Audiência no Senado com presidente do Banco Central discute autonomia da instituição

Alguns comentários sobre Tábata Amaral

Por Miguel do Rosário

14 de julho de 2019 : 22h29

Como muitos, estou bastante constrangido e perplexo com a decisão de Tábata Amaral de votar em favor da reforma da Previdência, não apenas pelo voto em si,  mas sobretudo pela falta de transparência da candidata, que passou os últimos meses divulgando freneticamente nas redes sociais que, apesar de defender que houvesse uma reforma da Previdência, não apoiava aquela proposta por Bolsonaro.

Entendo que ela, assim como outros deputados de oposição (foram 19 em favor da reforma!), compreenderam que o substitutivo de Samuel Moreira não era tão negativo como o texto original (ou que seria um “mal necessário”). Mesmo assim, houve total ausência de diálogo, o que, para mim, é frontalmente contrário ao que a parlamentar vendia à opinião pública. Por que em nenhum de seus debates e lives ela não foi mais transparente e franca em relação à decisão que tomaria?

Tábata cometeu, além disso, um erro grave, ao manter todos num suspense extremamente desagradável em relação a seu voto, que se converteu em frustração, decepção, e, por fim, gerando o mais terrível e doloroso sentimento da política, o sentimento de traição.

No entanto, não vou entrar na onda de linchamento moral da deputada. Não acho também que seu voto chancele todas as fake news que foram e são inventadas contra ela.

Nem me arrependo de tê-la defendido. A Tábata em que eu acreditei e que eu defendi era uma Tábata trabalhista e comprometida com as causas populares. Se não é esta Tábata que aí está, tenho certeza de que ela estará em outro lugar, com outro nome.

Meu constrangimento, aliás, é justamente por isso: a sua defesa me deu trabalho!

O nível dos ataques que ela sofreu foi baixo e, ao mesmo tempo, sofisticado, e o mínimo que esperávamos em troca era transparência, diálogo, compromisso!

Jamais fui um comentarista isento da cena política. Tenho lido por aí algumas observações que reputo um pouco cínicas, de que não se deve “esperar nada de ninguém”. Não é por aí. A política implica, necessariamente, na construção de confiança, que obviamente traz sempre um risco. É muito fácil não se comprometer com ninguém. Ser um “isentão”.  Mas aí a política simplesmente deixaria de existir. Para haver política, e para que a política seja transformadora, é preciso, como ensinava Danton, audácia, audácia e mais audácia, o que vale tanto para o representante político como para o representado. É preciso confiar, acreditar, mesmo sabendo que o risco de decepção é sempre tão alto.

Por que a deputada Tábata Amaral votou em favor de uma reforma da Previdência ainda tão cruel para com categorias fundamentais de trabalhadores, como, por exemplo, com as enfermeiras?

Por que não votou em favor de um destaque do PSOL relativo ao BPC?

Por outro lado, acho que não é o momento para o campo progressista inventar mais inimigos do que aqueles que ele já tem. Lembrando outro autor, o nosso querido Raul:

É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro
Evita o aperto de mão de um possível aliado,
Convence as paredes do quarto, e dorme tranqüilo
Sabendo no fundo do peito que não era nada daquilo

Muita gente apoiou o impeachment de Dilma Rousseff, por exemplo, depois se arrependeu, e voltou a ser aliado, como o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, cuja vice é a presidente do PCdoB, Luciana Santos. Não foi correto perdoá-lo?

Nos últimos quinze anos, convivemos com uma política de alianças tão complicada que seria hipócrita agora fingirmos, junto ao povo, que somos tão vestais assim. Muitas dessas alianças podem ter sido exageradas, ou erradas mesmo, mas a solução agora é nos fecharmos numa panelinha dos puros? Tudo bem se aliar com Renan Calheiros nas eleições, subir ao palco de Agripino Maia, fechar acordo para eleger Rodrigo Maia para a presidência da Câmara, e tratar Tábata Amaral como inimiga? É oito ou oitenta?

Se for o caso de expulsar Tábata Amaral do PDT,  então que seja. Não vejo nenhum problema fundamental nisso. O Ciro não mudou várias vezes de partido?

Mas daí a torná-la inimiga mortal? Isso iria de encontro a tudo que viemos defendendo, desde que passamos a digerir a vitória de Bolsonaro e a meditar sobre a única estratégia de superação deste quadro, que é sair do isolamento e costurar acordos com forças políticas diferentes, mas que também não se identificam com o governo. O centro, os liberais, a direita “esclarecida”, os não-fascistas.

E Tábata Amaral é, claramente, contrária a tudo que representa Jair Bolsonaro. Se ela é liberal, ou mesmo neoliberal, e não uma trabalhista (e não sei, sinceramente, se é este o caso), é um tipo de liberalismo com o qual teremos de aprender a conviver também, de maneira respeitosa, e conquistar para nosso lado, tomando cuidado, naturalmente, para que não tenha hegemonia.

Um pensador alemão já dizia que todas as filosofias políticas poderiam ser divididas em dois grandes grupos: de um lado, estariam aquelas que pressupõem a fé na natureza boa da alma humana, as filosofias da escola de Rousseau; de outro, as que pensam o contrário, que nascemos maus, e, portanto, que precisamos sempre de uma autoridade para nos controlar, da escola de Hobbes.

Eu estou entre os primeiros: recuso-me terminantemente a me tornar uma pessoa que demoniza outro ser humano. Continuarei acreditando, sempre, no potencial revolucionário da liberdade, da inteligência, e da persuasão política.

O mesmo pensador dizia que o conceito do político poderia ser resumido, grosseiramente, na mais dramática e violenta das dialéticas, a saber, o dicotomia entre amigo x inimigo, assim como a arte seria a expressão da dicotomia belo X feio, e a moral, bom e mau.

Eu me recuso a aceitar este conceito, apesar de entender o quanto ele é poderoso e realista, ou antes, me recuso a aceitá-lo justamente por entender isso. Ele me parece demasiado perigoso, demasiado brutal.

Não quero pensar a política como uma oposição vulgar entre  amigo e inimigo, e sim como uma disputa de ideias através da qual podemos convencer qualquer um, e enfatizo o qualquer um, a mudar de opinião e, com isso, construir consensos minimamente civilizados. Claro que os extremos dificultam muito o diálogo, razão pela qual é tão complicado a conversa com um “fascista”. Mas não é o caso, evidentemente, de Tábata Amaral. Ela não é uma “fascista”. No máximo, é uma neoliberal dissimulada e desleal. No mínimo, um agente político desajeitado, ingênuo e arrogante.

Sou crítico dessa denúncia do “fascismo”, que acho às vezes um tanto oportunista e exagerada, mas se existe mesmo a emergência de um fascismo no país, então seria um erro político terrível, perante o povo, perante o interesse nacional, amarrarmos o campo progressista a posturas radicalizadas, mesmo que seja um radicalismo do bem, ou seja, um radicalismo popular e revolucionário. Se existe, de fato, um risco fascista, então é preciso costurar acordos também com os liberais, parceiros históricos da esquerda na luta contra o autoritarismo.

Naturalmente, aqui se trata de uma questão mais sutil e por isso mesmo muito mais complexa, do que a luta contra o fascismo, e que tem a ver com a consolidação de padrões mínimos de transparência e lealdade, valores essenciais para a própria existência da ação política. Essa é, a meu ver, a razão principal da “crise” envolvendo a deputada Tábata Amaral e outros parlamentares dissidentes.

Como fui um dos blogueiros que mais defendeu a deputada, o mínimo que posso fazer, diante da situação, é ouvir. Ouvir a opinião da militância trabalhista, de Ciro Gomes, dos dirigentes do PDT, da militância de outros partidos, dos intelectuais independentes, da própria Tábata, e só então me posicionar, da maneira mais equilibrada e justa possível, com foco na redução da crise, pensando no Brasil, no povo brasileiro, e, sobretudo, sem jamais esquecer a situação política dramática em que nos encontramos. Não importa o que pensem de mim, não importa a minha “reputação”. Temos 14 milhões de desempregados, um governo autoritário, violento, de extrema direita, e me parece que seria irresponsabilidade empurrarmos mais uma porção de aliados importantes para “o lado de lá”, tratando-os como inimigos.

Dito isso, reproduzo abaixo o artigo da deputada divulgado hoje na Folha. Vamos escutá-la, porque essas são virtudes fundamentais que defendemos: democracia e justiça.

Vamos deixá-la se defender, e aí então façamos o nosso julgamento. Se tiver que ser um julgamento severo, implacável, que seja, desde que seja justo para ela, inteligente para nós, útil para o povo. O que não podemos perder de vista é o objetivo maior: derrotar o adversário, o baronato egoísta, o sistema financeiro que vampiriza o povo, a brutalidade estatal. Se considerarmos que Tábata, realmente, é aliada deles, dos brutos, dos barões, dos vampiros do povo, então não há motivo, de fato, para nenhuma solidariedade ou compaixão. Mas não podemos esquecer que não há saída fora da política, e que a política requer um diálogo aberto, democrático, não-sectário, com o povo e com os extratos médios, de maneira a nos tornarmos mais plurais e mais fortes, e que esse é o único caminho seguro para emancipar a sociedade nacional.

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A ousadia de ir além das amarras ideológicas

Muitos partidos já não representam de fato a sociedade, mas somente alguns de seus nichos

Por Tábata Amaral

14.jul.2019 às 15h17

Faço aqui, no espaço quinzenal que tenho nesta Folha, uma provocação que julgo saudável para a política e para os partidos, com o único intuito de contribuir para um debate que temos postergado, mas que a sociedade há muito demanda. É uma reflexão necessária diante do impacto provocado pelos oito deputados do PDT, dentre os quais me incluo, que votaram “sim” à reforma da Previdência, e os 11 do PSB, contrariando a orientação partidária. Não estamos falando de dois ou três parlamentares, mas de praticamente um terço das bancadas de duas relevantes siglas que ocupam posição mais ao centro no espectro da esquerda. A expressividade dessa dissidência acendeu ao menos a luz amarela nas estruturas?

Sabemos que a extrema esquerda não admite flexibilidade alguma de posicionamento, pois está enclausurada em suas amarras. No entanto, uma parcela da centro-esquerda quer dialogar com o contexto e a sociedade e caminha para se modernizar. Nisso nos fiamos, nós que temos convicções sociais fortes, olhamos para o futuro do Brasil e enfrentamos o desafio urgente de termos crescimento sustentável, condição para a consolidação da justiça social.

Muitos partidos já não representam de fato a sociedade, mas somente alguns de seus nichos. Embora tenham em seus quadros um número cada vez maior de deputados com visão modernizante, as siglas ainda ostentam estruturas antigas de comando, e na maioria faz falta mais democracia interna. Muitas vezes, consensos sobre pautas complexas não são construídos de baixo para cima, e cartilhas antigas se sobrepõem aos estudos e evidências. Quando algum membro decide tomar uma decisão que considere responsável e fiel ao que acredita ser importante para o país, há perseguição política. Ofensas, ataques à honra e outras tentativas de ferir a imagem tomam lugar do diálogo. Exatamente o que vivo agora.

A boa política não pode ser dogmática. Discordâncias são normais no cotidiano e o ajuste e as acomodações das diferentes visões vão se dando em questões menores, com as bancadas muitas vezes sendo liberadas para as votações. O que foge completamente a esse processo e demonstra o grau do conflito instalado é quando a “rebeldia”, como está sendo interpretado o voto de opinião, atinge um terço de bancadas expressivas. Encaro esse debate como de fato a única tentativa da centro-esquerda de se renovar, mas os partidos estão virando as costas para essa realidade. É mais fácil lidar no plano da insubordinação. A construção de novas mentalidades não é processo fácil e exige coragem.

No fundo, são dois os temas que se sobrepõem nesse momento. A lógica de funcionamento dos partidos políticos no presidencialismo e o processo de renovação da política brasileira. A combinação de presidencialismo e federalismo, como ocorre no país, favorece as chamadas “indisciplinas partidárias”. Busca-se reforçar o poder da liderança partidária punindo dissidentes pela máxima de que os partidos não podem passar sinais de fraqueza. Será preciso uma reforma muito profunda do nosso sistema político para produzir os incentivos necessários para “disciplinar” as siglas. Enquanto existir o presidencialismo, o multipartidarismo e a federação, as lideranças partidárias precisarão ouvir e negociar com suas bases, dissidentes ou não.

A ampla renovação política que está em curso e da qual faço parte agrava o quadro de conflitos internos dos partidos. É racional que as lideranças recorram a argumentos de ocasião para justificá-los. Mais racional contudo é pensarmos no Brasil.

Tabata Amaral

Cientista política, astrofísica e deputada federal pelo PDT-SP. Formada em Harvard, criou o Mapa educação e é cofundadora do Movimento Acredito.

Artigo publicado originalmente na Folha

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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