. Bolsonaro foi melhor nas grandes cidades, em especial nas capitais, como Rio e São Paulo, do que sinalizava o Datafolha. O instituto previa que Bolsonaro ganharia na cidade do Rio, por exemplo, com 57% dos votos válidos; ele obteve 66% no Rio. Em São Paulo, capital, onde se dizia que Haddad teria “virado” e estaria numericamente à frente de Bolsonaro, o deputado ganhou com 60% dos votos válidos. Nas regiões Sul e Sudeste, a “periferia”, as bases, conforme havia alertado Mano Brown, não mais se identificam com o PT.

Dito isto, vamos ao Datafolha. Primeiramente, olhemos o quadro com a segmentação por gênero, idade, escolaridade e renda.

Para facilitar nossa sintaxe, vamos assumir os números como equivalentes aos votos.

Então podemos dizer que Bolsonaro obteve 60% dos votos masculinos, 58% dos votos de eleitores com ensino médio, 61% daqueles com ensino superior, 61% dos eleitores com renda entre 2 e 5 salários, 69% dos votos de eleitores com renda de 5 a 10 salários, e 67% dos votos dos eleitores que ganham renda familiar acima de 10 salários.

O melhor desempenho de Haddad foi entre eleitores jovens, até 24 anos, onde ele empatou com Bolsonaro, em 50% X 50%. Essa boa performance na juventude me parece o caminho para reconstruirmos, até 2022, maioria social.

Olhemos agora as taxas de rejeição de ambos os candidatos. O Datafolha registrava que Haddad tinha uma rejeição média de 52%.

Este número, porém, cresce muito em determinados segmentos. Entre homens, por exemplo, a rejeição a Haddad era de 56%. No Sudeste, de 59%. Entre eleitores com renda de 2 a 5 salários, a rejeição a Haddad era de 58%. Entre eleitores com renda familiar de 5 a 10, de 67%, mesmo percentual para eleitores com renda acima de 10 salários.

Entre eleitores com ensino médio, a rejeição de Haddad estava em 55%; e 60% entre eleitores com ensino superior.

Conclusão

A derrota do PT  se deu, fundamentalmente, por causa de uma rejeição extremamente alta entre as classes instruídas, aquelas que fazem barulho, que participam das redes sociais.

A missão dos intelectuais, a partir de agora, é usar a criatividade para reconstruir as pontes entre o ideário progressista e os segmentos instruídos. Para isso, a esquerda precisará sair do pedestal moral que montou para si mesma, assumir os incontáveis erros políticos que cometeu ao longo dos últimos anos, e dialogar educadamente com a maioria da população que rejeita o PT.

É óbvio que os 57 milhões de eleitores que votaram em Bolsonaro não são fascistas. São eleitores que, por uma razão ou outra, preferiram o deputado à volta do PT ao poder.

Por que pensam assim?

Os escândalos de corrupção talvez expliquem boa parte dessa rejeição. A reação do PT diante dos escândalos, optando por um confronto juvenil com o judiciário, também devem ter pesado na opinião pública.

Para deixar claro: confrontar o judiciário não é, necessariamente, um erro. O erro se dá no modo “juvenil”, irresponsável, quase ingênuo, como se deu este enfrentamento. Alguns intelectuais organizaram seminários e livros para fazer uma batalha mais inteligente. Esse era o caminho mais prudente a seguir, mas essa estratégia foi enfraquecida por também ficar à mercê de interesses partidários. Os livros foram patrocinados por centrais sindicais e lançados em eventos político-partidários. Partidos e sindicatos devem participar do “lawfare”, mas de maneira discreta, tendo em mente sempre que é preciso persuadir os que pensam diferente.

A luta jurídica deveria ter sido separada, desde o início, das disputas partidárias. Mas o PT fez exatamente o contrário. O PT tentou faturar politicamente com a onda de solidariedade em favor do ex-presidente Lula, confundindo-a com um aval político para voltar ao poder.  O resultado foi que o anseio popular para condenar Lula e mantê-lo preso acabou se tornando uma das mais poderosas e contaminantes demandas políticas dessas eleições, penetrando inclusive nas disputas regionais.

O discurso final de Bolsonaro, às vésperas de sua votação, é a prova disso: ele disse a seus eleitores que Lula iria “apodrecer” na cadeia.

E, após a vitória, o seu primeiro ato de impacto foi um convite a Sergio Moro para que integre o seu governo…

Nada disso é surpresa, visto que as pesquisas já indicavam, no momento da prisão de Lula, que a maioria da sociedade apoiava a decisão da justiça. Pesquisa Datafolha divulgada em meados de abril, após a prisão do ex-presidente, informava que 54% dos brasileiros achavam que a prisão de Lula era “justa”. Entre brasileiros com renda entre 2 e 5 salários, este índice subia para 63%; entre quem ganhava entre 5 e 10 salários, para 73%! Era óbvio, para qualquer observador político minimamente isento, que o lançamento da candidatura Lula ao cargo de presidente da república, nessas condições, seria considerado, por milhões de brasileiros, uma provocação insuportável. Era uma fórmula destinada não apenas ao fracasso eleitoral, mas a fazer crescer exponencialmente a rejeição ao PT, e a todos aqueles que se aproximassem da narrativa do partido. Era, em suma, dançar à beira do abismo!

É uma pena que outros setores da esquerda, como o PCdoB e até o PSOL não tenham visto isso, e tenham abraçado tão acriticamente a narrativa petista de que Lula tinha o “direito” de ser candidato. Ora, Lula não tinha direito de ser candidato porque estava condenado e preso. Condenado injustamente e preso arbitrariamente, mas ainda sim, preso! E com a maioria da população brasileira achando que a prisão era justa. Por essas razões, que são de ordem puramente política, não moral ou filosófica, Lula não tinha o direito de ser candidato. Deveria ter dado um passo atrás e apoiado outra pessoa, seja do PT seja de outro partido.

Neste sentido, Ciro Gomes agiu certo do início ao fim, mesmo sofrendo a incompreensão e as ofensas dos setores da esquerda que se abraçaram ao PT, e que passaram toda a campanha, no primeiro turno, no segundo turno, e até mesmo agora, tentando destruí-lo.

Ciro jamais poderia apoiar Haddad entusiasticamente no segundo turno, por razões políticas importantes. Sem tempo de TV, isolado politicamente pelo PT, sem recursos financeiros, a sua campanha só não desidratou completamente, conforme previam todos os petistas, porque ele conseguiu convencer muita gente que a estratégia do PT estava profundamente equivocada. Um apoio explícito a Haddad, portanto, seria uma violência a si mesmo e a tudo que tinha falado durante sua campanha, e não teria qualquer impacto eleitoral relevante. Ao mesmo tempo, Ciro evitou fazer qualquer crítica ao PT durante o segundo turno. Viajou e ficou quieto. Se não se sentiu em condições de ajudar, optou por não atrapalhar.

Marina Silva apoiou Haddad, mas o texto em que o fez trouxe críticas tão pesadas ao PT, e ela mesma, durante a campanha, atacou tão duramente o PT e Lula que não entendo porque os petistas deram qualquer importância a isso.

Diante da rejeição tão monstruosa ao PT, em especial no sudeste e nas classes médias, Haddad não teria condições de governar ou reduzir a polarização “odienta” presente no país. De que adiantaria, para Ciro, agir como Guilherme Boulos e se manter como um “heroi” da bolha esquerdista, submetendo-se a uma narrativa completamente estranha ao que defendia, e destruindo pontes com a maioria da população?

A esquerda precisa calçar as sandálias da humildade e entender, de uma vez por todas, que não pode se dar ao luxo de brincar de fazer política, tampouco jogar fora suas melhores lideranças, aquelas que estão livres, soltas, que podem, objetivamente, construir estratégias políticas criativas, diferentes, e estabelecer relações com setores sociais hostis ao PT.

A comparação, neste sentido, de Ciro Gomes a Marina Silva é simplesmente desonesta. Marina Silva apoiou Aécio Neves em 2014. Ciro Gomes apoiou Haddad. Não da forma explícita como queria o PT, mas apoiou; disse “ele não” horas depois do resultado do primeiro turno; seu partido, PDT, deu apoio oficial a Haddad e ele mesmo, em seu vídeo final, deixou claro que votava contra a intolerância e em favor da democracia. Na sintaxe da campanha no segundo turno, essas expressões eram muito claramente associadas a Haddad. Além disso, a campanha de Ciro foi montada sobre uma plataforma profundamente progressista, nacionalista, desenvolvimentista, ao contrário de Marina, cujo programa em 2014 era notoriamente de direita. Marina Silva passou toda a campanha do primeiro turno fazendo ataques pesadíssimos a Lula (inclusive defendendo sua prisão) e ao PT, além de reiterar seu apoio ao impeachment, negando reiteradamente que fosse um golpe. Ciro, ao contrário, sempre opinava que a sentença de Lula era injusta, e denunciava expressamente o impeachment como um golpe de Estado.

Ao contrário de Haddad, que dizia achar a palavra “golpe” muito forte, e quase nunca a usava, Ciro ajudou a consolidar a força semântica do “golpe”. Passou três anos correndo Brasil usando a palavra golpe em todos os seminários de que participava!

Diante dessas diferenças, como é possível comparar Ciro à Marina?

A esquerda precisa dar valor às ideias! São elas que, ao cabo, importam! Ciro seria uma nova “Marina” se tivesse feito uma campanha lastreada num programa político conservador. Não foi este o caso. A plataforma política de Ciro Gomes era, em vários aspectos, mais substantivamente progressista do que a do PT.

Agora cabe à esquerda e ao centro formar um bloco de resistência, mas sem palavras de ordem, pelo amor de Deus! Já vimos que sair às ruas gritando “vai ter resistência” é sinônimo de que “não haverá resistência”. Chegará o momento de tomarmos as ruas, mas primeiro temos que formar consciências, ganhar a opinião pública, em especial as classes instruídas. Caso contrário, seremos simplesmente trucidados.

A hora é de pensar, construir pontes, agir com inteligência, sem bravatas, sem sectarismos, sem xingar uns aos outros.

É hora de ouvir o alerta de Mano Brown e voltar às bases, para ouvir o que o povo pensa.  E eu estenderia o apelo de Mano Brown: o povo não está apenas no Capão Redondo ou nas periferias; está em toda a parte. O povo é um conceito universalista que deveria abarcar a totalidade da população brasileira: burgueses, classe média, favelados, intelectuais, professores. Todo mundo é povo e tem sua contribuição a dar.

Ouvir, ouvir, ouvir, sem retrucar com irritação, grosseria ou ataques pessoais.

É hora de pensar no país e não no partido, até porque só assim os partidos populares poderão sair de suas bolhas, reconquistar setores que se afastaram, ganhar novamente o respeito das maiorias sociais, e voltar ao poder.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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