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Venezuela e a disputa entre EUA e China: o papel crescente de Beijing na América Latina

O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, realizado na madrugada deste sábado (3), ocorre em meio a uma escalada das tensões geopolíticas na América Latina e no Caribe. por Iara Vidal O episódio expõe de forma direta o choque entre projetos estratégicos em disputa na região, com a China assumindo um papel cada vez […]

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O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, realizado na madrugada deste sábado (3), ocorre em meio a uma escalada das tensões geopolíticas na América Latina e no Caribe.

por Iara Vidal


O episódio expõe de forma direta o choque entre projetos estratégicos em disputa na região, com a China assumindo um papel cada vez mais central ao lado dos Estados Unidos, em um contexto de transição da ordem internacional.

Para analisar esse cenário, a CGTN em Português conversou com exclusividade com dois analistas especializados em geopolítica latino-americana.

Hugo Albuquerque

Hugo Albuquerque é jurista e analista político, editor e publisher da Jacobin Brasil e fundador da Editora Autonomia Literária, com atuação voltada à análise crítica da política internacional, do imperialismo e das disputas de poder entre grandes potências.

Amauri Chamorro

Amauri Chamorro é estrategista e consultor em comunicação política, com experiência junto a partidos, movimentos e governos na América Latina e no Caribe. Atua como analista internacional, com foco em integração regional, relações entre potências globais e dinâmicas geopolíticas a partir de uma perspectiva latino-americana.

Ruptura de regras e reação ao mundo multipolar

Para Hugo Albuquerque, a escalada envolvendo a Venezuela representa uma ruptura profunda nas regras que tradicionalmente organizam as relações internacionais. Segundo ele, “o sequestro de um chefe de Estado no exercício de suas funções é algo marcante, porque rompe com uma perspectiva civilizada e regrada das relações internacionais”.

Na avaliação do jurista, o episódio explicita uma mudança qualitativa na postura dos Estados Unidos. “É a aceitação, pela principal potência militar do planeta, de que as regras não importam”, afirma.

Albuquerque observa que, ao longo do século XX, Washington recorreu a normas e instituições para conferir aparência de legalidade a ações ilegais, mas que, no cenário atual, “não há nem essa preocupação com esse verniz”.

Ele ressalta que a crise ocorre em um momento sensível para a ordem internacional. “A multipolaridade já está em risco, porque ela emerge justamente em contraposição ao mundo unipolar, que ainda tenta se manter”, diz, apontando a China como ator central desse processo. “A China acaba sendo a principal força dessa multipolaridade.”

Embora o conflito venezuelano não envolva Beijing de forma direta, Albuquerque avalia que o impacto é inevitável. “Ainda que esse conflito não envolva diretamente a China, é óbvio que ele tem um peso indireto, porque representa uma reação do mundo unipolar à possibilidade de um mundo multipolar.”

Para o analista, o cenário tende a se consolidar como “um conflito indireto, mas cada vez mais objetivo, entre China e Estados Unidos”.

Ao analisar o contraste entre as estratégias das duas potências, Albuquerque observa que Washington busca reforçar o controle sobre a América Latina em um momento de perda de influência global.

“Os Estados Unidos têm procurado manter influência na América Latina porque perderam boa parte do planeta”, afirma, destacando também dificuldades políticas e ideológicas para sustentar intervenções militares de grande escala.

“Um mundo multipolar demanda uma América Latina livre”, conclui.

Desenvolvimento, cooperação e autonomia regional

Amauri Chamorro avalia que a postura adotada por Beijing diante da crise na Venezuela envia uma mensagem clara à região. Para ele, “historicamente, a China sempre esteve no centro do mundo, com exceção de um curto período em que Europa e Estados Unidos ocuparam esse espaço por meio de invasões, saques e exploração de outros continentes”.

Segundo Chamorro, o retorno da China à centralidade global ocorreu por um caminho distinto. “A China voltou a ocupar um lugar central em apenas 40 anos sem disparar um único míssil, sem invadir países ou impor sua vontade pela força”, afirma.

Ele destaca que a estratégia chinesa se baseia “no respeito à autodeterminação dos povos, em relações comerciais mais justas e na construção de um mundo mais integrado”.

Na avaliação do analista, essa abordagem ajuda a explicar a crescente aproximação entre a China e países da América Latina e do Caribe. “O que Estados Unidos e Europa temem é justamente essa capacidade da China de atrair parceiros estendendo a mão, caminhando junto para o desenvolvimento”, diz.

Chamorro afirma ainda que, diante do atual cenário de tensão, o principal desafio para a região é preservar espaço para decisões soberanas.

“Esperamos que esse tipo de ação não leve a China a recuar em sua relação com a América Latina e o Caribe”, conclui, ressaltando que o momento coloca em jogo a autonomia regional diante de abordagens opostas das grandes potências.

O ataque e seus desdobramentos imediatos

A ofensiva foi anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump, que afirmou que forças dos Estados Unidos sequestraram o presidente venezuelano Nicolás Maduro e o retiraram do país. Explosões foram registradas em Caracas e em outros estados venezuelanos, provocando pânico entre a população civil e interrupções no fornecimento de energia.

Após o ataque, o governo dos Estados Unidos passou a detalhar as medidas adotadas em relação a Maduro. A procuradora-geral dos EUA, Pamela Bondi, declarou que o presidente venezuelano “enfrentará todo o peso da justiça americana”, afirmando que os processos ocorreriam em tribunais norte-americanos.

Segundo a narrativa oficial de Washington, Maduro e sua esposa teriam sido levados aos Estados Unidos para responder a acusações criminais. O governo norte-americano, no entanto, não divulgou detalhes processuais completos nem esclareceu o status jurídico imediato do presidente venezuelano.

Imagens e vídeos divulgados por canais oficiais dos Estados Unidos passaram a circular amplamente na imprensa internacional, mostrando Maduro sob escolta de agentes federais, vestindo roupas escuras e com o rosto parcialmente coberto.

A divulgação foi interpretada por analistas como um gesto político deliberado, com forte carga simbólica, voltado tanto ao público doméstico quanto à arena internacional.

Reações internacionais e posição da China

A China reagiu de forma imediata ao ataque. Em comunicado oficial, Beijing condenou duramente a ação, afirmando que o uso da força contra um país soberano viola o direito internacional, fere a soberania da Venezuela e ameaça a paz e a estabilidade da América Latina e do Caribe. O governo chinês também pediu que Washington respeite os princípios e propósitos da Carta das Nações Unidas.

Além da China, o ataque provocou reações críticas de governos e organismos internacionais, que manifestaram preocupação com a escalada militar e com o precedente aberto pela captura de um chefe de Estado em exercício. Autoridades de países da região defenderam a preservação da soberania venezuelana e o recurso a mecanismos diplomáticos e multilaterais para a resolução da crise.

A sequência dos acontecimentos — da atuação diplomática chinesa à condenação formal após o ataque — evidenciou o contraste entre a estratégia de diálogo e cooperação defendida por Beijing e a resposta militar adotada pelos Estados Unidos, aprofundando o debate internacional sobre soberania, legalidade e a disputa geopolítica em curso na região.

Duas visões em disputa para a América Latina

Os acontecimentos na Venezuela se inserem em um contexto mais amplo de disputa estratégica entre China e Estados Unidos pela América Latina e o Caribe.

Em dezembro, Beijing lançou a terceira versão de sua política para a região, na qual descreve a América Latina como parceira estratégica, parte central do Sul Global e ator relevante na construção de uma ordem internacional multipolar, baseada em cooperação, soberania e desenvolvimento conjunto.

Semanas antes, o governo Donald Trump divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional, que trata a América Latina e o Caribe como parte da esfera de influência dos Estados Unidos. O documento retoma a lógica da Doutrina Monroe ao afirmar que potências externas não devem ampliar sua presença na região e ao associar a atuação de China e Rússia a riscos à segurança hemisférica.

A leitura conjunta desses documentos revela projetos estratégicos incompatíveis: de um lado, uma proposta de multipolaridade e autonomia regional; de outro, a reafirmação de uma ordem centrada no controle hemisférico e na contenção de rivais estratégicos.

* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).

Fonte: CMG

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