O superávit da balança comercial brasileira deve alcançar US$ 67 bilhões em 2026, segundo a mediana de 46 projeções reunidas em levantamento do Valor Econômico com consultorias, entidades e instituições financeiras. O resultado esperado é ligeiramente superior aos US$ 63,6 bilhões projetados para 2025 e reforça a perspectiva de manutenção de um saldo externo robusto, embora com crescimento limitado, em um cenário de preços de commodities mais comportados e importações ainda elevadas.
Após o recorde histórico de US$ 98,9 bilhões em 2023, o comércio exterior brasileiro entrou em uma fase de acomodação. Em 2024, o superávit já havia recuado para US$ 74,2 bilhões, e a tendência apontada pelos economistas é de normalização gradual dos fluxos comerciais, sem perda total do fôlego externo. O resultado oficial de 2025 será divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em 6 de janeiro, dado que deve calibrar as expectativas para o próximo ano.
Commodities seguem determinantes, mas preços preocupam
A pauta exportadora brasileira permanece fortemente concentrada em commodities. Petróleo, soja e minério de ferro respondem atualmente por cerca de 34% da receita total das exportações, o que torna o país sensível às oscilações de preços no mercado internacional.
Entre as projeções mais otimistas está a da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), que estima superávit de US$ 77,4 bilhões em 2026, acima dos US$ 63,8 bilhões esperados para 2025. Para o presidente da entidade, José Augusto de Castro, o saldo não deve crescer por uma explosão de preços, mas por volumes exportados com cotações relativamente estáveis.
Segundo ele, há expectativa de aumento do volume exportado de petróleo, em razão do avanço da produção, mas sem sinais claros de um novo ciclo de alta nos preços. A soja, por sua vez, deve seguir relevante, porém abaixo do recorde projetado para 2025, com preços que tendem a “andar de lado”.
Essa leitura é reforçada pelo cenário internacional. A Organização Mundial do Comércio (OMC) revisou em outubro a projeção de crescimento do comércio global em 2025 para 2,4%, mas estima forte desaceleração em 2026, para apenas 0,5%, reduzindo o impulso externo para países exportadores.
China impulsionou soja em 2025, mas efeito pode perder força
O economista André Valério, do Inter, destaca que as exportações brasileiras de soja no fim de 2025 foram infladas por compras atípicas da China, em meio à guerra comercial com os Estados Unidos. Segundo ele, esse movimento ajudou o Brasil a ganhar espaço no mercado chinês, mas dificilmente será repetido na mesma intensidade em 2026.
A avaliação é que Pequim vem se comprometendo a retomar parte das compras de soja dos Estados Unidos, o que tende a reduzir a fatia brasileira. Além disso, não há sinais de uma retomada robusta da demanda chinesa capaz de sustentar um ciclo consistente de alta de commodities.
Preços “mistos” e negociações com os EUA no radar
Para a economista-chefe do PicPay, Ariane Benedito, o cenário de 2026 deve ser marcado por preços mistos, em que o desempenho do comércio exterior será determinado sobretudo pelos volumes. Ela avalia que, embora não haja fatores alarmantes imediatos, o avanço de negociações comerciais com os Estados Unidos pode melhorar o resultado brasileiro.
As exportações ao mercado americano foram fortemente afetadas em 2025 pela política tarifária do governo Donald Trump. Um eventual alívio ou revisão dessas medidas poderia trazer ganhos adicionais não apenas em 2026, mas também nos anos seguintes.
Novos riscos: tarifas do México e protecionismo
Um fator adicional de risco para o próximo ano é a decisão do México de elevar tarifas de importação para produtos brasileiros e de outros países sem acordo de livre comércio. As novas alíquotas, em vigor desde 1º de janeiro de 2026, atingem setores como automóveis, autopeças, siderurgia, têxteis, calçados, eletrodomésticos e móveis.
Analistas avaliam que o impacto pode ser mais relevante sobre a exportação de aço, adicionando incerteza ao saldo comercial brasileiro, especialmente se medidas semelhantes forem adotadas por outros parceiros.
UE-Mercosul pode ajudar, mas efeito será gradual
Entre os vetores positivos, economistas citam o acordo comercial União Europeia–Mercosul, cuja expectativa é de assinatura no início de 2026. Apesar do potencial de ampliar mercados, o impacto sobre a balança comercial tende a ser gradual, sem efeito expressivo imediato no primeiro ano de vigência.
Importações seguem altas, mas com possível desaceleração
Do lado das importações, a avaliação é de que o crescimento observado nos últimos três anos pode perder força. A AEB projeta queda de 2,7% das importações em 2026 frente a 2025, após um período de expansão impulsionado tanto por preços quanto por volumes.
Ainda assim, parte relevante das compras externas é considerada produtiva, ligada a insumos, bens intermediários e equipamentos. Caso haja queda de juros ao longo de 2026, a entrada de investimento direto pode sustentar um nível elevado de importações.
Saldo seguirá forte, mas sem grandes saltos
As estimativas para o superávit de 2026 variam amplamente, de US$ 43,5 bilhões a US$ 85 bilhões, refletindo incertezas sobre preços de commodities, demanda global e barreiras comerciais. A mediana, porém, aponta para um saldo alto e estável, que deve continuar funcionando como amortecedor para a economia brasileira em um ambiente internacional mais desafiador.
Em síntese, o Brasil deve manter um superávit comercial relevante em 2026, mas com crescimento contido, fortemente dependente do comportamento das commodities, da trajetória da economia chinesa e do avanço — ou recuo — do protecionismo nos principais mercados globais.


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