Economista alerta no Conselho de Segurança para violação da Carta da ONU e riscos à paz internacional
Em um discurso firme e carregado de apelos ao direito internacional, o economista Jeffrey Sachs acusou os Estados Unidos de manterem um padrão histórico de intervenções ilegais em outros países. A fala ocorreu nesta segunda-feira (5), durante uma sessão extraordinária do Conselho de Segurança da ONU, convocada após a ofensiva militar norte-americana contra a Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro.
Desde o início, Sachs deixou claro o eixo central do debate. Para ele, a discussão não gira em torno da simpatia ou rejeição ao governo venezuelano. O ponto crucial, segundo afirmou, é saber se um Estado-membro pode usar força militar, coerção política ou estrangulamento econômico para impor mudanças de regime a outro país soberano.
O discurso de Sachs na íntegra
Sem alterar o conteúdo original, Sachs apresentou ao Conselho o seguinte trecho de sua intervenção:
“A questão diante deste Conselho hoje não é o caráter do governo da Venezuela. A questão é se algum Estado-membro tem o direito, por meio da força, da coerção ou do estrangulamento econômico, de determinar o futuro político de outro país ou de exercer controle sobre seus assuntos internos.
Essa pergunta vai diretamente ao Artigo 2, Seção 4, da Carta das Nações Unidas, que proíbe explicitamente a ameaça ou o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado. O que está em jogo é se essa proibição será defendida ou abandonada.
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Desde 1947, a política externa dos Estados Unidos tem recorrido repetidamente a guerras, operações encobertas e manipulação política para promover mudanças de regime em outros países. Isso não é uma opinião, mas um fato amplamente documentado. Eoossas práticas continuaram após o fim da Guerra Fria e incluem intervenções no Iraque, na Líbia, na Síria, em Honduras, na U5crânia e na Venezuela.
Os métodos são conhecidos: sanções econômicas, guerra midiática, apoio a grupos armados, sabotagem econômica e ameaças militares. Essas ações violam a Carta da ONU e produzem, quase invariavelmente, violência prolongada, instabilidade política e sofrimento em massa da população civil.
Os membros deste Conselho não são chamados a julgar um governo específico. São chamados a defender o direito internacional. A sobrevivência da paz depende de a Carta das Nações Unidas continuar sendo um instrumento vivo — e não uma peça irrelevante de retórica diplomática.”
Um padrão histórico de mudança de regimes
Ao longo de sua exposição, Sachs reforçou que a prática de impor mudanças de regime não é episódica. Pelo contrário, ela marca a política externa dos Estados Unidos desde o pós-guerra. Ele citou estudos acadêmicos que apontam dezenas de operações desse tipo entre 1947 e o fim da Guerra Fria.
Além disso, o economista destacou que o colapso da União Soviética não interrompeu essa lógica. Segundo ele, intervenções no Iraque, na Líbia e na Síria seguiram o mesmo roteiro. Em todos os casos, Washington atuou sem autorização explícita do Conselho de Segurança.
Esse histórico, de acordo com Sachs, demonstra um desrespeito sistemático à Carta da ONU. Ainda mais grave, segundo ele, são os impactos sociais dessas ações, que quase sempre recaem sobre civis.
Venezuela no centro da disputa geopolítica
Ao abordar o caso venezuelano, Sachs afirmou que a ingerência norte-americana é antiga e bem documentada. Ele lembrou a tentativa de golpe de 2002, que contou com apoio tácito de Washington, e o financiamento de grupos opositores ao longo da década seguinte.
Na sequência, vieram as sanções econômicas. De acordo com o economista, essas medidas atingiram diretamente a população. Entre 2017 e 2020, a produção de petróleo despencou, enquanto o PIB per capita sofreu queda acentuada.
Sachs também citou a decisão dos Estados Unidos de reconhecer Juan Guaidó como “presidente interino”, em 2019, e o congelamento de bilhões de dólares em ativos venezuelanos no exterior. Para ele, esse conjunto de ações integra uma estratégia contínua de desestabilização.
Sanções, guerra e impactos humanitários
Durante o discurso, o economista ressaltou que sanções unilaterais violam o direito internacional. Segundo a ONU, apenas o Conselho de Segurança pode autorizar esse tipo de medida. Ainda assim, afirmou, os Estados Unidos seguem ignorando resoluções da Assembleia Geral que condenam tais práticas.
Além disso, Sachs alertou para o uso recorrente da força militar em vários países, sem base legal clara. Para ele, essa postura amplia conflitos, destrói economias e aprofunda crises humanitárias já existentes.
Ao mesmo tempo, ele frisou que a retórica da segurança nacional tem servido como justificativa para ações que enfraquecem a própria ordem internacional.
Defesa da Carta da ONU e riscos globais
Na parte final de sua fala, Sachs ampliou o foco. Ele comparou o momento atual ao fracasso da Liga das Nações nos anos 1930. Segundo ele, a incapacidade de impor regras levou o mundo à Segunda Guerra Mundial.
Dessa forma, o economista alertou que a ONU não pode repetir esse erro. Em um cenário marcado por armas nucleares, afirmou, não há margem para uma nova falha sistêmica.
Por isso, Sachs defendeu medidas imediatas, como o fim das ameaças militares contra a Venezuela, a retirada de forças estrangeiras da região e a retomada da diplomacia sob mediação da ONU.
Um apelo à legalidade internacional
Ao encerrar, Jeffrey Sachs deixou um recado direto aos membros do Conselho de Segurança. Para ele, o julgamento não é sobre Nicolás Maduro, mas sobre a sobrevivência do direito internacional.
Segundo o economista, permitir que a Carta da ONU se torne letra morta significa aceitar um mundo regido pela força. Já defendê-la, mesmo sob pressão das grandes potências, representa a única chance real de preservar a paz global.


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