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Imagem: Agência Brasil

César Locatelli: A Fantástica Fábrica de Golpes

Por Redação

02 de setembro de 2022 : 13h37

Por César Locatelli

Criticar os meios hegemônicos de comunicação envolve dificuldades inimagináveis. Só com criatividade e arte é possível não se render a seu poder. Ao não terem autorização para usar imagens da Globo, Victor Fraga e Valnei Nunes, diretores do longa A Fantástica Fábrica de Golpes, usaram ilustrações, elaboradas por Fernando Carvall e Leandro Araújo, bem como detalhes da tela de Flávio Tavares “Brasil, O Golpe: A Ópera do fim do mundo”,

Chico Buarque autorizou de bom grado o uso de duas de suas músicas, os fonogramas, entretanto, pertenciam à Globo. A solução foi recorrer ao grupo Francisco el Hombre, que regravou “Roda Viva”e à cantora Josyara, que interpretou “Pelas Tabelas”,. A trilha sonora original conta ainda com o trabalho de Erika Nande. As soluções com as ilustrações e com a trilha conseguiram converter problemas de difícil solução em agradáveis surpresas para os espectadores.

Padrão Globo

Já nos momentos iniciais do filme é contada a história da armação de uma roleta no Largo da Carioca por dois jornalistas de A Noite, dirigido por Irineu Marinho, jornal que seria sucedido por O Globo. O evento ilustra bem a postura adotada pelo grupo desde então. 

Corria o ano de 1913, quando os dois jornalistas montaram uma roleta em pleno Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, para dar como notícia a licenciosidade do chefe da polícia, tido pelo jornal como conivente com a jogatina. “O Rio está se transformando num Mônaco licencioso e despudorado” estampava a edição de A Noite de 02/05/1913. O samba “Pelo Telefone”, considerado o primeiro gravado no Brasil, ironizou o evento: “O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar / Que na Carioca tem uma roleta para se jogar.”

“Ressurge a Democracia”

Com o título acima, a edição de O Globo de 02/04/1964, trazia um radiante editorial em que saudava a desobediência militar ao chefe do Executivo, eleito democraticamente, e os agradecia por protegerem os brasileiros de seus inimigos. “Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor”, concluía o editorial narrado por Fraga.

Uma continuação informal do documentário Muito Além do Cidadão Kane

Para demonstrar que a TV Globo e a grande mídia mantêm sua firme atuação política de anos atrás, Fraga e Nunes consideram seu novo filme como uma continuação informal do documentário inglês Muito Além do Cidadão Kane, de 1993. “O filme de quase três décadas atrás denunciou como a TV Globo do Brasil manipulou impiedosamente a opinião pública desde os anos 1960, legitimou a ditadura que governou o país por 21 anos e demonizou as vozes progressistas que lutam pelos valores mais caros da democracia (particularmente o ex-presidente Lula)”, afirmam.

A monocultura mais perigosa é a das mentes

As monoculturas de soja, de milho e outras, atravessadas por agrotóxicos, excluem os pássaros, os sapos, os insetos, interditam a diversidade, tolhem a vida. Do mesmo modo, a monocultura nos meios de comunicação transmite alto grau de toxicidade para a consciência dos membros de uma sociedade. Esta é a forma que o prêmio Nobel da paz Adolfo Pérez Esquivel, um dos ouvidos por Fraga e Nunes, entende o monopólio na mídia e o pensamento único nos meios de comunicação. 

“A monocultura mais perigosa é a das mentes. A monocultura das mentes traz consequências, porque se chega ao totalitarismo, se chega a querer silenciar a mídia da oposição, a mídia de informação, os meios jornalísticos que se opõem a este ou qualquer outro governo; e aí chegamos aos totalitarismos. Apenas um passo separa os totalitarismos das ditaduras”, complementa ele.

Esperança

“Nosso filme é tanto um registro histórico quanto uma ferramenta de denúncia. Brasileiros e pessoas de outras nacionalidades devem aprender com os erros cometidos nos últimos anos. A regulamentação da mídia é necessária para corrigir isso. Queremos evitar que a história se repita e ajudar o Brasil a romper com sua longa tradição de golpes de Estado. Esperamos que um terceiro documentário sobre o viés da mídia não seja necessário em três décadas”, concluem Victor Fraga e Valnei Nunes

Serviço

Filme: A Fantástica Fábrica de Golpes

Direção: Victor Fraga e Valnei Nunes

Produção: Dirty Movies

Duração: 105 minutos

Link para o trailer: clique

Entrevistados:

Breno Altman (jornalista); 

Celso Amorim  (chanceler brasileiro 2003-2010); 

Altamiro Borges (ativista da mídia); 

Chico Buarque (cantor e compositor); 

John Ellis (produtor do filme Muito Além  do Cidadão Kane); 

Glenn Greenwald (jornalista e fundador do The Intercept); 

Ken Livingstone (Prefeito de Londres 200-2008); 

Ricardo Melo (jornalista); 

Ana Mielke (ativista dos direitos das comunicações); 

Adolfo Perez Esquivel (Prêmio Nobel da Paz); 

Raimundo Pereira (jornalista); 

Antonio Pitanga (ator); 

Roberto Requião (senador brasileiro 2011-2019); 

Geoffrey Robertson QC (advogado dos Direitos Humanos); 

Jan Rocha (correspondente da BBC Brasil); 

Dilma Rousseff (presidente do Brasil 2011-2016); 

Benedita da Silva (parlamentar brasileira); 

Márcia Tiburi (filósofa); 

Jean Wyllys (parlamentar brasileiro 2011-2019).

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4 comentários

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EdsonLuíz.

03 de setembro de 2022 às 00h26

Normalizar milicianos e corruptos é sempre pavoroso! E é um apoio mais pavoroso ainda quando milicianos e corruptos apoiam autocratas e ditadores de sabores diversos, inclusive com apoios coincidentes entre os dois a certos autocratas urubus, como o apoio coincidente de Lula e bolsonaro ao corvo Vladimir Putrin Putrefacim!

Um político como Lula não pode ser normal; do mesmo modo, um político como jair bolsonaro também nada normal é. Não cabe normalizar nenhum desses dois.

Responder

Alexandre Neres

02 de setembro de 2022 às 23h27

Os corvos estão em fúria

Por Milly Lacombe, no UOL

Cria corvos e eles te comerão os olhos, diz o ditado.

Ditados não existem como obras do acaso. Eles normalmente carregam verdades, falam de experiências, de situações muito humanas. São alertas e aprendizados.

O que estamos vendo no Brasil de hoje são corvos docemente criados e alimentados que, por serem corvos, começam a arrancar os olhos de quem os nutriu e acolheu.

Jair Bolsonaro nunca foi um candidato legítimo. Naturalizá-lo sempre foi imoral e indecente. Usar o antipetismo para colocar o bolsonarismo em um lugar de aceitação e de resignação foi parte de um jogo perverso e antiético.

Goste-se ou não de Lula, Dilma e do PT, não há como nem por onde argumentar que eles não respeitaram o jogo dentro das linhas democráticas.

Já Bolsonaro, um esquecido deputado que fazia suas maracutaias e recebia seus amigos milicianos nas coxias, sem que ninguém prestasse muita atenção neles, quando se candidatou deveria ter sido recusado a priori.

Não se acolhe docemente alguém que considera o estupro um ato elogiável, alguém que faz juras de amor a um torturador, alguém que diz preferir filho morto a filho gay, alguém que compara pessoas negras a gado.

Não se nutre gentilmente um político tão associado a milícias e milicianos – e essa informação sempre esteve disponível.

Não se senta à mesma mesa de alguém que diz apreciar ditadores e ditaduras, que sugere que adversários políticos sejam metralhados e que ex-presidentes sejam assassinados.

Não se protege jornalisticamente uma operação que usou de métodos ilegítimos e inquisitórios, como fez a Lava Jato, ou o juiz tendencioso que era seu garoto-propaganda – enviesamentos éticos que Moro nunca fez questão de esconder, nem precisaríamos dos áudios da Vaza Jato – e não se compara a um enxadrista o homem que deveria ser um estandarte da imparcialidade mas que atuava descaradamente como justiceiro.

Não se aplaude midiaticamente a espetaculariziação de justiciamentos e muito menos a apresentação de um PowerPoint infantilizante e desconexo sem saber que, ao fazer isso, estão engordando os corvos que, ali na frente, comerão seus olhos.

Apoiar as lógicas milicianas de existência e incentivar justiceiros e justiciamentos teria obrigatoriamente que dar nesse lugar medonho onde fomos parar.

Não deveria ser uma surpresa.

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Teve muita gente alertando que acabaria assim.

Alertas eram feitos desde que a administração de Dilma passou a ser ameaçada por métodos golpistas.

Muita gente falou, escreveu, argumentou que acabaríamos dando exatamente nesse ambiente dentro do qual os corvos arrancam nossos olhos. Os de todos, inclusive daqueles que os apoiaram, nutriram, paparicaram, lamberam.

Corvos são criados por poucos, mas a todos eles arrancam os olhos.

A tal da auto-crítica, que os criadores de corvos sempre exigiram do PT e de Lula, eles mesmos não são capazes de fazer.

Agora, sem sequer reconhecer seu papel na criação dos corvos, pularam para o lado de cá e gritam apavorados que estão sendo atacados por pássaros selvagens, violentos e descontrolados.

O PT, não podemos deixar de dizer, tem sua parcela nessa criação desses corvos porque foi durante os oito anos de Lula que esses pastores endiabrados ganharam poder político.

Mas agora, todos e todas nós sendo devorados pelos corvos enojados e revoltados, seria preciso reconhecer tudo o que foi feito para que déssemos aqui.

Não chegamos aqui da noite para o dia.

Bolsonaro não é um acidente.

Bolsonaro é a válvula de escape de um sistema capitalista e liberal que devastou uma nação e que devasta boa parte do planeta.

Muitos países estão tendo que lidar com seus Bolsonaros e, para se livrar deles, buscando uma saída pela direita.

No primeiro debate o que vimos foi um espetáculo circense no qual o que havia de mais à esquerda era Lula, alguém que pode e deve ser colocado mais no centro do que à esquerda.

Os nanicos de direita e de extrema direita estavam lá.

Os nanicos de esquerda e de extrema esquerda não.

Isso não se dá ao acaso.

Ao montar o tabuleiro com essas peças, apontando tudo do centro para a direita como se nada mais houvesse, o jogo está desenhado.

Dar voz a alguém como o minúsculo Felipe D’avila é também nutrir corvos. Ainda pequeninos, limpinhos, bonitinhos – mas corvos.

Estão nos oferecendo os mesmos caminhos que nos trouxeram até aqui.

O caminho do “basta pagar pela bagagem que o preço da passagem cai”.

O preço não cai e o argumento passa a ser: “faltou fazer uma última reforma. Estamos travados pela participação do estado. Menos estado e tudo se resolve. Vem aqui e vamos privatizar tudo”.

Uma galera que acredita que corrupção existe sem a participação do setor privado.

Uma galera que criou corvos repetindo sem parar em nossos ouvidos que o problema do Brasil era apenas a corrupção e nada mais – corrupção que eles só enxergavam no braço público desse casamento macabro entre o público e o privado porque, do braço privado, eles queriam delações sem comprovação ou checagem para fazer seus Powerpoints que os criadores de corvos no dia seguinte promoviam.

Vai dar no mesmo lugar.

Vamos matar esses corvos em fúria, retomar a caminhada pela direita e, logo ali, encontrar novos corvos para nutrir.

Hora de pegar a saída pela esquerda.

Investir no social. Na educação. Em pesquisas. Numa forma mais cooperativa e sustentável de vida.

Fazer universidades, ampliar o espaço do comum, encolher o espaço do privado.

Hora de entender que estamos lutando contra o fascismo, exatamente como fizeram nossos ancestrais.

Bolsonaro nunca foi legítimo. Nem por um dia.

Naturalizá-lo sempre foi saída covarde de quem, secretamente, cravou 17 nas urnas para não ter Lula ou o PT de volta.

Pessoas que escolheram ignorar as coisas boas feitas pelas administrações do PT e saíram por aí comparando tudo o que estava posicionado mais à esquerda a Bolsonaro.

Escolheram ignorar dados, estatísticas.

Escolheram dar um pontapé na realidade e deixar seus preconceitos serem a lanterna na escuridão.

Comparar Lula, Dilma ou Haddad a Bolsonaro nunca foi parte legítima desse jogo. Nem nunca será.

Administrações que fizeram quase 20 universidades públicas, que liquidaram a dívida com o FMI, que criaram leis como a das Domésticas, que implementaram cotas sociais e raciais, que apoiaram causas LGBTQ.

Quais os termos para compará-los a isso que estamos vendo?

Sabemos exatamente o que o PT fez de errado. Os erros nem original foram. O PT repetiu os mais básicos erros de FHC, de Sarney, de Collor etc.

Mas onde o PT acertou ninguém mais até hoje acertou. E os criadores de corvos escolheram jamais falar desses acertos e focar apenas nos deslizes.

Já seria estranho se o rival estivesse dentro do campo democrático. Mas agir assim sabendo que do outro lado está o fascismo é ignóbil, tosco, indecente, imoral.

Hora de chamar as coisas pelo nome que elas têm.

Criadores de corvos, vocês nos trouxeram até aqui.

Assumam suas responsabilidades, façam suas autocríticas e, aí sim, juntem-se à luta. Vai soar menos hipócrita.

Responder

EdsonLuíz.

02 de setembro de 2022 às 22h50

Viva a imprensa livre!

Viva a democracia, que mantém a sociedade aberta à discussão de ideias!

Viva a liberdade para liberais, comunistas, fascistas e para a matriz de ideias que houver poderem discutir livremente, respeitadas as regras institucionais e mantida a defesa dos valores e direitos democráticos, humanistas e progressistas!

E sempre atentos ao fato de que, em uma sociedade iliberal e dominada por fascistas e comunistas de corte fundamentalista, todos os direitos humanos, democráticos e progressistas se perdem e a sociedade fica sob o arbítrio dos autoritários, não poucas vezes disfarçados de democratas.

Viva a Globo!
Viva o Valor Econômico!
Viva o Estadão!
Viva a Folha de São Paulo!

Viva ‘ocafezinho.com’, quanto a manter-se como um jornalzinho faccioso, mas interativamente democrático!

Viva toda a imprensa livre e democrática, por mais que dela se discorde! Viva a imprensa livre e viável, esteiro e marca incondicional de um mundo livre!

Só os toralitários não gostam da liberdade : não gostam da sua liberdade e desconfio que eles não gostem sequer da sua própria liberdade.

— Amplos setores do PT e seus panfletos políticos não gostam de liberdade!
— jair bolsonaro e seus panfletos políticos não gostam de liberdade!
— O autor deste post certamente não gosta de liberdade!

Viva Mirian Leitão e viva Vera Magalhães, que amam a liberdade, tão ofendidas por totalitários (alguns ofensores, apenas ignorantes e equivocados) em seu trabalho sério de jornalistas na imprensa livre, ofendidas em casa, em aviões e, por várias vezes, por comentaristas aqui neste democrático e paradoxal ‘ocafezinho.com’, em nome da defesa de toda liberdade de imprensa!

Viva o liberalismo e seus valores essenciais, defendendo a liberdade de todos!

Edson Luiz Pianca.

Responder

Paulo

02 de setembro de 2022 às 20h46

Só pelos entrevistados já se antevê o discurso. Se os comunistas tivessem triunfado, o Golpe Militar de 1964 teria parecido fichinha perto do que os “Guevaras” fariam por aqui…

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