por Iara Vidal*
A inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma ferramenta tecnológica e passou a se consolidar como infraestrutura estratégica, ao lado de setores como energia, satélites, cabos submarinos e semicondutores. Um novo estudo internacional indica que os grandes modelos de linguagem (LLMs), usados em chatbots e assistentes virtuais, não respondem de forma neutra a temas políticos sensíveis.
Quando o debate envolve China e Estados Unidos, as respostas desses sistemas tendem a refletir enquadramentos políticos, disputas de poder e visões associadas à rivalidade entre as duas potências.
A CGTN em Português conversou com exclusividade com um dos autores da pesquisa, William Guey, pesquisador sino-brasileiro. Em março deste ano, ele publicou uma versão preliminar do trabalho na arXiv, plataforma internacional de acesso aberto mantida pela Universidade Cornell, nos Estados Unidos.

O artigo, coassinado por Pierrick Bougault, Vitor D. de Moura, Wei Zhang e José O. Gomes, foi aceito e posteriormente premiado com o Best Paper Award na International Conference on Human Factors Engineering and Interaction with AI Systems 2025.
O evento, realizado em Beijing entre 30 de outubro e 1º de novembro, é dedicado ao estudo da interação entre humanos e sistemas de IA. Foi organizado pela University Tsinghua, pelo National Key Laboratory of Human Factors Engineering e pela Chinese Ergonomics Society, reunindo pesquisadores de referência em engenharia, ergonomia, ciência cognitiva e inteligência artificial.
O que os pesquisadores analisaram
Intitulado Mapping Geopolitical Bias in 11 Large Language Models, o estudo examinou o comportamento de 11 grandes modelos de linguagem amplamente utilizados. “Concluímos que muitos deles reproduzem preferências ideológicas alinhadas ao país onde foram desenvolvidos, mesmo diante de perguntas semelhantes”, afirma Guey.
A pesquisa foi conduzida por acadêmicos ligados à Universidade Tsinghua, na China, e à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para testar os modelos, os cientistas elaboraram 19.712 perguntas sobre temas centrais das tensões entre China e Estados Unidos, envolvendo política externa, direitos humanos, segurança, economia e disputas internacionais.
As perguntas foram aplicadas em dois idiomas — inglês e chinês — e em dois formatos distintos: um enquadramento favorável a um dos lados e outro com a mesma questão apresentada de forma inversa. Essa metodologia permitiu observar se os modelos mantêm coerência ou alteram suas respostas conforme o idioma e a formulação do enunciado.
No total, o estudo avaliou como os sistemas de IA respondem a sete temas centrais da rivalidade sino-americana:
- o apoio militar dos EUA a Taiwan;
- a política de tarifas e restrições comerciais;
- as disputas territoriais no Mar do Sul da China;
- as políticas chinesas em Xinjiang e as sanções por direitos humanos;
- a Iniciativa Cinturão e Rota;
- as restrições tecnológicas e de semicondutores;
- e a disputa em torno do dólar, do BRICS e da desdolarização.
Em todos os casos, as perguntas foram formuladas em versões opostas, justamente para medir o impacto de diferentes enquadramentos políticos sobre as respostas dos modelos.
Como a IA “toma partido”
O estudo mostra que os grandes modelos de IA não são politicamente neutros. Modelos desenvolvidos nos Estados Unidos tendem a adotar posições favoráveis à perspectiva norte-americana, enquanto modelos chineses, em geral, refletem a posição da China. Em temas como Taiwan, Xinjiang e a Iniciativa Cinturão e Rota, essa diferença apareceu de forma consistente.
Outro ponto relevante é que a forma da pergunta importa tanto quanto o conteúdo. Em diversos casos, a simples inversão do enunciado foi suficiente para levar o mesmo modelo a alterar sua resposta, às vezes de maneira significativa. Esse comportamento foi mais frequente em modelos chineses, mas também apareceu em modelos ocidentais.
Na prática, o estudo indica que os modelos de IA refletem disputas geopolíticas reais, incorporando contextos políticos, institucionais e regulatórios dos países onde foram desenvolvidos.
“Uma mesma ferramenta, várias posições políticas?”
“O estudo mostra que os modelos de IA respondem de forma diferente conforme o idioma e o enquadramento da pergunta”, diz Guey. “Na prática, isso significa que a mesma ferramenta pode ‘mudar de posição política’ dependendo de como e em que língua é acionada.”
Segundo o pesquisador, “modelos chineses demonstraram reversões de posição ao lidar com perguntas em sua língua nativa ou em formatos inversos”, o que evidencia que um mesmo sistema pode projetar narrativas distintas conforme a interação do usuário.
Poder simbólico no sistema internacional
Ao comentar o impacto desses sistemas, Guey afirma: “Quando grandes modelos de linguagem passam a funcionar como referências cotidianas, eles moldam o discurso público e as percepções internacionais sobre disputas globais”.
E conclui: “Como frequentemente refletem os vieses de seus países de origem, esses modelos podem atuar como instrumentos de influência, reforçando determinadas narrativas políticas e impactando a cooperação e o diálogo internacional”.
A posição de Beijing sobre os temas do estudo
1) Apoio militar dos EUA a Taiwan
Para o governo chinês, Taiwan é parte inalienável do território da China. Beijing avalia que o principal fator de instabilidade no Estreito de Taiwan é a combinação entre forças separatistas em Taiwan e apoio externo. A China se opõe firmemente à venda de armas, à assistência militar e a interações oficiais dos EUA com Taiwan, por considerar essas ações violações do princípio de Uma Só China e dos três comunicados conjuntos China–EUA.
2) Tarifas e restrições comerciais
A posição oficial é que tarifas e restrições impostas pelos EUA são práticas equivocadas que prejudicam o comércio global e o sistema multilateral da Organização Mundial do Comércio (OMC). A China afirma não buscar uma guerra comercial, mas defende a resolução de divergências por meio do diálogo e das regras multilaterais.
3) Disputas no Mar do Sul da China
Beijing sustenta ter soberania e direitos históricos sobre ilhas e áreas adjacentes no Mar do Sul da China. Ao mesmo tempo, defende que disputas sejam resolvidas por negociação direta entre os países diretamente envolvidos e se opõe à militarização e à interferência externa na região.
4) Xinjiang e sanções por direitos humanos
Segundo o governo chinês, as políticas em Xinjiang têm como foco o combate ao terrorismo e ao extremismo, a manutenção da estabilidade social e a promoção do desenvolvimento econômico. A China rejeita acusações externas como politização do tema e destaca direitos à subsistência, ao desenvolvimento, ao emprego e à proteção cultural e religiosa conforme a lei.
5) Iniciativa Cinturão e Rota (BRI)
A Iniciativa Cinturão e Rota é apresentada como uma plataforma de cooperação internacional e um bem público global, voltada à conectividade, ao investimento e ao desenvolvimento compartilhado. Nos últimos anos, Beijing tem enfatizado a qualidade dos projetos, a sustentabilidade e benefícios mútuos.
6) Restrições tecnológicas e de semicondutores
Na avaliação chinesa, os EUA politizam e securitizam questões econômicas e tecnológicas, ampliando excessivamente o conceito de segurança nacional. Beijing afirma que controles de exportação prejudicam a cadeia global de semicondutores e a inovação internacional.
7) Dólar, BRICS e desdolarização
Beijing não fala em “derrubar o dólar”, mas enquadra o tema como parte da reforma da governança econômica global. A posição chinesa defende um sistema financeiro internacional mais justo e representativo, com maior participação dos países em desenvolvimento e uso diversificado de instrumentos, como moedas locais e mecanismos financeiros regionais.
* Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).


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