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Invasão dos EUA a Venezuela pressiona governo Lula e Petrobras a explorar Margem Equatorial

A sinalização do governo dos Estados Unidos de que pretende impulsionar a produção de petróleo na Venezuela, caso se confirmem os planos anunciados pelo presidente Donald Trump, tende a provocar mudanças relevantes no cenário energético da América do Sul e gerar impactos diretos para o Brasil e para a Petrobras. A avaliação é de especialistas […]

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A sinalização do governo dos Estados Unidos de que pretende impulsionar a produção de petróleo na Venezuela, caso se confirmem os planos anunciados pelo presidente Donald Trump, tende a provocar mudanças relevantes no cenário energético da América do Sul e gerar impactos diretos para o Brasil e para a Petrobras. A avaliação é de especialistas ouvidos pelo jornal O Globo, que apontam aumento da concorrência por investimentos e pressão sobre decisões estratégicas da estatal brasileira.

A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris, mas vive há décadas um forte declínio produtivo. No auge, o país chegou a produzir aproximadamente 3,5 milhões de barris por dia. Esse volume despencou nos anos seguintes, chegando a patamares inferiores a 1 milhão de barris diários, em meio a problemas de gestão, falta de investimentos, sanções internacionais e deterioração da infraestrutura.

A possibilidade de retomada gradual da produção venezuelana ocorre em um momento de mudanças no mercado regional. Além da Venezuela, Guiana e Suriname já avançam em projetos relevantes, ampliando a oferta de petróleo na região e acirrando a disputa por capital internacional. Esse movimento se dá em um contexto de elevada volatilidade no mercado global, intensificada por tensões geopolíticas recentes no Caribe.

Concorrência regional e Margem Equatorial

Especialistas avaliam que esse novo cenário tende a pressionar a Petrobras a acelerar decisões estratégicas, especialmente em relação à exploração da Margem Equatorial brasileira. Para Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás (IBP), os efeitos diretos sobre a Petrobras devem ser percebidos principalmente no médio e longo prazos.

“Em dois anos, se os planos do governo americano derem certo, a produção na Venezuela pode aumentar para algo em torno de 400 mil barris por dia. Isso significa mais oferta regional e uma disputa maior por investimento internacional. A Petrobras precisará ser mais atrativa e competitiva”, afirmou Ardenghy.

Além da concorrência por capital, ele chama atenção para impactos imediatos associados ao ambiente de instabilidade no Caribe, rota estratégica para o transporte de petróleo entre Brasil e Estados Unidos. Segundo o dirigente, os custos logísticos podem aumentar entre 10% e 15% em função do risco geopolítico, afetando cadeias de suprimento e contratos de frete.

Guiana e Suriname ampliam oferta

A Guiana, cujo principal projeto é liderado pela ExxonMobil, deve elevar sua produção dos atuais cerca de 900 mil barris por dia para aproximadamente 1,3 milhão em um horizonte de dois anos. Já o Suriname, que possui reservas estimadas em mais de 750 milhões de barris recuperáveis, receberá ainda neste ano sua primeira plataforma operada pela TotalEnergies, com início de produção previsto para 2028.

Para Pedro Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o aumento da oferta regional tende a pressionar os preços internacionais do petróleo. “A demanda global cresce em ritmo menor do que a oferta projetada. Com mais petróleo vindo da Venezuela, Guiana e Suriname, o cenário é de pressão baixista sobre os preços. Para a Petrobras, isso é negativo, assim como para projetos mais caros, como os da Margem Equatorial”, avaliou.

Rodrigues acrescenta que a Venezuela pode se tornar um destino mais atraente para o capital internacional por combinar grandes reservas conhecidas e custos de produção mais baixos, intensificando a disputa com o Brasil por recursos financeiros.

Custos, reservas e decisões estratégicas

Na avaliação de Rafael Chaves, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-diretor da Petrobras, o diferencial venezuelano está no fato de seus reservatórios serem amplamente conhecidos, o que reduz riscos exploratórios e acelera decisões de investimento. “Isso aumenta a urgência de o Brasil avançar na Margem Equatorial. O cenário global está ficando mais competitivo, e a velocidade passa a ser um fator decisivo”, afirmou.

Marcus D’Elia, sócio-diretor da Leggio Consultoria, avalia que o contexto atual reforça o argumento a favor da exploração da Margem Equatorial, tanto para compensar a queda projetada da produção nacional a partir de 2033 e 2034 quanto para oferecer ao mercado um petróleo de melhor qualidade em relação ao venezuelano, predominantemente pesado.

Embora as reservas da Margem Equatorial brasileira sejam estimadas em cerca de 30 bilhões de barris — número inferior às reservas venezuelanas —, especialistas ressaltam que o petróleo brasileiro tende a ter maior valor agregado. Ainda assim, os custos de produção diferem de forma significativa.

O geólogo Pedro Zalan observa que a extração na Venezuela ocorre majoritariamente em terra ou em águas rasas, o que reduz custos e aumenta a competitividade. Em contraste, as jazidas da Margem Equatorial, assim como as da Guiana e do Suriname, estão localizadas em águas profundas e ultraprofundas, exigindo investimentos mais elevados e tecnologia complexa.

Impactos para o Brasil

Diante desse cenário, analistas apontam que a Petrobras precisará reforçar eficiência operacional, disciplina de capital e clareza estratégica para manter sua atratividade diante de investidores internacionais. Ao mesmo tempo, decisões regulatórias e ambientais no Brasil ganham peso adicional, uma vez que atrasos na exploração podem ampliar a vantagem competitiva de países vizinhos.

A possível retomada da produção venezuelana, combinada ao avanço de projetos na Guiana e no Suriname, sinaliza uma nova fase para o mercado energético sul-americano. Para o Brasil, o desafio será equilibrar competitividade, sustentabilidade e velocidade de decisão em um ambiente regional cada vez mais disputado.

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