O debate entre Zizek e Peterson

Chamado de debate do século. De um lado, um dos intelectuais marxistas mais conhecidos do mundo. Do outro, uma das personalidades mais queridas pela alt-right, a nova direita que se articula na internet. O confronto de ideias entre o cientista social esloveno Slavoj Zizek e psicólogo canadense Jordan Peterson teve um resultado equilibrado. O fato mais surpreendente foi que, durante o evento, realizado na última sexta-feira em Toronto, no Canadá, os dois conseguiram até concordar entre si. “Não houve faíscas entre os dois debatedores. Na verdade, eles concordaram frequentemente — particularmente em relação a assuntos como o politicamente correto e as políticas identitárias — mesmo que não fosse o caso entre seus apoiadores”, resumiu o jornal canadense ” The Star “. Assim como uma equipe de futebol, Peterson contou com uma grande vantagem: jogar dentro de casa. A plateia canadense presente no evento deixou clara a sua predileção pelo compatriota. Já Zizek, que em muitos momentos leu notas escritas a mão, teve dificuldade para cativar a audiência. No Canadá, o evento atraiu tanta atenção que conseguiu superar uma paixão nacional: o hóquei. Logo na abertura do evento, Peterson comentou que acabara de saber que os ingressos para o debate estavam sendo revendidos por cambistas por valores acima dos cobrados pelo jogo entre os times de hóquei Leafs e Bruins naquela noite. De fato, com o nome de “Felicidade: marxismo vs capitalismo”, o evento teve seus ingressos postos à venda on-line em março pelo equivalente a cerca de R$ 44. Porém, na revenda, um lugar no teatro do Sony Centre (o maior do país) podia chegar a R$ 2.790. O confronto foi iniciado com Peterson atacando o “Manifesto comunista” de Karl Marx . Embora não tenha questionado que o capitalismo gere desigualdade, o professor buscou defender o sistema econômico afirmando que “os ricos estão ficando mais ricos, mas os pobres também estão enriquecendo”. Já Zizek denunciou os males que o capitalismo desregulado poderia causar, em especial para a preservação do meio ambiente. Estudioso de Hegel, Marx e Lacan, o esloveno ainda ressaltou que o mercado global que temos atualmente não é verdadeiramente livre. Ao invés disso, existiriam rédeas criadas para beneficiar algumas nações em detrimento de outras. “O mercado já é limitado, mas não da maneira certa”, afirmou. Peterson rebateu dizendo que esperava de Zizek uma defesa do marxismo, e não uma crítica ao capitalismo. Em relação ao meio ambiente, o psicólogo relativizou as pesquisas que comprovam as mudanças climáticas causadas pela ação humana e atacou a mídia, sem apresentar evidências para sustentar o argumento. “As notícias sobre a questão ecológica não são tão sombrias quanto as pessoas que fazem o noticiário sombrio gostariam que você acreditasse”. Editor da revista de análise política ” Current affairs “, Nathan J. Robinson foi um dos jornalistas que acompanhou o debate com comentários em tempo real — sem poupar críticas intensas aos dois lados. No encerramento da cobertura, ele escreveu que “é impressionante como há pouca conexão entre o que está acontecendo aqui e qualquer coisa que eu consideraria um pensamento racional”. O editor ainda classificou Peterson como “um charlatão tóxico” e Zizek como “um constrangimento humilhante para a esquerda”. “Eu acredito que os dois mostram quão longe você pode ir na vida pública sem ter nada de valor para dizer se você é um homem branco com doutorado que fala de forma confiante e incompreensível. De fato, isto não é de forma alguma um debate, porque esses homens são praticamente idênticos para mim. Eu sinceramente acredito que a história irá olhar para esse momento como um ponto escuro e baixo da humanidade”, escreveu.

Fonte: Época.

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