A ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na derrubada e captura do presidente Nicolás Maduro, provocou reações divididas entre os próprios norte-americanos. Embora uma parcela relevante da população apoie a ação, a maioria manifesta receio de que o país se envolva de forma excessiva nos assuntos da América do Sul. Os dados constam de uma pesquisa realizada pelo instituto Ipsos em parceria com a Reuters, divulgada nesta semana.
O levantamento ouviu eleitores em todo o território dos Estados Unidos entre domingo (4) e segunda-feira (5), poucos dias após a operação militar ordenada pelo presidente Donald Trump. Os resultados mostram um cenário de polarização política interna e indicam que, apesar do apoio expressivo em determinados segmentos, há preocupação generalizada quanto às consequências de longo prazo da ação.
Apoio à ofensiva varia conforme filiação partidária
De acordo com a pesquisa, cerca de um em cada três estadunidenses declarou aprovar a ofensiva militar que levou à queda de Maduro. Esse apoio, no entanto, não é homogêneo e apresenta diferenças marcantes quando analisado sob o recorte partidário.
Entre eleitores que se identificam como republicanos, o respaldo à operação é majoritário: 65% afirmaram apoiar a decisão do governo Trump. Já entre os democratas, o apoio cai drasticamente, alcançando apenas 11%. No grupo dos eleitores independentes, que tradicionalmente funciona como termômetro político nos Estados Unidos, 23% disseram aprovar a ação militar.
Os números evidenciam que a política externa norte-americana, especialmente quando envolve o uso da força, segue profundamente influenciada pela polarização partidária que marca o cenário político do país nos últimos anos.
Maioria teme envolvimento excessivo dos EUA na Venezuela
Apesar do apoio parcial à ofensiva, a principal conclusão do levantamento é o elevado nível de preocupação com um eventual aprofundamento da presença norte-americana na Venezuela. Segundo a pesquisa Ipsos/Reuters, 72% dos entrevistados afirmaram temer que os Estados Unidos se envolvam “demais” nos assuntos venezuelanos.
Esse dado sugere que, mesmo entre eleitores que não rejeitam completamente a ação militar, há cautela quanto a possíveis desdobramentos, como uma presença prolongada, custos financeiros elevados, riscos militares ou impactos diplomáticos negativos na América Latina.
Analistas apontam que o temor reflete experiências históricas recentes, como intervenções no Oriente Médio, que resultaram em longos conflitos e desgaste político interno. A lembrança desses episódios ainda influencia a percepção pública sobre ações militares no exterior.
Visão sobre hegemonia no Hemisfério Ocidental divide opiniões
A pesquisa também investigou como os norte-americanos enxergam o papel dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental. Aos entrevistados foi apresentada a afirmação: “Os Estados Unidos devem ter uma política de domínio dos assuntos no Hemisfério Ocidental”.
Entre os republicanos, 43% disseram concordar com a frase, indicando uma visão mais assertiva — ou intervencionista — da política externa. Por outro lado, 19% declararam discordar, enquanto o restante afirmou não ter certeza ou preferiu não responder.
Entre democratas e independentes, o nível de concordância foi significativamente menor, reforçando a ideia de que a noção de liderança ou domínio regional não encontra consenso amplo na sociedade norte-americana.
Operação militar e captura de Maduro
A ofensiva militar ocorreu antes do amanhecer de sábado (3), quando forças norte-americanas realizaram uma incursão em Caracas, descrita por autoridades como uma operação de alta complexidade. A ação resultou na captura de Nicolás Maduro, que foi transferido para os Estados Unidos para responder a acusações apresentadas pela Justiça norte-americana, relacionadas a suposto envolvimento com tráfico de drogas e crimes financeiros.
O governo dos Estados Unidos justificou a operação como parte de sua política de combate ao narcotráfico e de enfrentamento a organizações criminosas transnacionais. Já o governo venezuelano e aliados internacionais classificaram a ação como uma violação grave da soberania nacional e do direito internacional, o que ampliou a repercussão diplomática do episódio.
Impacto político interno para Trump
Além de medir a reação à ofensiva, a pesquisa também avaliou a popularidade do presidente Donald Trump. O levantamento indica uma leve melhora na aprovação do governo após a operação militar.
Segundo os dados, a taxa de aprovação de Trump chegou a 42%, o patamar mais alto desde outubro. Em dezembro, o índice era de 39%. Embora a alta seja modesta e esteja dentro da margem de erro, ela sugere que a ação na Venezuela pode ter tido algum impacto positivo junto à base eleitoral do presidente, especialmente entre republicanos.
Especialistas ressaltam, no entanto, que ainda é cedo para afirmar se esse efeito será duradouro ou se tende a se dissipar à medida que os custos políticos e estratégicos da operação se tornem mais claros.
Metodologia da pesquisa
A pesquisa Ipsos/Reuters ouviu 1.248 adultos em todo o território dos Estados Unidos. O levantamento foi realizado de forma online e apresenta margem de erro estimada em aproximadamente três pontos percentuais para mais ou para menos.
Os resultados oferecem um retrato inicial do humor da opinião pública norte-americana diante da ofensiva militar na Venezuela, indicando apoio relevante em setores específicos, mas também um temor majoritário quanto a um envolvimento prolongado dos Estados Unidos na região.


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