Análise da reunião ministerial de Bolsonaro

Roosevelt assinando o New Deal

General do Exército: a hora é de Keynes, não de Hayek

Por Redação

10 de abril de 2020 : 13h08

O site Defesanet, que é uma espécie de porta-voz não oficial das opiniões políticas das Forças Armadas, publicou hoje um artigo muito emblemático do general Santa Rosa, onde ele afirma que:

“(…) a necessidade da hora faz o pensamento de John Maynard Keynes prevalecer sobre a doutrina de Friedrich von Hayek.

A política do New Deal, adotada corajosamente pelo governo Franklin D. Roosevelt, após a recessão de 1929, trouxe inovações interessantes para a matriz do capitalismo internacional, que merecem ser invocadas como fontes de inspiração”.

Alguém precisará lembrar às Forças Armadas, no entanto, que o New Deal foi marcado por uma reforma tributária radicalmente progressista, que incluía impostos pesadíssimos sobre a renda e o patrimônio.

***

 Preparando o “day after”

Por Maynard Marques de Santa Rosa*

Defesanet — O efeito devastador da paralisação da economia, em consequência do coronavírus, terá um desfecho fatal inevitável. O componente social será o mais agudo, representado pela massa de milhões de trabalhadores desempregados, muitos famintos e todos insatisfeitos.

É hora de despertar para esta realidade os planejadores públicos de todos os níveis, com vistas a antecipar providências que possam atenuar a crise.

Em um cenário restrito, imposto pelas necessidades básicas de sobrevivência, não sobra espaço para divagações acadêmicas, nem para a aplicação de ideologias econômicas. Para maior probabilidade de acerto, deverá ser construída uma estratégia adequada ao enfrentamento do desafio, inspirada nas experiências bem-sucedidas do passado.

Embora o liberalismo se apresente como a melhor trajetória para a prosperidade das economias modernas, cabe ao Estado, nesta conjuntura de exceção, assumir o direcionamento dos esforços de recuperação da vitalidade econômica. Em outras palavras, a necessidade da hora faz o pensamento de John Maynard Keynes prevalecer sobre a doutrina de Friedrich von Hayek.

A política do New Deal, adotada corajosamente pelo governo Franklin D. Roosevelt, após a recessão de 1929, trouxe inovações interessantes para a matriz do capitalismo internacional, que merecem ser invocadas como fontes de inspiração.

Preciso é, no entanto, que o Poder Executivo recupere as suas legítimas atribuições, usurpadas pelas corporações após 1988, e passe a administrar o País de modo eficaz.

O Centro de Governo, testado pelos países mais desenvolvidos e proposto pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), precisa ser implantado antes mesmo de aprovada a proposta de adesão feita pelo Brasil. Nesse modelo, a Casa Civil da Presidência da República assume a gestão estratégica da agenda de governo, como núcleo central de coordenação e integração dos ministérios.

A autoridade suprema do Presidente da República fica preservada como última palavra das decisões governamentais, porém, livre das querelas administrativas, ganhando mais espaço para a dialética política.

A prioridade da agenda estratégica, nesta conjuntura, é a recuperação econômica, mas a sua implementação transcende as atribuições do ministério da Economia, pelas suas implicações sociais e de segurança.

Um enorme mutirão nacional precisa ser planejado para o “day after”, com uma agenda de grandes obras de infraestrutura capazes de absorver o máximo possível de mão-de-obra. Paralelamente, o país necessita realizar um mutirão legislativo, para recuperar o princípio da independência dos três poderes, a harmonia social e a segurança.

A crise, que não provocamos, mas não pudemos evitar e que dispersa as energias da nação, pode catalisar um benefício, se despertar uma aspiração essencial. A união de todos os brasileiros em favor do País, neste momento, é o nosso ideal e o bem mais importante.

* General-de-Exército (res.) e ex-ministro-chefe da secretaria
de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE)
Publicado originalmente na Resenha Estratégica 08 Abril 2020

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3 comentários

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Paulo

10 de abril de 2020 às 18h58

O que ele prega, aparentemente, é que se aplique agora Keynes para depois deixar o caminho livre para Hayek…O entreguismo dominou as FFAA…

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Marcos Videira

10 de abril de 2020 às 14h46

Esse general Santa Rosa foi um dos responsáveis pela eleição de Bolsonaro. Observem dois aspectos de sua concepção Política expressos no seu artigo:
(1) a ação do Estado é apenas de exceção. Ele defende um liberalismo, com ausência do Estado, que é incapaz de resolver os problemas quando ocorre uma crise. Ele deve ser contra o SUS, contra a Educação Pública e autonomia universitária (lembram-se do coronel Passarinho e o Decreto 477 ?), contra a Petrobrás e a Eletrobrás, contra a regulação dos bancos (lembram-se da crise de 2008 ?). Mas certamente é a favor da previdência dos militares com recursos públicos !
(2) “Recuperação da autoridade SUPREMA do Presidente da República usurpada em 1988”. Isto significa que ele é CONTRA a Constituição de 1988 e defende o Poder Ditatorial do chefe do Executivo. Exatamente como era na Ditadura Militar.
Esta é a prova escancarada de que as Forças Armadas estão dominadas por militares entreguistas, sucessores ideológicos do infame general Silvio Frota

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Zildo Gallo

10 de abril de 2020 às 13h50

Além da criação de impostos progressivos sobre a renda e a propriedade, do programa de obras públicas, com destaque para o saneamento básico e a geração de energias limpas, na minha opinião, há que se pensar num programa de renda mínima bem mais amplo que o bolsa família e aumentar o tempo do seguro desemprego para mais alguns meses. A estes esforços devem somar-se a consolidação do SUS, com mais recursos e o aumento dos gastos com a educação e a pesquisa. Só assim estaremos avançando rumo a um estado de bem-estar social nos moldes dos países europeus.

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