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Liderança do movimento negro, Edson Santana critica ação de Paes no caso Moïse

Por Redação

06 de fevereiro de 2022 : 20h54

O assassinato do congolês Moïse Mugenyi demonstrou mais uma vez o que significa o racismo estrutural no Brasil. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, imediatamente tentou apresentar uma resposta para a situação ao oferecer o quiosque onde Moïse foi assassinado para sua família. Mas essa ação repercutiu muito mal no movimento social. É bom lembrar que Paes foi o primeiro político a defender publicamente na televisão a ação das milícias como uma forma de segurança contra o tráfico.

Liderança do movimento negro e dirigente do PCdoB, Edson Santana argumenta que Paes nunca tomou uma decisão contra o genocídio da população negra no Rio.

Segue abaixo o artigo na íntegra.

Caso Moïse: opinião de um homem negro

Por Edson Santana

O assassinato do congolês Moïse Mugenyi, ocorrido no dia 24 de Janeiro na Barra da Tijuca, deixou boa parte do mundo indignada. Moïse foi espancado até a morte após cobrar o pagamento de dois dias trabalhados no quiosque, na praia.

Durante 15 minutos, três homens se revezaram para, com um taco de basebol, tirar a vida do jovem de 24 anos.

O crime aconteceu em local público e foi testemunhado por algumas pessoas que foram intimidadas pelos criminosos. Segundo uma testemunha, dois guardas civis recusaram caminhar até o local e o quiosque continuou aberto mesmo com o corpo da vítima no local.

Tudo que foi citado à cima já é do conhecimento de muita gente, bem como o sucesso do ato que ocorreu no dia 05 de fevereiro quando milhares de pessoas tomaram à região do posto 08 da praia da Barra pedindo por justiça.

No mesmo dia a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro anunciou que no local do crime será construído um memorial em homenagem ao Moïse e que o quiosque Tropicália (onde ocorreu o crime), será administrado pela família da vítima.

O ato da prefeitura foi visto com bons olhos, como pode provar a publicação que foi feita logo após o ato pela página da prefeitura no Instagram.

Diante de toda repercussão e da jogada política no mínimo oportunista, cabe principalmente a população negra brasileira observar com criticidade as medidas adotadas pelo poder público e o comportamento das pessoas que se entendem militantes da causa racial e bateram palmas para Eduardo Paes.

O prefeito da cidade do Rio está em seu terceiro mandato e é conhecido por ser demasiadamente popular e bem sucedido na carreira política.

Neste mandato atual ele conseguiu a proeza de reunir em pastas importantes como a Cultura, Mulheres e Juventude, pessoas ligadas à luta popular, de algum modo. É evidente que se comparada a maioria das prefeituras em metrópoles, o Rio é minimamente avançado. No entanto, este avanço é suficiente para construir políticas públicas coerentes com os anseios da população negra carioca?

Se tomarmos como referência o caso Moïse será possível responder esta pergunta.

Eu, particularmente, enxergo com maus olhos e estômago embrulhado, a decisão em monetizar a família a partir do quiosque onde o parente (Moïse) foi assassinado. Me parece que é preciso não ter coração para colocar uma proposta como essa na mesa. Primeiro porque a família não vai recusar e segundo porque conviver cotidianamente com o fato brutal do assassinato não me parece nada saudável.

Também vejo com náuseas a proposta de se criar um memorial à vítima no local do ocorrido. As duas propostas, a meu ver, fazem parte do circo dos horrores perpetrado por quem vive de negociatas e oportunismo.

Eduardo Paes tenta solucionar uma problemática coletiva com soluções individuais.  

Moïse só foi assassinado da forma que foi porque é um homem preto e jovem. Tanto é que a alegação dos assassinos é que a vítima estava roubando banhistas na praia.

É natural, quando se é negro no Brasil, ter vivido ao menos um momento desses: a acusação de roubo.

Lembro quando eu tinha 09 anos e fui à praia com meus pais e uma mulher branca pediu que eu olhasse seus pertences. Quando voltou da água, a mesma afirmou que tinha sumido dinheiro de sua bolsa. Meus pais acreditaram em mim.

O escritor Lima Barreto, em seu Diário íntimo, também relata que quando criança já foi acusado injustamente de roubo e que foi a primeira vez que pensou em suicídio.

Voltando para o caso Moïse, me pergunto se não seria interessante revitalizar e melhorar a localidade da estátua de João Cândido, jogada às traças na Praça XV, entre o mar e o VLT do Paes.

Me pergunto também se não seria interessante ocupar o vazio urbano que existe no centro da cidade, com moradias para a população pobre, que é majoritariamente negra. Moradia também para a comunidade congolesa.

Seria de bom grado que o prefeito mudasse a política da Guarda Municipal, que espanca camelôs (majoritariamente negros) e rouba suas mercadorias.

Ou que o prefeito assumisse uma postura adequada quanto ao genocídio da população negra carioca.

Quem sou eu para julgar a família da vítima…

Mas para julgar as medidas racistas da prefeitura, eu me chamo Edson Santana. Sou escritor e cria de Realengo, Zona Oeste da capital.

Edson Santana é escritor e dirigente do PCdoB.

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7 comentários

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Edson Santana

07 de fevereiro de 2022 às 22h22

Você que não usa argumentos e eu que sou idiota?
Pronto… Agora existe racismo reverso…

Responder

EdsonLuíz.

07 de fevereiro de 2022 às 17h55

Correção:
“E me pergunto se, por ter o Brasil um Estado tão manifesto em seu poder de polícia e de Estado,…
………………………………
“..não está substituindo a ideia de país pela ideia de Estado no imaginário de setores beneficiados, de quaisquer ideologias ou classes sociais que sejam, mas que se compõem em alianças políticas suficientes para preservarem o quadro e evitarem mudanças, e se satisfazem com o território e o Estado existindo sem que constituam de fato um país.”

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EdsonLuíz.

07 de fevereiro de 2022 às 17h38

As iniciativas do prefeito Eduardo Paes em relação ao assassinato que sofreu o imigrante congolês Moïse Mugenyi são mesmo bem estapafúrdias.

Diferenças de visão referentes a estes episódios de violência como a que vitimou Moïse Mugenyi sempre haverão. Se a violência envolve um de nós brancos, ela repete os episódios da violência em geral, sofridas igualmente por pessoas de quaisquer etnias, mas se envolve alguém de etnia não branca, isso exige, ao ser tratado, que ao menos sejam consideradas as permanentes violências de caráter racista em nossa sociedade; se envolve um estrangeiro, como é nesse caso, precisamos considerar também a questão da xenofobia e o perfil que ela tem no nosso país(?).

A interrogação que eu coloquei grafada junto com ‘país’ é porque eu cada vez mais me questiono se o lugar onde vivemos, chamamos de Brasil e dizemos que é o ‘nosso’ país, constitui realmente um país.

Que temos um Estado, disso não tenho dúvida. E temos um Estado que manifesta a toda potência – e quando quer, manifesta a toda impotência – a prerrogativa da violência, esse poder de polícia que é exclusividade do Estado.

E me pergunto se, por ter o Brasil um Estado tão manifesto em seu poder de polícia e de Estado, eficientemente usado para favorecer a acumulação privada, escolher os privilegiados e proteger seus agentes executivos: políticos, quadros burocráticos e representantes sociais e econômicos, me pergunto se esta presença sufocante do Estado, seus aparelhos políticos e suas extensões econômicas e burocráticas, estas principalmente em forma das castas de funcionários “públicos”, do modelo tributário que temos e até sob a forma de empresas estatais, não está substituindo a ideia de país pela ideia de Estado no imaginário dos setores beneficiados, de quaisquer ideologias ou classes sociais que sejam, mas que se compõem em alianças políticas suficientes para preservarem o quadro e evitarem mudanças, e se satisfazem com o território e o Estado existindo que constitua de fato um país.

Originalmente, após o território em que moramos ser invadido por portugueses, que trouxeram para aqui, escravisados, milhões de grupos nacionais africanos diferentes e também outros grupos nacionais europeus, estávamos premiados para constituirmos um país com um Estado plurinacional.

Um pouco dessa promessa se realizou. O Estado brasileiro existe, repressor e controlador como todo Estado, e aqui no Brasil, com o patrimonialismo imperando, temos um Estado e poder quase absolutamente corrupto.

Mas, do que temos em nosso território, o que sobra de Estado, falta de país! Eu não sei se um dia conseguiremos ter um conjunto a que se possa denominar efetivamente de país. Nem para os portugueses e seus descendentes o Brasil conseguiu se constituir como país, e hoje mesmo os portugueses nada mandam ou mandam muito pouco. No Brasil o que manda é o interesse espúrio e difuso, sem relação com nações, culturas, solidariedades, interesses econômicos integrados e articulados e verdadeiro projeto de país.

Negros, Índios, novos Imigrantes Pobres a serem acolhidos e Povo Pobre em geral, que constituem bem uns 70% de todos, estes são invisíveis para o Estado! (Não reclamem de eu ter escrito com iniciais maiúsculas, eu sei que estou errado já em pensar o que tenho pensado).

E claramente estamos fracassando e o crime – crime de corrupção, de milícia, de tráfico de drogas e de armas, de tudo – está ocupando todo o território e todo o espaço de poder, não só no Rio de Janeiro e nos outros estados; em Brasília também!

Eu não sei

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Sueli Pessanha

07 de fevereiro de 2022 às 10h21

Parabéns Edson Santos! Sua opinião está fortemente abraçada por mim! Basta de racismo, preconceitos e VIVA meus irmãos pretos, indígenas de todas as raças, religiões, ricos ou pobres principalmente.

Responder

Ronei

06 de fevereiro de 2022 às 21h26

Esse líder do “movimento negro” além de ser um completo idiota é racista.

Só podia ser do PCdoB mesmo ou do psol.

Responder

Kleiton

06 de fevereiro de 2022 às 21h23

Esse tal de congolês não foi assassinado porque era preto.

O resto são as idiotices de sempre desses desadatados.

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Rodolfo

06 de fevereiro de 2022 às 21h05

O motivo desta matéria: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/02/ciro-defende-alianca-com-paes-e-diz-que-lula-esta-destruindo-os-partidos-de-esquerda.shtml.

– A esquerda lulopetista é o espelho do Bolsonaro. Fake news e enganação. Espero que o Brasil saia desta bipolaridade;
– Todos que não aceitam vender o Brasil para o interesse dos banqueiros defendido por Lula e Dilma desde 2003 viram inimigos.
– Bolsonaro modus operandi? Ninguém percebe? Não dá mais!

Brasil247, DiarioDoCentroDoMundo, Ocafezinho, revistaForum —> Gabinete do ÒDIO, PORÉM DA ESQUERDA. Os fatos: https://twitter.com/viniciusnobrega/status/1286380524710383617

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