O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a provocar forte repercussão internacional ao afirmar que o país “precisa” da Groenlândia por razões de segurança nacional. Segundo comunicado oficial da Casa Branca, o governo norte-americano avalia diferentes caminhos para incorporar o território semiautônomo ligado à Dinamarca, inclusive, em último caso, o emprego de forças militares.
A declaração reacende um tema sensível no cenário geopolítico internacional e amplia o clima de apreensão entre aliados dos Estados Unidos. De acordo com a Casa Branca, Trump considera a Groenlândia uma prioridade estratégica e acompanha pessoalmente as discussões conduzidas por sua equipe de política externa e segurança. “O presidente e seus assessores estão analisando uma gama de opções para alcançar esse objetivo de política externa e, evidentemente, o uso das Forças Armadas é sempre uma opção à disposição do comandante em chefe”, afirmou o governo americano em nota.
As falas ganharam ainda mais peso após Trump reiterar, no fim de semana, que os Estados Unidos “necessitam da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”. Localizado no Ártico, o território é considerado estratégico por sua posição geográfica, proximidade com rotas polares emergentes e potencial militar e econômico, além de integrar o Reino da Dinamarca, país-membro da OTAN.
Reação dura de Copenhague
A resposta de Copenhague foi imediata. Na segunda-feira (28), a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, reagiu com veemência às declarações vindas de Washington. Segundo ela, qualquer ataque dos Estados Unidos contra a Groenlândia equivaleria, na prática, ao colapso da Otan, aliança militar fundada no princípio da defesa coletiva entre seus integrantes.
A advertência evidencia a gravidade institucional do debate. Um eventual confronto entre dois países-membros da aliança colocaria em xeque o artigo central do tratado, que prevê apoio mútuo em caso de agressão externa, e abriria um precedente sem paralelo na história da organização.
Contexto internacional amplia tensão
O debate sobre a Groenlândia ganhou novo fôlego após a recente ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, quando forças de elite realizaram uma operação para capturar o presidente Nicolás Maduro e levá-lo a Nova York sob acusações relacionadas a tráfico de drogas e crimes envolvendo armas. O episódio provocou condenações internacionais e reacendeu temores sobre uma política externa mais assertiva e unilateral de Washington.
No dia seguinte à operação na Venezuela, uma publicação nas redes sociais contribuiu para elevar a temperatura diplomática. Katie Miller, esposa de um dos principais assessores de Trump, compartilhou um mapa da Groenlândia com as cores da bandeira dos Estados Unidos e a palavra “EM BREVE”, gesto interpretado por analistas como sinal de alinhamento com o discurso do presidente.
Casa Branca reforça posição
Também na segunda-feira (28), o assessor sênior da Casa Branca Stephen Miller reforçou publicamente a posição do governo. Em entrevista, afirmou que é “posição formal” da administração Trump que a Groenlândia deveria integrar o território dos Estados Unidos. Segundo ele, como Washington exerce papel central na Otan e busca ampliar sua presença no Ártico, “obviamente a Groenlândia deveria ser parte dos Estados Unidos”.
Questionado repetidamente sobre a possibilidade de descartar o uso da força para anexar o território, Miller evitou assumir qualquer compromisso explícito. “Ninguém vai lutar contra os Estados Unidos pelo futuro da Groenlândia”, afirmou, declaração que foi interpretada por diplomatas europeus como mais um sinal de pressão política e militar.
Implicações geopolíticas
Especialistas em relações internacionais avaliam que as declarações de Trump ampliam incertezas em um momento de rearranjo do equilíbrio global. O Ártico tornou-se área de crescente interesse estratégico, com disputas envolvendo Estados Unidos, Rússia e China, impulsionadas pelo derretimento do gelo e pela abertura de novas rotas marítimas e oportunidades econômicas.
Ao colocar a Groenlândia no centro de sua agenda, Trump não apenas tensiona a relação com a Dinamarca, mas também desafia a coesão da Otan e reforça críticas de que Washington estaria disposto a confrontar até aliados históricos para assegurar vantagens estratégicas. O episódio aprofunda o debate sobre os limites do poder americano e os riscos de uma política externa baseada em pressão direta e na ameaça do uso da força.