A Rússia entrou novamente no radar da corrida espacial ao registrar a patente de um projeto de estação espacial giratória com o objetivo de gerar gravidade artificial. A iniciativa, atribuída à estatal Energia, busca enfrentar um dos principais desafios das missões espaciais de longa duração: a perda de massa muscular e óssea causada pela exposição prolongada à gravidade zero.
O anúncio chama atenção por ocorrer em um momento de transição na exploração orbital. A Estação Espacial Internacional (ISS) se aproxima do fim de sua vida útil, com desorbitação planejada para 2030, e a participação russa no projeto está prevista para terminar em 2028. Nesse contexto, Moscou avalia alternativas para manter presença autônoma no espaço e desenvolver novas soluções de engenharia orbital.
Projeto aposta em rotação para simular gravidade
O conceito patenteado descreve um grande complexo espacial giratório, capaz de criar uma força semelhante à gravidade por meio da rotação contínua da estrutura. O princípio físico é o da força centrífuga: ao girar, a estação empurra os ocupantes em direção ao piso, produzindo a sensação de peso e impondo carga mecânica ao corpo humano.
A meta apresentada no projeto é alcançar 0,5 g, equivalente a 50% da gravidade terrestre. Esse nível é considerado suficiente para reduzir significativamente os efeitos deletérios da microgravidade sobre músculos, ossos e o sistema cardiovascular, sem exigir uma estrutura tão extensa quanto a necessária para simular 1 g completo.
Impactos da gravidade zero no corpo humano
Estudos acumulados ao longo de décadas mostram que a ausência de gravidade afeta profundamente o organismo. Astronautas em missões de meses na ISS sofrem redução da densidade óssea, atrofia muscular e alterações no equilíbrio e na circulação sanguínea. Para mitigar esses efeitos, as tripulações seguem rotinas rigorosas de exercícios físicos diários, que podem chegar a duas horas por dia.
Apesar desses esforços, a recuperação completa após o retorno à Terra pode levar meses. Por isso, a criação de ambientes com gravidade artificial é vista por cientistas como uma solução potencial para missões mais longas, como viagens a Marte ou permanências prolongadas em órbita.
Como funcionaria a estação giratória
Segundo a patente, a estação teria módulos habitáveis posicionados radialmente, semelhantes aos raios de uma roda, conectados a uma coluna central. Para atingir 0,5 g, os espaços de vida precisariam estar a aproximadamente 40 metros do eixo de rotação, com a estrutura girando a cerca de cinco revoluções por minuto.
O desenho prevê a coexistência de partes fixas e partes móveis, ligadas por juntas herméticas e flexíveis, permitindo a passagem segura entre áreas giratórias e não giratórias. Esse arranjo facilitaria operações como manutenção, controle de sistemas e acoplamento de módulos adicionais.
Desafios técnicos e operacionais
Apesar do potencial, a construção de uma estação desse porte envolve obstáculos significativos. O tamanho da estrutura exigiria múltiplos lançamentos e uma montagem complexa em órbita. Além disso, o acoplamento de naves de transporte a uma estação em rotação contínua é considerado um dos maiores desafios de segurança, pois qualquer erro de sincronização pode resultar em colisões graves.
Especialistas também apontam questões relacionadas à adaptação humana à rotação, como possíveis efeitos de enjoo espacial e desorientação, especialmente em rotações mais rápidas. Esses fatores exigiriam testes extensivos antes de uma aplicação em larga escala.
Contexto pós-ISS e planos russos
O registro da patente ocorre enquanto a agência espacial russa Roscosmos trabalha no desenvolvimento da Estação Espacial Orbital Russa, um projeto que visa substituir a participação do país na ISS. Há também discussões sobre a possibilidade de destacar e reutilizar módulos russos mais novos da estação atual, como o laboratório Nauka e o nó Prichal, antes da desorbitação final prevista para 2030.
Essa estratégia permitiria preservar parte do investimento tecnológico russo e acelerar a implantação de uma infraestrutura orbital própria, ainda que em escala menor do que a ISS.
Interesse global em gravidade artificial
Embora o projeto seja russo, a ideia de estações com gravidade artificial não é nova nem exclusiva. Conceitos semelhantes já foram estudados por engenheiros e agências espaciais desde o século XX, e o tema voltou a ganhar força com a perspectiva de missões interplanetárias.
A patente da Energia, no entanto, indica que a Rússia pretende manter o tema ativo em seu planejamento estratégico, mesmo sem prazos ou recursos oficialmente definidos para a construção da estação.
Perspectivas futuras
A proposta de uma estação giratória com gravidade artificial reforça a busca por soluções mais sustentáveis para a presença humana no espaço. Com o fim do ciclo da ISS se aproximando e a saída russa prevista para 2028, projetos desse tipo tendem a ganhar maior atenção, seja como parte da ROSS ou como iniciativas independentes.
Ainda que o caminho entre patente e operação seja longo, o conceito aponta para um futuro em que a engenharia orbital pode reduzir significativamente os limites impostos pela microgravidade, ampliando as possibilidades de exploração espacial de longa duração.