Corte de subsídios nos EUA derruba o mercado interno, enquanto montadoras recuam e retomam motores híbridos e a combustão
A transição energética global, que antes avançava em velocidade máxima, acaba de encontrar um obstáculo significativo no caminho. Pela primeira vez desde o choque econômico da pandemia em 2020, o mercado de veículos elétricos (VEs) deve registrar o crescimento anual mais lento de sua história recente. Esse cenário reflete uma combinação amarga de mudanças políticas bruscas, infraestrutura insuficiente e uma economia global que ainda tenta proteger os lucros das velhas petroleiras e fabricantes tradicionais.
De acordo com dados da consultoria Benchmark Mineral Intelligence, o aumento nas vendas de VEs deve ficar em apenas 13% em 2026. Para fins de comparação, o setor celebrava um salto de 22% no ano anterior. Essa desaceleração não é apenas um número estatístico, mas um sintoma de como decisões governamentais — especialmente em Washington — podem sabotar esforços coletivos contra a crise climática.
O impacto das políticas de Trump e o retrocesso ambiental nos EUA
O mercado norte-americano aparece como o ponto mais crítico dessa retração global. A decisão do governo Trump de eliminar incentivos fiscais para carros elétricos funciona como um ataque direto à acessibilidade tecnológica para a classe trabalhadora. Sem o apoio do Estado, o veículo elétrico volta a ser um item de luxo, enquanto o motor a combustão ganha fôlego artificial.
As projeções indicam que as vendas nos Estados Unidos devem despencar 29% este ano. Após um recorde de 1,5 milhão de unidades em 2025, o mercado deve absorver apenas 1,1 milhão em 2026. Essa queda demonstra como a ausência de políticas públicas progressistas favorece o status quo das indústrias poluentes. Mark Wakefield, da AlixPartners, confirma que o setor enfrenta desafios severos, exacerbados por um ambiente regulatório que parou de incentivar a inovação sustentável.
A resistência da China e a ascensão dos modelos populares
Enquanto o Ocidente titubeia, a China continua liderando a mobilidade elétrica, embora em um ritmo menos frenético. O gigante asiático deve comercializar 15,5 milhões de unidades em 2026, mantendo o posto de maior mercado do planeta. Entretanto, esse crescimento é moderado se comparado à explosão dos últimos cinco anos, quando as vendas saltaram de 1,1 milhão para mais de 13 milhões.
Diferente das montadoras americanas, que focaram em modelos caros, fabricantes chinesas como a BYD investiram em carros populares. Recentemente, a BYD superou a Tesla como a maior fabricante de elétricos do mundo. Esse sucesso se deve à estratégia de democratizar o acesso, ocupando espaços na Europa e em mercados emergentes onde o preço é o fator decisivo para o consumidor.
A volta dos híbridos e a crise de infraestrutura de recarga
Um dos grandes vilões da eletrificação total é a falta de investimentos públicos em infraestrutura de carregamento. Como os pontos de recarga continuam escassos em muitas cidades, o consumidor médio sente insegurança ao abandonar o tanque de combustível. Por conta disso, os modelos híbridos e híbridos plug-in ganharam uma sobrevida inesperada, servindo como uma solução intermediária para um sistema que ainda não se adaptou totalmente.
O CEO da Ford, Jim Farley, admitiu que a participação de mercado dos carros totalmente elétricos nos EUA pode cair pela metade no curto prazo. Como resposta a essa turbulência, a Ford realizou uma baixa contábil bilionária e cancelou modelos emblemáticos, como a picape elétrica F-150. A empresa agora redireciona seus esforços para motores híbridos e a combustão, que garantem lucros imediatos para os acionistas em detrimento de uma agenda ambiental mais agressiva.
O futuro da mobilidade entre a necessidade e o lucro
Apesar do cenário pessimista para 2026, vozes dentro da indústria ainda defendem que o caminho da descarbonização é irreversível. Markus Haupt, da Seat-Cupra (Grupo Volkswagen), mantém o otimismo ao afirmar que o futuro precisa ser elétrico. Ele defende que a flexibilidade nas linhas de produção é necessária apenas para sobreviver a essa transição conturbada.
Portanto, o desafio atual não é técnico, mas político e econômico. A desaceleração de 2026 serve como um alerta: sem subsídios que favoreçam a população e sem um compromisso real com a infraestrutura pública, a transição para uma economia verde continuará sendo sabotada por interesses de curto prazo e por líderes que ignoram a urgência climática.


Ronei
05/01/2026 - 13h29
Porque nao prestam.