O sonho chinês, Resurrection, o filme Fiat Lux do ano!

Resurrection, de Bi Gan. Divulgação.

Por Priscila Miranda, para o Global South News e Cafezinho

Se há um filme que representa a China no cinema contemporâneo, esse filme é Resurrection, de Bi Gan.
Não apenas pela sua ambição formal ou pela sua escala técnica, mas porque ele afirma algo muito mais profundo: a entrada definitiva da China no campo do imaginário, no terreno do soft power, no lugar onde os países deixam de apenas existir e passam a ser sonhados.

No seu primeiro fim de semana de estreia, Resurrection estreou em primeiro lugar na bilheteria chinesa, arrecadando RMB 116,8 milhões (cerca de US$ 16,5 milhões), segundo o Hollywood Reporter. Desde então, o filme já ultrapassou a marca de US$ 25 milhões arrecadados exclusivamente na China, um desempenho absolutamente excepcional para uma obra de arte de tamanha radicalidade formal e ambição estética.

Resurrection estreou na Competição Oficial do Festival de Cannes, a principal vitrine do cinema mundial. Não é coincidência. Cannes é, há décadas, o festival que pauta a circulação internacional dos filmes e influencia diretamente a maior premiação do cinema, o Oscar. Ano após ano, os títulos que se consolidam na temporada de prêmios têm ali sua primeira legitimação simbólica.

Neste mesmo circuito estão filmes como Sentimental Value, de Joachim Trier, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Sirât, de Oliver Laxe. Resurrection pertence a esse grupo. Não apenas passou por Cannes — dividiu Cannes, como fazem as grandes obras.

Bi Gan tem 36 anos. Resurrection é apenas o terceiro longa-metragem de sua carreira — e ainda assim uma obra que poucos países no mundo seriam capazes de produzir. Trata-se de um filme de arte em escala industrial, algo hoje restrito a pouquíssimos sistemas de financiamento cinematográfico.

Não se trata de afirmar um número fechado de orçamento — trata-se de reconhecer a magnitude. O tempo de produção, a complexidade técnica, a ambição estética e o risco assumido colocam Resurrection num patamar comparável apenas às grandes obras autorais produzidas por cinematografias com enorme musculatura econômica.

Hoje, só a China — e historicamente os Estados Unidos — conseguem sustentar esse tipo de cinema: um cinema poético, radical, experimental, feito com tecnologia de ponta, estrelas nacionais e vocação internacional.

Quem faria um filme desses?
Talvez um Scorsese tivesse estrutura.
Mas não faria como Bi Gan.

Porque só um artista formado na China contemporânea — um país que já venceu suas guerras materiais — poderia realizar um filme que fala do sonho, da memória, do tempo e da própria essência do cinema.

Resurrection é, antes de tudo, um elogio ao cinema.

Não é um filme didático, nem explicativo, nem preocupado em representar uma sociedade de forma literal. A arte não existe para congelar um país num retrato fixo. A sociedade está em constante mutação. A arte é poesia, deslocamento, invenção.

O que Bi Gan faz é afirmar algo muito mais forte: o domínio da linguagem cinematográfica na sua essência.

Um filme é uma pintura em movimento.
São 24 quadros por segundo.
É tecnologia, coordenação, tempo, dinheiro e risco.

E, mais uma vez, isso só é possível porque a China hoje tem essa bala na agulha.

Após Cannes, Resurrection foi adquirido e distribuído internacionalmente. O filme tem distribuição nos Estados Unidos, acaba de ser lançado na França e segue circulando no circuito de prestígio.

A atriz Isabelle Huppert declarou que há anos não assistia a um filme com tamanha grandeza cinematográfica.

A publicação IndieWire incluiu Resurrection na sua lista dos 50 melhores filmes do ano, na 23ª posição — reconhecimento que coloca o filme no centro do debate crítico internacional.

Na Itália, Resurrection é distribuído pela I Wonder Pictures, dirigida por Andrea Romero.

Andrea Romero é hoje um dos distribuidores mais ousados e visionários do cinema italiano contemporâneo. E aqui, ousadia não significa aposta inconsequente, nem leitura de tendência. Significa reconhecimento histórico.

Ao longo dos últimos anos, Romero tem sido um dos profissionais que melhor soube identificar filmes que importam para a história do cinema. Filmes que passam por Cannes, que chegam ao Oscar, mas sobretudo filmes que permanecem — que seguem sendo vistos, debatidos, revisitados.

Por isso, quando Resurrection é chancelado por ele, não se trata de entusiasmo passageiro. É também chancela histórica: o reconhecimento, por alguém que lê o cinema no tempo longo, de que este é um filme que entra para a história.

Bi Gan é fruto de uma nova geração de chineses bem-sucedidos.

E isso é decisivo.

Países verdadeiramente ricos não são aqueles que produzem apenas médicos, engenheiros ou advogados. Isso é base. Isso é estrutura. Países realmente realizados são aqueles que conseguem produzir artistas.

Não à toa, as elites do mundo inteiro sempre investiram em arte, em cultura, em mecenato. Porque o poder real não está apenas na produção material, mas na capacidade de imaginar o mundo.

Bi Gan nasce desse lugar.
De um país que já venceu o material e agora disputa o imaterial.
De um país que entende que o próximo passo não é convencer, mas encantar.

Resurrection é um filme Fiat Lux.
Faça-se a luz.

Ele não explica a China.
Ele cria um mundo.

Ele não disputa o passado.
Ele disputa o sonho.

E, no fim das contas, nós, humanos, somos muito mais sonho do que realidade. As políticas públicas, os projetos de Estado, tudo isso deveria estar a serviço dessa dimensão — a que nos faz infinitos.

Por isso, Resurrection não é apenas o grande filme chinês dos últimos anos.
É um filme que entra para a história do cinema.

E entra porque afirma, com força estética e coragem artística, que um país do Sul Global pode produzir não apenas infraestrutura e tecnologia, mas arte.

Isso é poder.
Isso é cinema.

Resurrection será lançado este ano, em cinemas de todo o Brasil, pela distribuidora Fênix Filmes.


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