Especialistas alertam que a operação em Caracas pode redefinir regras geopolíticas e abrir caminho para novas intervenções na América Latina
Em um ataque que chocou a comunidade internacional, os EUA sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, segundos antes de o político tentar fechar a porta de um bunker em Caracas. Especialistas analisam o impacto da ação militar norte-americana para a América Latina e o multilateralismo global.
Depois de quase dois meses de operações militares na região do mar do Caribe, tensões em alta e ameaças de invasão contra a Venezuela pelos Estados Unidos, o governo do presidente Donald Trump sequestrou o homólogo venezuelano Nicolás Maduro no último fim de semana, durante a madrugada.
Segundo Trump, a ação era planejada há meses e tem como justificativa o combate ao tráfico internacional de drogas, do qual Maduro seria chefe de uma organização criminosa. Durante discurso, o líder norte-americano chegou a afirmar que governaria o país de forma provisória — o que foi refutado no dia seguinte pelo secretário de Estado, Marco Rubio — e que tomaria o controle da indústria petrolífera venezuelana. Caracas conta com a maior reserva de petróleo do mundo, além de outros minerais de interesse na nova era tecnológica.
Levado para Nova York juntamente com a esposa, Cilia Flores, Maduro passou por audiência de custódia nesta segunda-feira (5), reafirmou inocência e passará por uma nova sessão somente em 17 de março. Até lá, seguirá preso no Centro de Detenção Metropolitano, local chamado por advogados norte-americanos como o “inferno na Terra”. Enquanto a União Europeia mostrou apoio a uma transição de governo no país sem endossar a operação, países como Argentina, Equador e Panamá defenderam os Estados Unidos. Já Brasil, Colômbia, Rússia e China, por exemplo, repudiaram a iniciativa por criar um precedente perigoso.
A professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e autora da tese de doutorado “Entre o bolivarianismo e a adesão à hegemonia: a relação de Venezuela e Estados Unidos durante o Chavismo”, Carolina Pedroso, ressalta ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, que Washington tem violado sistematicamente o direito internacional.
“E não tem havido nenhum ator capaz de impedir que essas violações continuem acontecendo mundo afora, e talvez a gente esteja regredindo em termos da governança global para um cenário em que a lei do mais forte é o que vale.”
Para a especialista, a ação militar norte-americana também incentiva “um turbilhão de instabilidade” na geopolítica mundial diante da incerteza que ainda paira sobre a questão.
“Realmente, as regras que foram consolidadas desde pelo menos a criação das Nações Unidas — há mais de 80 anos — vão ser simplesmente ignoradas daqui para frente, e vamos seguir somente com aquele que falar mais alto? Ou haverá limites para essas atitudes cada vez mais unilaterais das grandes potências globais?”, questiona.
Trump já mostrava “disposição de chegar até às últimas consequências”
Entre suas famosas bravatas até a ação militar em Caracas, Trump já deixava claro que poderia “chegar até as últimas consequências” em relação à Venezuela, afirma a professora da Unifesp. Além disso, Pedroso lembra que o bunker do qual Maduro foi sequestrado é emblemático e conhecido por ser “muito bem protegido”.
“Foi muito rápido desativar não só o sistema de defesa antiaérea, mas também a precisão com que souberam exatamente onde ele estava. Então, acho que fica muito nítido, nesse primeiro momento — ainda bastante nebuloso de forma geral —, que esse episódio marca com muita clareza o quanto o imperialismo norte-americano não está de brincadeira e vai utilizar todo o seu aparato tecnológico e militar para alcançar seus objetivos.”
Aliado a isso, a especialista pontua que pessoas próximas ao governo já apontavam um clima de conspiração criado pelos Estados Unidos.
“De novo, acho importante ressaltar esse aspecto de que os Estados Unidos sempre estiveram muito presentes na América Latina como um todo. Talvez, nos últimos 30 anos, a gente tenha se esquecido um pouco disso porque eles concentraram boa parte de suas ações no Oriente Médio. Mas, historicamente, a presença deles junto às elites latino-americanas e essa capacidade de cooptação, seja pela via ideológica, seja pela via financeira, não é desprezível.”
O que esperar da presidência interina de Delcy Rodríguez?
Com o sequestro de Maduro, Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina da Venezuela e chegou a falar no último fim de semana que quer trabalhar junto com os Estados Unidos em uma agenda “baseada na igualdade soberana e na não interferência”. Para Carolina Pedroso, a principal dúvida é se Rodríguez conseguirá ser fiel aos princípios que nortearam a Revolução Bolivariana no país.
Ao longo do governo Maduro, antes de ser vice-presidente, Rodríguez atuou como chanceler, foi presidente da Assembleia Nacional Constituinte e uma das mentoras das estratégias para driblar sanções econômicas sobre o petróleo contra o país nos últimos anos.
“Então, é alguém que tem uma visão muito complexa de como o mundo funciona e que operava exatamente dentro dessa complexidade para defender os interesses venezuelanos. Ao mesmo tempo, vem sendo duramente ameaçada pelos EUA com novos ataques e bombardeios. Acho que isso também ajuda a explicar essas duas posturas iniciais: a primeira, de reforçar a ideia de que Nicolás Maduro ainda é o presidente, embora esteja fora do país, e a segunda, de que ela representaria justamente essa continuidade”, complementa.
Outro ponto ressaltado pela especialista é que é a primeira vez que há uma violação militar tão direta dos Estados Unidos na América do Sul — que, segundo ela, foi historicamente blindada de iniciativas assim quando comparada à América Central e Caribe.
EUA dizem que não há guerra, mas cumprimento da “lei”
Durante a reunião de emergência convocada pela Colômbia no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o embaixador norte-americano na entidade, Mike Waltz, garantiu mais cedo que Washington não está em guerra contra Caracas e sequer ocupou o país, mas realizou uma “operação de aplicação da lei” diante de acusações contra Maduro que existem há décadas.
O analista internacional, professor de História e pesquisador do Núcleo de Estudos das Américas (Nucleas) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), João Cláudio Pitillo, classificou à Sputnik Brasil como absurda a declaração. Segundo ele, os Estados Unidos se amparam em um conceito de combate ao chamado “narcoterrorismo” que não tem fundamento na realidade.
“É evidente que houve uma invasão: uma violação do território venezuelano, do espaço aéreo do país e de sua integridade nacional. O presidente foi sequestrado, militares e civis venezuelanos foram mortos, e equipamentos e propriedades do país foram destruídos, com os Estados Unidos agindo em desacordo com as leis internacionais — até porque ninguém nomeou os Estados Unidos como polícia do mundo. Além disso, o debate que tenta associar Nicolás Maduro ao tráfico de drogas é profundamente falso. A própria ONU já afirmou que essa acusação não procede”, defende.
Para o especialista, Trump quis dar um recado a todo o continente de que deve ser considerado um “xerife” da política de todos os Estados da América Latina. E isso também deve preocupar o Brasil, que é a principal potência regional:
“O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, historicamente, tem se mantido como um dos principais contrapontos à política hegemônica dos Estados Unidos, em diferentes níveis, ora com maior intensidade, ora com menor. No entanto, o caminho baseado no desenvolvimento autônomo e na adesão à multipolaridade choca-se frontalmente com o governo Trump”, acrescenta.
E, por buscar trilhar uma realidade oposta à defendida por Trump, o especialista pontua que o Brasil deve se preocupar com o precedente criado.
“Nesse sentido, o país deve se preocupar também porque há uma quantidade significativa de agentes de quinta-coluna [expressão usada para definir grupos que atuam a favor de inimigos da nação]. Assim, a possibilidade de uma invasão ao território brasileiro não é descartável. Em um momento de elevada tensão, o que ocorreu na Venezuela poderia ocorrer no Brasil, inclusive em uma escala ainda maior”, finaliza.


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