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O erro de Washington ao achar que a prisão mudaria a Venezuela

Com Delcy Rodríguez na presidência interina, o núcleo do poder fecha fileiras e transforma a captura em mais um capítulo da disputa por soberania A prisão de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, classificada pelo presidente Donald Trump como um ato “poderoso”, lançou a Venezuela em um labirinto de incertezas que ultrapassa a simples […]

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Venezuela expõe limites da força dos EUA na mudança de regimes
O caso venezuelano expõe o fracasso histórico de intervenções externas que ignoram a complexidade interna dos Estados latino-americanos / Reuters

Com Delcy Rodríguez na presidência interina, o núcleo do poder fecha fileiras e transforma a captura em mais um capítulo da disputa por soberania


A prisão de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, classificada pelo presidente Donald Trump como um ato “poderoso”, lançou a Venezuela em um labirinto de incertezas que ultrapassa a simples queda de um governante. Embora o rosto mais visível do Executivo tenha sido retirado de cena e levado a Nova York, a engrenagem que sustenta o Estado venezuelano demonstra uma resiliência que Washington parece ter subestimado. O cenário atual revela que a estrutura de poder em Caracas é muito mais profunda, ramificada e institucional do que a figura de um único homem.

No centro da resistência institucional, o Supremo Tribunal do país agiu rapidamente para garantir a continuidade administrativa, ordenando que a vice-presidente Delcy Rodríguez assumisse a presidência interina, conforme o rito constitucional. Enquanto Trump menciona diálogos entre o secretário de Estado, Marco Rubio, e Rodríguez, sugerindo uma transição coordenada, a realidade nas ruas e nos palácios de Caracas aponta para um embate de soberania nacional contra o que o governo local classifica como um “sequestro” e uma intervenção imperialista.

Leia também: A captura de Maduro não derruba o poder de seus principais aliados

A união do círculo íntimo e a resistência em Caracas

Qualquer expectativa de Washington por uma rendição imediata ou um colapso em efeito dominó foi freada pela imagem de unidade transmitida pela televisão estatal. Delcy Rodríguez não apareceu isolada; ela surgiu ladeada pelas figuras mais influentes do país: seu irmão, Jorge Rodríguez (presidente da Assembleia Nacional); o ministro do Interior, Diosdado Cabello; e o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López.

A mensagem foi direta: o grupo que gere o país há décadas permanece coeso. Ao declarar que “a Venezuela só tem um presidente: Nicolás Maduro”, Delcy reforça a narrativa de resistência contra a intervenção estrangeira. Essa demonstração de força coletiva sugere que a estrutura de poder bolivariana possui mecanismos de sobrevivência que ignoram as pressões externas, frustrando os planos de uma mudança de regime rápida e indolor para os interesses americanos.

O desprezo de Washington pela oposição tradicional

Um dos pontos mais controversos da estratégia de Donald Trump foi o fechamento de portas para a oposição interna venezuelana. Ao descartar a colaboração com Maria Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz e figura central da resistência democrática, Trump ignora o apoio popular que a oposição acumulou, inclusive nas eleições de 2024, cujos resultados foram amplamente reconhecidos por observadores internacionais como favoráveis ao campo opositor.

Ao afirmar que Machado “não tem apoio” dentro do país, o governo americano parece mais interessado em moldar um governo de transição sob sua tutela direta do que em restaurar a vontade popular venezuelana. Essa postura revela o pragmatismo cínico de uma política externa que prefere negociar diretamente com as estruturas de poder instaladas — como o suposto diálogo com Delcy Rodríguez — do que fortalecer lideranças civis independentes.

O poder real entre a inteligência e o controle militar

Para entender a sobrevivência do sistema venezuelano, é preciso olhar além da política partidária e observar a rede de inteligência e segurança. Órgãos como o SEBIN e a DGCIM formam uma estrutura de controle que monitora a dissidência de forma implacável. Relatos colhidos pelas Nações Unidas detalham que essas agências são os pilares de uma estratégia de sufocamento de oposições, utilizando táticas de terror psicológico e físico.

Nesse tabuleiro, a figura de Diosdado Cabello assume um papel central. Considerado o elemento mais ideológico do grupo, Cabello controla agências de contraespionagem e mantém ligações estreitas com os “colectivos” (grupos civis armados). Sua recente aparição em trajes de combate, ordenando a perseguição a “terroristas”, sinaliza que uma parte considerável do aparato estatal está pronta para aprofundar o conflito interno em vez de ceder à pressão internacional.

Generais e o controle da economia nacional

Outro pilar de sustentação que permanece intacto após a captura de Maduro é a cúpula militar. Com cerca de 2.000 generais e almirantes, a Venezuela possui um contingente de oficiais que atua diretamente na gestão da economia. Esses militares controlam setores estratégicos, como a petroleira estatal PDVSA e a distribuição de alimentos.

A lealdade dessa classe é cimentada por uma participação ativa na administração do Estado e, segundo investigadores, pelo controle de rotas comerciais nas fronteiras e polos industriais. Enquanto alguns oficiais de escalões inferiores podem buscar acordos de imunidade com os Estados Unidos, a alta cúpula parece não ter interesse em negociar uma saída que signifique o fim de seu papel político e econômico.

O destino da Venezuela permanece, portanto, em um impasse perigoso. Entre a intervenção externa que fere a soberania nacional e a resistência de uma estrutura interna complexa, o país enfrenta o desafio de definir seu futuro sem se tornar apenas um peão no tabuleiro geopolítico das grandes potências.

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