Entrevista de Lula ao UOL

Petróleo brasileiro é o novo pau brasil?

Por Miguel do Rosário

06 de janeiro de 2020 : 17h41

Comecemos por uma notícia boa. O saldo da balança brasileira do petróleo nunca foi tão positivo.

Historicamente, o Brasil tem sido um importador líquido de petróleo. Nossa autonomia, consequência do pré-sal, é um fenômeno recente.

Em 2019, o saldo da nossa balança do petróleo ficou positivo em US$ 12 bilhões, um recorde histórico.

O lado ruim é que o saldo poderia ser muito maior.

Nossas exportações de petróleo somaram US$ 30 bilhões no ano passado, mas também aumentamos dramaticamente a importação nos últimos três anos. Em 2019, importamos US$ 18 bilhões em petróleo.

Caso o Brasil não aproveite esse novo boom dos preços do petróleo para se industrializar, repetiremos a mesma história que conhecemos desde que os portugueses vinham ao país explorar nosso pau-brasil: um ciclo de riqueza fácil e efêmera, seguido de longos períodos de estagnação econômica.

Rápida digressão newtoniana.

Uma das descobertas mais revolucionárias da ciência moderna é a de que a energia nunca morre.

A energia é imortal, indestrutível, infinita. Ela apenas se transforma: calor se converte em movimento, movimento em eletricidade, eletricidade em luz, luz em calor, e por aí vai, num ciclo infinito.

Se dermos um tapa na mesa, a nossa energia cinética se transforma de várias maneiras: além de fazer a mesa vibrar, também criamos energia sonora (que é uma energia em forma de ondas, que se deslocam pelo ar).

Esta  lei, a mais importante da física, a mais simples, a mais aplicada na indústria moderna, chama-se Lei da Conservação da Energia, e foi descoberta por Isaac Newton. Ela aparece, com a beleza de uma máxima de Espinoza, logo no início da “Principia Matemathica“:

Corpus omne perseverare in statu suo quiescendi vel movendi uniformiter in directum, nisi quatenus a viribus impressis cogitur statum illum mutare.

Todo corpo persevera em seu estado de repouso ou de movimento uniforme na linha reta, a menos que seja compelido a mudar esse estado por forças impressas nele.

(Primeira Lei do Movimento).

A descoberta abriu caminho para a revolução industrial do século XIX.

O desafio maior, tanto no passado como hoje, todavia, é controlar a energia, o que pressupõe armazená-la de alguma maneira, para usá-la no momento adequado.

O petróleo tem servido à humanidade, há mais de um século, como a sua mais importante fonte de energia, tanto primária (ou seja, em seu uso para a fabricação de outras formas de energia), quanto final (no consumo doméstico e das indústrias), porque é relativamente fácil armazená-la, transportá-la, dividi-la e vendê-la em quantas partes quisermos.

Fim da digressão.

Segundo o Anuário de Energia 2019 da Agência de Informação Energética do governo americano (EIA – Energy Information Agency), o petróleo seguirá sendo a principal fonte de energia do planeta pelo menos até 2050.

A mesma agência estima que o consumo de energia no mundo deve crescer cerca de 50% até 2050, liderado pela Ásia.

O ano de 2019 foi bom para o setor de energia. Ainda segundo a EIA, as commodities de energia (petróleo, sobretudo) valorizaram-se mais do que outros produtos.

 

Eu separei abaixo uma série de tabelas sobre o comércio exterior brasileiro.

Apesar da exportação brasileira de petróleo ter gerado US$ 30 bilhões em 2019, fazendo com que o petróleo assumisse, pela primeira vez na história, a liderança isolada como principal produto brasileiro de exportação, ultrapassando o ferro e a soja, o saldo da nossa balança comercial caiu ao menor nível em cinco anos.

O petróleo brasileiro foi exportado em 2019 sobretudo (80%) na forma de óleo bruto, mas houve um aumento expressivo nas vendas de “fuel oil” (um derivado de baixo valor agregado), gasolina e querosene de aviação.

As exportações brasileiras de gasolina (um dos produtos de petróleo com maior valor agregado, junto com diesel) cresceram quase 90% sobre 2018, gerando US$ 1,2 bilhão em 2019, mas este valor ainda é pouco mais da metade das despesas com importação do mesmo produto, que somaram US$ 2 bilhões no mesmo ano, alta de 42% sobre o ano anterior.

O principal produto de petróleo importado pelo Brasil é o óleo diesel. Em 2019, o Brasil gastou US$ 6,7 bilhões com a importação de diesel, alta de 6% sobre o ano anterior.

Em 2014, quando os preços do petróleo ainda estavam relativamente altos, chegamos a gastar US$ 9,6 bilhões com a importação de diesel.

Em quantidade, porém, as importações de diesel de 2019 constituíram um recorde histórico: 11 milhões de toneladas, 82% das quais originadas dos Estados Unidos.

A velocidade com que os EUA dominaram nossas importações de diesel é impressionante: antes de 2016, os EUA supriam menos de 40% das nossas compras externas de diesel, percentual que salta para 84% e 82% nos últimos dois anos.

Hoje o Brasil está quase superando o México como principal destino do diesel dos EUA.

Outro gráfico impressionante é o que mede a “corrente comercial” brasileira de petróleo, ou seja, a soma de exportação e importação: ele mostra uma curva ascendente muito acentuada, superando 100 milhões de toneladas em 2019. Em valor, a corrente de comércio do petróleo totalizou US$ 48 bilhões no ano passado, o equivalente a 12% de toda a corrente do comércio do Brasil.

Também apuramos a “balança brasileira de derivados de petróleo”. Nesta o Brasil nunca deixou de ser deficitário: ainda precisamos importar grandes quantidades de derivados para suprir nossa demanda interna. O déficit da nossa balança de derivados não está mais tão elevado como nos anos de 2013 e 2014, quando explodiu por causa dos preços; mas está em US$ 7 bilhões, bem acima da média dos últimos 20 ou 30 anos.

Por fim, separei uma tabela com os principais produtos importados pelo Brasil em 2019. O petróleo figura em primeiro lugar. Os quase US$ 18 bilhões que importamos em produtos de petróleo em 2019 corresponderam a 10% de tudo que importamos no período.

Com um desempenho tão espetacular das nossas exportações de petróleo, o Brasil poderia estar vivendo hoje uma de suas melhores fases econômicas, fazendo grandes investimentos em pesquisa, ciência, educação, além de financiar estratégias para diversificação econômica, reindustrilização e busca por maior autonomia nacional em serviços tecnológicos de ponta.

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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23 comentários

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Alan C

07 de janeiro de 2020 às 09h18

Redação, o O&G brasileiro é vendido abaixo do preço, não tem boa notícia nenhuma pro povo, a união segue sendo saqueada sob a anuência da quadrilha da direitosca bandida pseudo liberal pró-EUA.

As primeiras áreas do pré-sal, leiloadas às multinacionais no período pós golpe ainda com o #ForaTemer bancando o presidente, foram vendidas, acredite a $1,59 o barril que hoje é cotado a $68, quase 43 vezes mais barato que o mercado internacional pratica atualmente. Isso daria algo em torno de 1 centavo o litro de óleo (1 barril = 159 litros), cálculo feito à época pela Federação Única dos Petroleiros.

Como explicar que isso não é golpe contra a união??? Nem o otário dos mil nomes consegue.

Responder

    Wellington

    07 de janeiro de 2020 às 15h23

    Duro é achar alguém que acredite no que você diz.

    Responder

      Alan C

      07 de janeiro de 2020 às 15h33

      Não tem argumento né andressa rs

      Responder

        Wellington

        07 de janeiro de 2020 às 21h30

        Tem sim, se foi leilão e ninguém pagou mais do que isso é o que vale, mas se você sabe que o leilão foi fraudado faça a denuncia do caso se não é mais um dos milhares de factóides que a gente tem que ouvir… só no fiado não virá nada.

        Responder

Wellington

06 de janeiro de 2020 às 19h45

Cada centavo que entra cai no buraco negro das dividas brasileiras, da ladroagem, da incompetencia, ecetera… por tanto è obvio que nao farà diferença alguma como nao fèz atè hoje, atè porque a Petrobras è dos acionistas, do Governo sò em pequena parte (30% se nao me engano).

A Venezuela è um Pais pequeno e com reservas imensas de petrolèo que è explorado hà decadas…tà aì a situaçào que definir tragica è ser otimistas.

Por contra Paises onde nao tem uma gota de petroleo estao pra frente anos luzes do Brasil….nào pode ser sempre culpa do inimigo imaginario !!

Responder

    Alan C

    07 de janeiro de 2020 às 15h34

    Duro é achar alguém que acredite no que você diz.

    Responder

Paulo

06 de janeiro de 2020 às 19h44

Gozado! Há algum tempo se diz, aqui no Blog, que o Brasil passou a importar mais diesel dos EUA. É verdade, pelo gráfico acima. Porém, em nºs relativos, o que se extrai desse mesmo gráfico é que houve uma rigorosa simetria entre altas e baixas na origem do diesel (EUA e outros), desde 2005, pelo menos, sendo que os “outros” sempre estiveram à frente…

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    Miguel do Rosário

    06 de janeiro de 2020 às 21h49

    Não. Em relação ao diesel, está vindo quase tudo dos EUA.

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      Wellington

      06 de janeiro de 2020 às 22h58

      Vem pela maior dos EUA porque é um dos poucos países que podem produzir nessa quantidade, é o mais perto, mais barato, além de ser um dos maiores parceiros comerciais do Brasil, me parece bastante óbvio que não venha do Guatemala e nem do Burundi.

      Cerca de 30-35% do lucro da Petrobrás vem da revenda do Diesel…onde está o problema…?

      Claro que se a Abreu e Lima produzisse o diesel pela qual foi pensada no lugar de dívidas astronômicas seria melhor ainda, mas não podemos pretender demais do nível de civilização brasileira, a verdadeira tragédia e o problema é esse, nada mais.

      A ladainha que temos que ouvir é a mesma do últimos 50 anos, sempre a mesma papagaiada ridícula que ninguém suporta mais.

      Responder

        Alan C

        07 de janeiro de 2020 às 15h36

        Mas não entende nem de soja vai querer falar de petróleo kkkk

        Responder

Alan C

06 de janeiro de 2020 às 18h13

Excelente matéria! Desnuda completamente o que está acontecendo atualmente, o pq do golpe de 2014, a forma covarde como a direita corrupta e entreguista brasileira está governando para interesses americanos e, a reboque, para os interesses dos bancos, das grandes empresas nacionais e multinacionais, contra o trabalhador, contra o povo.

Vídeo muito bom do jornalista Luiz Carlos Azenha sobre os últimos acontecimentos entre EUA e Irã (há outros na página do Viomundo):
https://youtu.be/1P9PEL0mOlc

Responder

Evandro Garcia

06 de janeiro de 2020 às 18h04

Foi só parar de assaltar a Petrobrás.

Quanto aos derivados vamos contar novamente a historinha da Abreu e Lima…?

Responder

    Alan C

    06 de janeiro de 2020 às 18h15

    Ou a historinha do Pedro Parente.

    Responder

      Evandro Garcia

      06 de janeiro de 2020 às 19h29

      Bora…

      Responder

        Alan C

        06 de janeiro de 2020 às 21h16

        Bora

        Responder

          Evandro Garcia

          06 de janeiro de 2020 às 22h11

          Então…conte nós a história desse tal de Parente, a da Abreu e Lima já conhecemos bem infelizmente…mas por gentileza, sem factóides, opiniões pessoas, fanfarronices ideológicas, ecetera…. só fatos por favor.

          Alan C

          07 de janeiro de 2020 às 08h40

          Já contei algumas vezes, vc leu e conhece, vá lá e dê um cópia e cola aqui, todo mundo conhece.

          Evandro Garcia

          07 de janeiro de 2020 às 09h30

          Foi só puntualizar que factóides e fanfarronices ideológicas não servem e já correu…?

          Alan C

          07 de janeiro de 2020 às 09h35

          Não wellington, é que vc já conhece, já leu, não tem reposta e fica aí achando que ninguém nota como vc é ridículo trocando de nome a cada dia como um camundongo.

          Mas continuamos grandes amigos.

          Alan C

          07 de janeiro de 2020 às 13h00

          Cafezinho, libera meu comentário pro bozominion wellington por favor, obrigado.

          Evandro Garcia

          07 de janeiro de 2020 às 15h21

          Sem ideologia e factóides não sobra nada.

          Alan C

          07 de janeiro de 2020 às 15h37

          Nem umzinho dos 645 nomes… kkkk

          Alan C

          07 de janeiro de 2020 às 15h44

          Apenas um camundongo


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