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Frederico Krepe: O mito do “Biden brasileiro” e a busca pela terceira via

Por Redação

03 de maio de 2021 : 10h14

Por Frederico Krepe

A vitória de Joe Biden marcou a derrocada eleitoral do maior representante do populismo de extrema-direita no mundo, o então presidente Donald Trump. Esse fato foi muito celebrado dentro e fora dos Estados Unidos. O motivo? Representava a primeira grande rachadura no casco da extrema-direita mundial.

Para o brasileiro, governado por um dos representantes dessa turma, foi o sinal de que Bolsonaro poderia ser derrotado e que a ascensão da extrema-direita poderia ser detida por meio do voto popular. Não é pouca coisa para um povo que não aguenta mais crises diárias patrocinadas pelo presidente e sua turba de fanáticos. 

Com a derrota de Trump, parte importante da imprensa e do meio político começou uma busca pelo “Biden brasileiro”, que seria aquele sujeito com capacidade de unir conservadores e progressistas e derrotar Bolsonaro em 2022, dando fim à tragédia que estamos vivendo.

Essa questão ganhou novo destaque agora, já que o debate político foi chacoalhado com a volta de Lula ao jogo e a busca por uma terceira via que fuja da polarização entre o petismo e o bolsonarismo está no radar de muita gente. 

No estágio atual do debate político brasileiro, existem dois grupos reivindicando o “Biden brasileiro”: centristas querendo um nome mais a direita, que tente fugir da polarização e não seja “radical” o suficiente para assustar o eleitor médio e petistas querendo forçar Lula como a única alternativa a Bolsonaro.

Esses dois grupos trazem uma leitura razoavelmente equivocada da eleição de Biden e do próprio processo político-eleitoral brasileiro. 

Para começarmos a refletir sobre a questão do “Biden brasileiro”, precisamos voltar nosso olhar para 2016, para a escolha do Partido Democrata e para a eleição de Trump. Naquela época, a disputa para enfrentar Trump no Partido Democrata se resumia a duas figuras: Hillary Clinton e Bernie Sanders.

A primeira era representante da burocracia partidária e do centrismo neoliberal que tomou conta do partido desde a presidência do marido, Bill Clitnton, e o segundo um outsider que se reconhece como um “socialista democrático” (é bom lembrar que “socialismo” é quase um palavrão naquelas terras) e vinha com um discurso antissistema pela esquerda.

Com o discurso de que seria uma escolha mais fácil de vencer Trump e com a máquina partidária ao seu lado, Hillary venceu as primárias com algo perto de 54% dos delegados. Selada a escolha, o clima era de relativamente tranquilidade em relação às eleições gerais, com grande parte dos comentaristas apontando uma vitória não muito difícil de Hillary.

Entretanto, algumas vozes começavam a se preocupar. Assim que as primárias democratas acabaram, o cineasta Michael Moore cravou — na contramão da maioria dos analistas — que Trump seria eleito¹. Seu argumento era simples: Hillary não empolgava o eleitorado da mesma forma que Trump e isso faria diferença em um país em que o voto não é obrigatório.

O cineasta ainda brincou dizendo que Hillary seria eleita se a votação pudesse ser feita por uma enquete pelo videogame, do conforto de casa. Isso representava o fato de que sua candidatura teria enorme dificuldades para engajar o eleitor a sair de casa e votar, embora fosse preferível à de Trump na mentalidade média do eleitorado. O resultado todos já sabemos, Michael Moore estava certo e Trump ganhou a eleição contra todo o sistema político americano e a maioria esmagadora dos comentaristas políticos.

A eleição de Trump chocou o mundo e mostrou que muito do que se pensava sobre a política estava errado. Muitas teorias foram criadas para explicar o fato, mas praticamente todas eram formas de esconder um fato simples: Hillary era a representante do sistema político americano e o sentimento padrão era que este teria voltado as costas ao cidadão comum, especialmente o trabalhador industrial do meio-oeste que perdeu o emprego por conta de anos de neoliberalismo bancado pelo Partido Democrata em suas gestões (Clinton e Obama).

Falando para o cidadão médio e abusando da retórica agressiva, Trump ganhou e governou da maneira caótica que a nova extrema-direita adora, com absurdos semanais, muitas mentiras e muita afronta à imprensa como política de governo. Dessa forma, aos trancos e barrancos, eles chegaram a 2020. 

Chega 2020 e o Partido Democrata volta a discutir quem vai enviar para tentar derrotar Trump, dessa vez em um cenário mais pulverizado. Bernie Sanders estava lá de novo, com uma militância aguerrida e uma candidatura mais estruturada e pronta para tomar o partido, mas o escolhido da vez foi Biden. Qual era o discurso de Biden?

O então pré-candidato dizia ser o nome mais fácil para derrotar Trump, apostando em um discurso relativamente parecido com o que tinha sido usado por Hillary em 2016. O resultado? Para a surpresa das vozes mais à esquerda que criticavam a repetição de 2016 (inclusive a de Michael Moore) Biden venceu.

A justificação da vitória, que ignora completamente o que houve em 2016, era de que Biden se mostrou a opção mais fácil por ser centrista, não assustar o eleitor médio com discursos esquerdistas, o que teria sido determinante para a sua vitória.

Como toda leitura política, temos muito mais uma imposição de uma visão de mundo do que uma análise mais fria dos fatos e dos motivos que realmente causaram a derrota de Trump. No fim das contas, todos querem adaptar uma leitura da realidade que se encaixe nas suas crenças e visões de mundo.

Essa interpretação sobre a vitória do Biden alcançou o Brasil. Geralmente difundida pelo tal “centro expandido”, pela mídia corporativa e ecoada até no lulismo (que tenta vender Lula como opção de centro), coloca um peso excessivo no fato de Biden ter sido um candidato centrista e moderado para enfrentar Trump e acaba deixando de lado dois fatores fundamentais: a pandemia e a guinada à esquerda do Partido Democrata. Só é possível explicar a vitória de Biden de forma adequada se entendermos o papel desses dois fatores.

 A primeira questão a ser compreendida, mais evidente, envolve o desastre da gestão de Trump em relação à pandemia, que apostou pesado na polarização, no negacionismo e no embate contra a OMS e as recomendações dos especialistas, gerando um resultado catastrófico, alçando os Estados Unidos ao primeiro lugar no número de mortos. Essa constante briga com a realidade acendeu um sinal de alerta no eleitorado médio, indicando um primeiro desgaste em grande escala de Trump. 

A segunda questão, que poucas pessoas destacam, e que foi fundamental, foi o voto por correio. Como a pandemia estava avançando de forma rápida no período eleitoral, a possibilidade de voto pelo correio foi estendida a todos os eleitores, o que facilitou (e muito!) a vida do eleitor.

A possibilidade de votar em casa semanas antes do pleito e depois colocar seu voto em um posto de coleta, sem enfrentar filas, ajudou quem queria tirar Trump da presidência. E isso é comprovado pelo fato de que o voto por correio foi determinante para a virada de Biden em estados importantes (os famosos swing states, que oscilam entre o Partido Rebulicano e o Democrata conforme o pleito)².

O próprio Trump sabia disso, tanto que queria retirar recursos do serviço postal (que é estatal, inclusive) para impedir uma votação adequada e criar uma confusão suficiente para anular os votos. Lembram do comentário feio por Michael Moore sobre votar pelo videogame? Então, foi algo parecido com isso que aconteceu. 

Por fim, o que os pregadores do centrismo brasileiro não compreendem é que não foi necessariamente a política centrista que elegeu Biden, mas uma confluência de fatores, inclusive, uma guinada à esquerda da burocracia do Partido Democrata na tentativa de resgatar o eleitorado perdido em antigas áreas industriais.

No momento em que Bernie Sanders desistiu da pré-candidatura, o ex-presidente Barack Obama foi às redes divulgar um vídeo com uma autocrítica da sua presidência, assumindo que faria diferente se tivesse a oportunidade, chamando o eleitorado do Sanders para a campanha de Biden.

Isso foi lido como um compromisso com pautas mais à esquerda, como a ampliação da saúde pública, o aumento do salário mínimo, maiores impostos para a parcela mais rica da sociedade e uma posição mais ativa em relação ao estado na recuperação pós-pandemia. As medidas pendendo à esquerda da gestão Biden exemplificam isso: massivo investimento do estado na economia, maiores investimentos na assistência social e aumento de impostos sobre os mais ricos.

Portanto, muito do que uma parcela do centro vê em Biden é uma mera projeção de suas intenções para o Brasil ou um desejo de suprimir uma alternativa ao centro que faça concessões às demandas por maior participação do estado no desenvolvimento e maior justiça tributária.

Um outro problema, um tanto óbvio, dessa tentativa de ler o cenário brasileiro com lente dos Estados Unidos, é que o Brasil não é os Estados Unidos. O sistema eleitoral de lá é indireto e de turno único, forçando o bipartidarismo. Não é preciso refletir muito para notar que o sistema eleitoral do Brasil é completamente diferente do americano.

Essa tentativa de transpor o modelo eleitoral americano para o Brasil não é de hoje, mas vem ganhando um peso maior agora dentro do petismo, que quer projetar Lula como essa figura do “Biden brasileiro”, adiantando o segundo turno de 2022 e congelando a polarização até a eleição para que nenhuma alternativa surja no processo. Essa estratégia visa cumprir um papel duplo: manter a polarização e forçar mais um acordo do PT com o mercado alegando que “não há alternativas” (mimetizando a célebre frase de Thatcher). 

Reduzir o quadro eleitoral a duas alternativas só serve para atender aos interesses de quem lucra politicamente com a polarização: Bolsonaro e Lula. Nosso sistema eleitoral abre espaço para que várias alternativas se apresentem desde o primeiro turno, sem qualquer necessidade de antecipar a disputa entre dois nomes e isso é mais que legítimo.

Com o voto direto e a eleição em dois turnos, não há necessidade em congelar a polarização até 2022 e forçar o eleitor a escolher um lado desde já. Existe a responsabilidade em buscar uma alternativa à polarização? Sim, mas nada obriga uma escolha antecipada que obriga uma parcela enorme da população a depositar suas esperanças em um projeto que não se vê representada, matando o pluralismo normal de uma democracia. 

Não é necessário forçar uma interpretação bipartidária para o sistema eleitoral brasileiro, ainda mais quando não sabemos sequer se Bolsonaro estará vivo politicamente até 2022, dada a tragédia sanitária que se passa no Brasil. Tampouco é razoável forçar uma leitura da candidatura de Biden que projete um candidato que jamais existiu. É evidente que a tragédia humanitária, o descaso com a vida do brasileiro e as crises intermináveis proporcionadas pelo governo acendam um alerta na cabeça do brasileiro, que parte desesperado em busca de uma alternativa.

Entretanto, essa busca por alternativa tem que se dar a partir da realidade brasileira, não de outro país.  Não há problema em buscar inspiração externa  para superar a crise em que o país se encontra, mas penso que é dentro do Brasil, com cidadão brasileiro real e suas demandas, que vamos encontrar saídas para o quadro atual.

Somente com uma leitura acertada para o contexto brasileiro, com um diagnóstico que entenda como chegamos até aqui, é que podemos criar alternativas eficazes para nos tirar das trevas em direção a um futuro melhor e não na emulação de um cenário construído sob medida para projetar nossos desejos e pressupostos ideológicos sobre a realidade.

Frederico Krepe é bacharel em Filosofia pela UFJF e mestrando na mesma instituição

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6 comentários

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Paulo

03 de maio de 2021 às 19h32

A verdade é que a possibilidade de uma vitória da candidatura de Lula (embora eu não acredite) é assustadora, pois desta vez, se ganhar, ele vai implementar a pauta cultural e de costumes da esquerda à fórceps, na tentativa de esmagar o dueto família e conservadorismo. O dueto Deus e propriedade ele deixará para adiante, ao tempo em que se abraça com Argentina, Bolívia e Venezuela e vai canibalizando a direita aos poucos…Lula se colocar ao centro é fraude, estelionato eleitoral (não que ele seja um esquerdista radical, mas será conduzido a isso pelo Partido, pois há muita raiva em Lula e no PT)…

Responder

    Pedro

    03 de maio de 2021 às 20h26

    E quanto disso estará combinado com o congresso?? Não que eu não ache que seja relativamente fácil “comprar” o nosso congresso…..

    Responder

      Paulo

      04 de maio de 2021 às 22h13

      Pedro, o Congresso pode ser um empecilho ou um facilitador, dependendo das urnas. Mas, dado o fisiologismo histórico dos nossos políticos, é mais possível ser um facilitador…

      Responder

        Pedro

        05 de maio de 2021 às 18h49

        Veremos.

        Responder

André

03 de maio de 2021 às 11h09

Vejo Lula como candidato natural, fez um excelente governo, tem base popular e estrutura partidária forte.

Tem uma história incrível.

Também é sábio para governar levando em conta todas as demandas da sociedade.e fazendo os acordos políticos que são, na prática, a base do modelo presidencialista de coalizão que temos.

E sabemos que o PT e seus aliados de esquerda e centro não são radicais.

Enfim, um nome confiável para vencer a ultra direita.

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Ronei

03 de maio de 2021 às 10h17

Lula será candidato ?

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