O PSOL e o apoio de Schrodinger ao governo Lula

Imagem: site do PSOL

O Gato de Schrodinger é uma famosa experiência mental proposta pelo físico austríaco Erwin Schrodinger para ilustrar alguns elementos da mecânica quântica. É mais ou menos assim: se há um gato fechado em uma caixa, quem está olhando de fora da caixa não sabe se o gato está vivo ou morto. Logo, o gato não está apenas vivo ou morto, mas sim em uma sobreposição entre esses dois estados. O gato está “vivomorto” – ao menos até alguém abrir a caixa e verificar a saúde do bichano.

A julgar pelas manifestações de lideranças diversas do PSOL após a reunião do diretório nacional do partido, podemos dizer mais ou menos a mesma coisa: o PSOL apoia e não apoia o governo Lula ao mesmo tempo.

Psolistas como Fernanda Melchiona deram destaque ao fato de que o PSOL não terá cargos no governo Lula. Outros, como Guilherme Boulos, ressaltaram que o partido estará na base de apoio do governo.

A resolução aprovada pela direção do partido permite que filiados ocupem cargos no governo mas, neste caso, os nomeados não estarão representando o PSOL. O partido será base de apoio na Câmara, mas indica, em sua resolução, que não será um apoio total e irrestrito:

(…) o PSOL estará ao lado de Lula contra o Bolsonarismo e combaterá a oposição ao seu governo. Nossa relação será baseada no compromisso com as pautas populares, não em negociação de espaços ou condicionada à composição de Ministérios.

(…)

O PSOL apoiará o governo Lula em todas as suas ações de recuperação dos direitos sociais e de interesses populares.

Por um lado, é importante que haja no parlamento um partido como o PSOL, para pautar questões que a direita não pauta e que o PT também pode não pautar, por conta das restrições naturais de se estar no governo. Por isso é bom que o partido mantenha sua independência – até mesmo para puxar o governo e o debate público para a esquerda.

Por outro lado, é uma pena que o PSOL não ocupe cargos no governo. A vitória sobre Bolsonaro foi histórica e a esquerda tem agora uma chance de ouro para implementar políticas públicas que transformem de verdade o país. É isso que garantirá o bem-estar da população e a continuidade, nas próximas eleições, de um projeto popular de nação.

Para atingir o ambicioso objetivo de transformar o Brasil, seria muito bom que os qualificados quadros do PSOL ocupassem ministérios no governo Lula. Não é sempre que teremos o orçamento na mão para mudar a vida das pessoas (e quem sabe das próximas gerações) – como bem demonstram os últimos seis anos com a direita no poder.

Por isso não faz sentido perder a oportunidade ímpar de utilizar o parrudo orçamento federal para implementar políticas públicas populares e emancipatórias.

De todo modo, parece que este foi o arranjo possível diante das renhidas disputas internas do PSOL. A resolução acabou sendo uma espécie de concertação entre as forças do partido mais próximas e as mais distantes do PT.

Mas o fato do PSOL decidir ser base do governo na Câmara não é trivial. Especialmente se lembrarmos que o partido foi criado a partir de um racha no PT, logo no início do primeiro governo Lula, e que suas candidaturas à presidência quase sempre tiveram um forte viés de crítica pela esquerda ao petismo.

Agora o momento é outro: frente ampla contra a extrema-direita. Que o PSOL e seus quadros sigam sendo parte importante dessa frente. O país vai precisar.

Pedro Breier: Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve sobre política n'O Cafezinho desde 2016.
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