Bloco defende saída política conduzida pelos venezuelanos e reafirma a América Latina como zona permanente de paz
A história da América Latina guarda cicatrizes profundas de intervenções estrangeiras que desestabilizaram nações e interromperam processos democráticos. Recentemente, o cenário regional enfrentou um novo e alarmante capítulo após a ação militar unilateral dos Estados Unidos na Venezuela. Diante desse ataque, um grupo de seis países, liderado pelo Brasil, levantou a voz para defender princípios fundamentais de convivência internacional.
Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha publicaram uma nota conjunta neste domingo. O documento expressa uma rejeição absoluta às bombas lançadas por Washington e à captura de figuras do governo venezuelano. Além disso, as nações alertam que tais medidas violam a Carta das Nações Unidas de forma direta e perigosa.
O desrespeito ao direito internacional e à paz regional
As ações ordenadas por Donald Trump ignoram a proibição do uso da força contra Estados soberanos. Consequentemente, o ataque militar não atinge apenas a Venezuela, mas abala toda a estrutura de segurança do continente. Para os países signatários, essa postura cria um precedente sumamente perigoso, pois valida a agressão como ferramenta política.
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A nota destaca que a integridade territorial é um pilar inegociável da diplomacia moderna. Portanto, qualquer incursão armada sem o aval da comunidade internacional representa uma afronta direta à ordem global. Ademais, o documento enfatiza que a violência coloca a população civil em um estado de vulnerabilidade inaceitável, sacrificando vidas em nome de interesses geopolíticos.
O interesse econômico por trás da retórica democrática
Um dos pontos mais sensíveis da crise envolve a gestão dos recursos naturais da Venezuela. Após a captura de Nicolás Maduro, o governo americano declarou abertamente seu interesse nas vastas reservas de petróleo do país. Dessa forma, a motivação da intervenção ganha contornos de exploração econômica clássica.
Os governos de Brasil, México e seus aliados manifestaram profunda preocupação com qualquer tentativa de controle ou apropriação externa de recursos estratégicos. Segundo o grupo, tal prática é incompatível com o direito internacional. Além disso, a administração forçada de bens de uma nação estrangeira gera instabilidade econômica e social, aprofundando a crise em vez de resolvê-la.
A defesa de uma zona de paz na América Latina
Historicamente, a América Latina e o Caribe buscam se consolidar como uma zona de paz. Esse conceito baseia-se no respeito mútuo, na não intervenção e na solução pacífica de controvérsias. Nesse sentido, os seis países reafirmam que a estabilidade regional depende da manutenção desses valores sagrados.
O apelo das nações foca na unidade regional, independentemente das divergências ideológicas entre os governos atuais. Afinal, a proteção contra agressões externas deve unir o continente de forma pragmática. A nota sustenta que a paz não é apenas a ausência de guerra, mas a garantia de que as nações podem decidir seu próprio destino sem ameaças de potências estrangeiras.
O diálogo como única saída legítima para a crise
Para os países signatários, a solução para os dilemas venezuelanos deve surgir exclusivamente por vias pacíficas. O texto defende que apenas um processo político inclusivo, liderado pelo próprio povo venezuelano, pode gerar uma saída democrática e sustentável. Ingerências externas, nesse contexto, apenas dificultam o caminho para o entendimento.
Por fim, o documento reitera a necessidade de diálogo e negociação respeitosa. Somente o respeito à vontade popular, em todas as suas expressões, preserva a dignidade humana no longo prazo. O Brasil e seus vizinhos deixam claro: a soberania não é um privilégio, mas um direito que a comunidade internacional deve proteger contra qualquer forma de imperialismo.
Posição de Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha diante dos fatos ocorridos na Venezuela — 4 de janeiro de 2026
Os Governos do Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha, diante da gravidade dos fatos ocorridos na Venezuela e reafirmando seu apego aos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, expressam de forma conjunta as seguintes posições:
1. Expressamos nossa profunda preocupação e rechaço diante das ações militares executadas unilateralmente no território da Venezuela, as quais contrariam princípios fundamentais do direito internacional, em particular a proibição do uso e da ameaça do uso da força, o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados, consagrados na Carta das Nações Unidas. Tais ações constituem um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regionais e para a ordem internacional baseada em normas, além de colocarem em risco a população civil.
2. Reiteramos que a situação na Venezuela deve ser resolvida exclusivamente por meios pacíficos, por meio do diálogo, da negociação e do respeito à vontade do povo venezuelano em todas as suas expressões, sem ingerências externas e em conformidade com o direito internacional. Reafirmamos que apenas um processo político inclusivo, liderado pelas venezuelanas e pelos venezuelanos, pode conduzir a uma solução democrática, sustentável e respeitosa da dignidade humana.
3. Reafirmamos o caráter da América Latina e do Caribe como zona de paz, construída sobre o respeito mútuo, a solução pacífica das controvérsias e a não intervenção, e fazemos um apelo à unidade regional, para além das diferenças políticas, diante de qualquer ação que coloque em risco a estabilidade regional. Da mesma forma, exortamos as Nações Unidas e os mecanismos multilaterais pertinentes a fazer uso de seus bons ofícios para contribuir para a desescalada das tensões e para a preservação da paz regional.
4. Manifestamos nossa preocupação diante de qualquer tentativa de controle governamental, de administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos, o que se mostra incompatível com o direito internacional e ameaça a estabilidade política, econômica e social da região.