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Lira e Lula. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Lula deveria apoiar Arthur Lira?

Por Pedro Breier

01 de dezembro de 2022 : 19h22

Início de 2015.

Dilma Rousseff acabara de sagrar-se vencedora nas eleições presidenciais, mas não havia muito o que comemorar. Os movimentos golpistas da oposição, àquela época liderada pelo candidato derrotado Aécio Neves, emparedavam o novo governo logo no início do mandato.

O governo Dilma decidiu apoiar Arlindo Chinaglia, do PT, na eleição para a presidência da Câmara, sem chances reais de vencer. Eduardo Cunha saiu vitorioso e ali foi selado o antagonismo entre o Executivo e o Legislativo que acabaria na queda de Dilma.

Se Dilma tivesse apoiado Cunha a história seria diferente? Talvez não, mas sem dúvida haveria mais chance de uma composição com a Câmara.

O momento decisivo foi quando Cunha tinha contra si um processo de cassação no Conselho de Ética e os votos dos deputados petistas seriam determinantes para a continuidade ou não do processo. Cunha é um gângster, como definiu o deputado Glauber Braga (PSOL), e salvá-lo naquele momento não pegaria nada bem. Mas não salvá-lo resultou na abertura do processo de impeachment por Cunha – e todo o inferno que se seguiu depois disso.

Salvar Cunha evitaria o impeachment? Talvez não, mas, novamente, a probabilidade de evitar o golpe seria maior.

Lembro desses episódios para refletirmos sobre o apoio do PT, PCdoB, PV e PSB à recondução de Arthur Lira à presidência da Câmara dos Deputados. Lira é o rei do Centrão e foi um péssimo presidente da Câmara: ditatorial, sufocou os trabalhos da oposição e deu andamento às pautas bolsonaristas, como bem pontua a deputada Sâmia Bomfim:

Acho até que o PSOL, que se coloca mais à esquerda no espectro político, faz bem em não votar em Lira. É saudável que os desmandos do presidente da Câmara sejam contestados.

Mas qual seria a alternativa para o governo Lula?

Lira tem apoio maciço entre os deputados e, por isso, tem sua reeleição quase garantida. Qual seria o efeito prático de marcar posição com uma candidatura de esquerda?

Teríamos novamente uma confrontação, logo na largada do governo, entre o Executivo e o Legislativo. A animosidade não seria nada boa para os planos de Lula de formar uma maioria sólida no Congresso. E ainda dificultaria a aprovação da PEC da Transição, essencial para garantir o mínimo de investimento público necessário para 2023.

É claro que se trata de uma aliança tática – imagino que ninguém alimenta ilusões de que Lira será um aliado de primeira hora do governo Lula. Mas me parece um movimento necessário para construir uma boa base no Congresso e, assim, isolar o bolsonarismo.

A pressão da militância de esquerda no episódio Cunha no Conselho de Ética foi decisiva para que o PT não fechasse acordo com o gângster.

Mas se salvar Cunha aumentava a chance de impedir o golpe, não seria o correto a se fazer? Salvar um corrupto da cassação é evidentemente menos danoso do que sofrer um golpe de Estado e entregar o país para a direita e, em seguida, para a extrema-direita.

Às vezes a boa política não é a mais correta em abstrato, mas a fria e calculista que enxerga os interesses populares no médio e longo prazo. Não é, definitivamente, para quem tem estômago fraco.

Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve sobre política n'O Cafezinho desde 2016.

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6 comentários

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Saladino

01 de fevereiro de 2023 às 14h53

O drama nativo nestes anos 20 do século 21 é que nada parece indicar que o país ganhará novamente o rumo da prosperidade.
Uma prosperidade cada vez mais esquecida geração após geração.
Cuja memória mais evidente se resume ao encontro das avenidas Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, presidentes da era de ouro, que a maioria dos brasileiros pobres e remediados não têm a menor ideia de quem foram, nem o que fizeram.
Seus sucessores destroçaram o país, a seu modo, com “reformismos triunfalistas”!

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João Mac-Cormick

11 de janeiro de 2023 às 17h35

Putz… Afirmar que Lula assume na maior fragilidade é brincadeira. O cara conseguiu costurar uma aliança para aprovar a PEC da Transição, que, de “quebra”, nela, revoga a famigerada EC dos Limites dos Gastos não-Financeiros (isso mesmo, a gastança estava liberada para a banca dos juros), EC entulho dos golpistas temeristas, que nunca foi cumprida, durante 6 anos de existência.

Até entendo que parte do PSOL não queira votar em Lira ou Cunha. Mas não dá para dissociar do objetivo maior que é afastar a extrema-direita. Como se dá a luta por melhorar a democracia se ela está vulnerável? Infelizmente, Lira/PP é o mal menor.

Dilma tentou a boa política, mas, infelizmente, não existe com os congressistas eleitos pelo povo. Basta lembrar a célebre frase de Ulysses Guimarães em resposta a um jornalista: “Se você acha esse Congresso ruim, espere até o próximo”. O candidato Ciro Gomes tinha ciência desta questão e apresentou a fórmula mágica:

“Se chegar à Presidência, liderará com ajuda de governadores e prefeitos, uma negociação com o Legislativo para que suas propostas econômicas avancem nos primeiros 6 meses de governo. Um gesto para atrair apoio nessa negociação seria, segundo Ciro, abdicar da própria reeleição.”

Lembro que vários congressistas pediram para Lula ser candidato em 2010. Ele não topou de jeito nenhum. Acreditar que reeleição é moeda de troca é pura ingenuidade.

Acompanho Fábio Ribeiro e concordo com as ponderações do relator Alexandre Neres. Como há terraplanista nesse mundo, “gesuiz”!

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Fábio Ribeiro

02 de dezembro de 2022 às 05h59

Perfeito Alexandre Neres , faço minha suas palavras.

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Alexandre Neres

02 de dezembro de 2022 às 02h22

O bom de redigir textos é que à medida que você escreve acaba se traindo.

Por exemplo, citar Rodrigo Janot para fazer uma constatação, só se for para contestar as baboseiras dessa figura execrável, quanto mais depois do dia que confessou ter ido armado ao STF nesse mesmo livreco. Aí vem Gilberto Dimenstein, que Deus o tenha, que teve tempo pra se redimir, Josias de Souza, pelamor, só faltou a Malu Gaspar nesse enredo. Tanto eu quanto o Pedro Breier cansamos de criticar o petismo jurídico, como os péssimos ministros indicados ao STF e os procuradores-gerais horrorosos os quais pelo menos não eram engavetadores, padecendo o PT de um republicanismo infantil. Poderia citar também a desoneração fiscal ingente, os campeões nacionais etc.

O Pedro tenta elevar o nível, mas o udenismo impera. Talvez a pessoa se ache progressista, mas se tivesse se informado sobre a banda de música da UDN iria perceber onde está situado. Se conhecesse a trajetória de Samuel Wainer, a perseguição da imprensa dita profissional, ou então o destino de Mário Wallace Simonsen, dono da Panair, perseguido e proscrito pela ditadura militar. Aí vem criticar o dinheiro das empreiteiras para financiar a política brasileira, o que sempre fizeram desde que essas estranhas catedrais foram erguidas durante os anos de chumbo. Todos os partidos que de fato disputavam as eleições eram financiados por elas, mas de repente surgiu o vilão perfeito, todos posaram de vestais e passaram a acusar o PT, quando o problema sempre foi estrutural. De novo, surge o mote da corrupção como pretexto para atingir a ordem democrática, o que é recorrente na nossa História, com os marchadores sempre a postos.

Então, se quisermos seguir adiante, temos que refletir sobre nosso discurso, não dá pra na maior cara de pau prosseguir na retórica da antipolítica, pois a gente já viu no que deu. Quem quer disputar eleição de verdade, não atingir 3%, tem que saber como a banda toca. Todo mundo tá recebendo dinheiro, você não, não se elege, tal qual o corredor que tá limpo rodeado de norte-americamos repletos de anabolizantes. Quem tá governando o Brasil, não quem fica à margem sem concorrer efetivamente, sabe que tem que lidar com figuras impolutas, que vão exigir cargos, que se tal sonda não for comprada, vai mandar paralisar as votações no Congresso. Você vai ficar parado vendo isso? Não, você pode mandar fortalecer as instituições para que detectem e apurem irregularidades, mas essas corporações também compõem a elite do atraso. Se JK fosse investigar a fundo seus aliados e pra onde estavam indo as verbas, não teria construído Brasília nem feito tanta coisa em pouco tempo. Um presidente tem que ser julgado com base na ética da responsabilidade, a ética da convicção não basta, se não administrar bem e levar o país pra frente, não vai adiantar nada ser incorruptível.

Associar o PT com as empreiteiras como se lê abaixo mostrando a falta de noção da realpolitik obriga a tratar do assunto da linha auxiliar do bolsonarismo, na campanha mais sórdida de alguém pretensamente do campo progressista, com uma proximidade dos milicos por meio do Aldo Rebelo, passando pano para a esdrúxula Nova Resistência e renegando a lição número um de Brizola. O fim melancólico não poderia ter de dado de outra forma, culminando com o abandono dos irmãos, e uma saída à francesa.

Voltando ao texto do Pedro, fico desgostoso ao ver Lira por perto, mas precisamos lançar sobre isso um olhar arguto, não um moralista. Já foram feitos os cálculos, a contabilidade está escarafunchada, até o mundo mineral sabe que Lira será reeleito. Você vai aprender com os erros do passado ou não? Vai lançar uma candidatura heroica sem a menor chance? Vai fazer um bom governo abdicando da relatoria da CCj ou da Comissão do Orçamento? Cada um vê as coisas sob uma ótica diferente, quem está governando enxerga de uma forma, quem sempre está à margem do pleito eleitoral, não consegue voto e elabora projetos irretocáveis, por exemplo, costuma ver corrupção e bandidos por todo lado, não sente nem vontade de dialogar com essa corja. Perde-se tempo e não apreende nada.

Em vez de agradecermos aos céus a grande chance que estamos tendo de resgatar nossa democracia em frangalhos, por termos afastado essa extrema-direita tosca, o que só aconteceu graças à existência de Lula e ao que ele representa, senão o inominável teria sido reeleito com toda a certeza, fica-se expondo a própria mesquinhez e o ressentimento por ter perdido mais uma vez, sem aprender nada até a próxima derrota que virá inexoravelmente se continuar a repetir os mesmos erros. Ficam vislumbrando fragilidade onde há força.

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Netho

01 de dezembro de 2022 às 20h35

Não há problema algum!
Muito menos qualquer contradição do PT e de Lula, à guiza da governança, supostamente em nome da plebe rude, também reeleger “a nata da corrupção”.
A expressão “nata da corrupção” é literal, segundo Rodrigo Janot.
Consta do seu livro Nada Menos que Tudo, em referência ao partido liderado por Lira.
Segundo o ex-PGR, o partido mais integrado à corrupção generalizada nos contratos da Petrobrás com as empreiteiras. Sempre em nome, claro, dos interesses público, social e nacional.
Registre-se que Lula sempre soube de que as empreiteiras eram “uma fria”.
A observação está no livro publicado por Gilberto Dimenstein e Josias de Souza, nos idos de 1994, antes do ex-metalúrgico aterrissar no Alvorada: ” A história real – trama de uma Sucessão”.
Lula rejeitava “contribuições em dinheiro” da Odebrecht., entre o primeiro e o segundo-turno, à eleição de 1989.
Ainda em 1993, Lula já no Parlamento, denunciava os “300 picaretas”, ao ponto de servir de mote à faixa musical da banda Paralamas do Sucesso.
Após as condenações de Genoíno e Dirceu, de Palocci e Delcídio, já em 2017, durante sua Caravana Nordeste, ainda livre, leve e solto, Lula foi além dos 300.
Declarou, conforme o 247, considerado o Diário Oficial de Lula:
“Em um depoimento, um delegado me perguntou se era verdade que eu tinha dito que o Congresso tinha 300 picaretas. Eu disse que sim, mas que hoje deve ter mais”.
Há dois tipos de pragmatismo. Não necessariamente coerentes. Assim falava o “Chê” no livro de Régis Debray. O pragmatismo coerente e os demais.
Obviamente, o pragmatismo do lulo-petismo não é o primeiro. Haja vista aonde o partido e o ex-metalúrgico foram parar, por conta dos caraminguás das empreiteiras (que sempre foram “uma fria” e pelo fato do resultado dos “demais pragmatismos” implicar o renascimento dos filhotes da ditadura a reboque dos erros crassos de Lula e do PT.
Falso justificar a aliança com o crime parlamentar organizado, sob a égide do orçamento secreto, sobretudo, invocando o nome da plebe rude, sem eira nem beira, em justificação moral.
Não seria necessário, sob hipótese alguma. Até porque, a responsabilidade pela aprovação dos caraminguás não é do governo que entra, mas tão somente do que sai.
O fato é que Lula venceu por um triz e inicia já demonstrando uma enorme fragilidade.
Vale a máxima de Millôr Fernandes: “Já se percebe a escuridão no fim do túnel”.
Considerar o fato de Lula, antes mesmo de ser empossado, já ajoelhar no altar do Centrão e beijar a cruz de São Francisco da Fancaria faz lembrar outro bordão de Millôr:
“O pior cego é aquele que quer ver”.

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Paulo

01 de dezembro de 2022 às 19h31

“Se os fins justificam os meios, o que justifica os fins?”

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