Castañon escreve sobre o revisionismo de Stálin

STALIN HUMANISTA E A TERRA PLANA

Por Gustavo Castañon

Ao contrário da maioria dos “experts” de internet, eu nunca me apresentei, ou deixei me entender, como historiador, economista ou sociólogo. Menos ainda como essa contradição em termos que seria o “cientista político”.

Sempre fiz questão de dizer, e de colocar na descrição biográfica que faço de mim, que sou formado em Psicologia e Filosofia.

Mesmo em Filosofia faço questão de lembrar que nunca me interessei particularmente por Filosofia Política para além dos clássicos, geralmente não encontro fora deles muita coisa nova sendo dita, menos ainda boa. Mas pode ser só minha racionalização para minha preguiça intelectual para o tema. Me interesso sempre por coisas que tenho muitas dúvidas, e quanto mais dúvidas tenho, menos falo delas. Meus interesses profissionais são Filosofia da Ciência e Metafísica, particularmente Filosofia da Mente.

Esclarecido isso com essa longa, autocentrada e chata introdução, quero dizer que a moda do revisionismo em relação à Stalin chegou a um nível que, para mim, beira a vilania.

A esquerda sempre é pródiga em acusar os outros de “revisionismo histórico”. Há alguns meses a lacrosfera do PCB resolveu mover uma campanha de difamação contra mim, que envolveu até pedido de morte de minha filha de sete anos, só porque fui obrigado a relembrar um fato histórico incontestável, o de que Olga Benário não era uma mera militante comunista esposa de Prestes, nem somente que participou de uma tentativa de golpe contra um governo então constitucional, mas também uma espiã soviética em território nacional.

Stalin de fato fez escola no Brasil.

Hoje, depois de dias observando manchetes desse desinteressante, e um pouco amoral, debate de micro nicho sobre Stalin, me deparei com uma manchete absolutamente ultrajante, que só chamou minha atenção por ser atribuída a um professor que respeito muito e que considero muito inteligente e sensato: “Stalin foi tão brutal quanto Lincoln”.

“Stalin foi tão brutal quanto Lincoln”.

A espiral de revisionismo depois que aceitamos que a hipótese da Terra Plana merecia resposta, parece não aceitar mais qualquer limite.

Não sou contra uma boa dose de revisionismo sobre Stalin. A imagem histórica dele no ocidente foi forjada de forma fraudulenta por versões absurdas dos chamados “bodycounters” que atribuíam a Stalin mais de 30 milhões de mortes colocando no mesmo saco expurgos ou os efeitos diretos e colaterais da segunda guerra, como os mortos em batalha ou pela fome resultante desta catástrofe.

Da mesma forma a crença no suposto “fracasso econômico” do comunismo precisa ser desmistificada, pois por setenta anos a União Soviética cresceu mais que os EUA, segundo a própria CIA (dêem uma busca no “CIA Facts”). Só que, partindo de uma base econômica agrária e miserável, foi obrigada a competir sozinha e de igual para igual com as máquinas militares e de espionagem das nações mais ricas da Terra, com a devastação da segunda guerra mundial no meio.

Mas é necessário lembrar aqui que o revisionismo sobre Stalin não teve início no ocidente. Ele começou logo depois de sua morte na própria URSS. Em 1956, durante congresso do Partido Comunista, o Secretário-geral que sucedeu a Stalin, Nikita Khrushchev, o acusou de genocídio durante os expurgos dos anos 1930 na URSS, nos quais Stalin assassinou toda a cúpula remanescente da Revolução Russa e do então Partido Bolchevique.

Uma investigação conduzida pelo governo soviético concluiu que, no que se convencionou chamar de “Grande Expurgo” do final dos anos trinta, cerca de um milhão e meio de membros do Partido Comunista foram acusados de “atividades antissoviéticas”. Vejam bem, não estamos falando da população em geral, mas de membros do partido. Destes, pelo menos 680.000 haviam sido executados. 680 mil pessoas, indivíduos, com pai, mãe, irmãos, filhos, esposas e maridos. O critério para determinar o número de executados foi somente computar aqueles que constavam em listas de execução assinadas pelo próprio Stalin.

Vamos deixar claro. Os anos 30 foram anos de ditaduras por todos os países do mundo, que enfrentavam ameaças de dissolução social e nacional causadas pelo colapso do liberalismo nos EUA. Mas aqui não estamos falando de ameaças terroristas, insurgências separatistas, conflito armado com a reação do antigo regime ou sequer da morte de inimigos declarados. Estamos falando só das mortes de membros do Partido Comunista Soviético.

É necessário repetir.

A comparação com Lincoln, portanto, é pornográfica. Lincoln foi um Presidente eleito com a meta de acabar com a escravidão e que, com sua eleição, precipitou a declaração de guerra de secessão de sete estados sulistas escravagistas, o que o obrigou a defender a integridade da União norte-americana. Os mortos nesta guerra civil, causada pelos estados escravagistas que não aceitaram o resultado das urnas, foram vítimas de um conflito, não de um expurgo.

Eu não acho que a criação de nações independentes é uma brincadeira de criança ou se possa fazer nos marcos do liberalismo político. Por definição, a criação de uma nova nação é sempre um ato revolucionário.

No entanto, não se podem comparar líderes nacionais que tiveram poderes discricionários em tempos de guerra, como Vargas ou Lincoln, com genocidas sociopatas como Stalin ou Hitler. Getúlio por exemplo liderou uma revolução democrática em 30 para romper com a oligarquia arcaica do país e teve que enfrentar duas tentativas de golpe e a Segunda Guerra Mundial. Seu curto período ditatorial teve, como sempre, presos políticos e acusações de tortura, mas o registro do acontecimento mais mortal do período, a guerra civil causada por São Paulo em 32, deixou menos de mil mortos.

Não defendo, no entanto, o período ditatorial de Getúlio, somente compreendo suas condicionantes históricas. Minha admiração a Getúlio vem do reconhecimento a seus objetivos e gigantescas realizações. Menos ainda erijo a contingência do Estado Novo em modelo de regime político como fazem os stalinistas.

Também acho que não se podem comparar ditaduras de direita com ditaduras de esquerda. Ditaduras de esquerda buscam entregar igualdade à custa da liberdade. Ditaduras de direita roubam a liberdade em nome da liberdade e não entregam nada em troca além do aprofundamento da desigualdade. Ditaduras de direita não realizam qualquer valor, são a coisa mais próxima do puro mal que conhecemos.

Mas dito tudo isso, devo reconhecer que sim, eu sou um liberal político. Quando critico a “esquerda liberal” estou falando da esquerda que adotou o liberalismo econômico com o discurso de que “não há alternativa”, e não da esquerda democrática. Acredito no valor primário do indivíduo e da vida humana e considero a democracia um valor, um ponto de chegada da sociedade.

Acho que uma esquerda que quer ser respeitada numa sociedade democrática, particularmente em tempos de ameaça, concretíssima, fascista, tem que ser intransigente na defesa dos valores democráticos.

Deixemos os extremos em sua estupidez e delírio infantil revolucionário promoverem o terraplanismo da transformação de um genocida paranoico em humanista libertador da humanidade, ou outro genocida traficante neoliberal como Pinochet em campeão da liberdade.

Eles podem querer sangue. Eu quero democracia. E você?

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