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A soberania ferida e o perigoso retorno do imperialismo na América Latina

A ofensiva militar dos Estados Unidos em Caracas e a captura de Nicolás Maduro colocam em xeque a soberania venezuelana e expõem a fragilidade das normas internacionais O mundo assistiu, neste sábado (3), a um dos episódios mais sombrios da história recente das relações internacionais no Hemisfério Ocidental. A operação militar conduzida pelos Estados Unidos […]

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A nomeação de Delcy Rodríguez pelo Tribunal Supremo de Justiça surge como resposta institucional diante do risco de colapso político imposto por uma intervenção externa.
O episódio ultrapassa a crise venezuelana e lança um alerta à América Latina sobre a normalização do uso da força como instrumento de reorganização política / Reprodução

A ofensiva militar dos Estados Unidos em Caracas e a captura de Nicolás Maduro colocam em xeque a soberania venezuelana e expõem a fragilidade das normas internacionais


O mundo assistiu, neste sábado (3), a um dos episódios mais sombrios da história recente das relações internacionais no Hemisfério Ocidental. A operação militar conduzida pelos Estados Unidos em Caracas, que resultou no bombardeio da capital venezuelana e na captura de Nicolás Maduro, não representa apenas uma ação contra um governo específico, mas um ataque direto ao conceito de autodeterminação dos povos e à legalidade internacional. Este ato unilateral de força, executado sem qualquer mandato do Conselho de Segurança da ONU, estabelece um precedente perigoso que ameaça a todos os países que, por ventura, desafiem os interesses hegemônicos de Washington.

A decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela de empossar Delcy Rodríguez como presidente interina é a resposta institucional possível de um Estado que tenta manter sua estrutura mínima de funcionamento sob o fogo cruzado. Enquanto Washington ignora fronteiras e leis internacionais, Caracas busca na sua Constituição o amparo para garantir a continuidade administrativa em meio ao caos provocado por uma intervenção estrangeira. Este esforço, dentro de um quadro jurídico interno, demonstra que a sanha intervencionista não apaga a complexa realidade política de uma nação, que deve ter seu destino decidido por seus cidadãos, não por potências distantes.

Leia também: Suprema Corte da Venezuela enfrenta ofensiva dos EUA

O sequestro de um presidente e a afronta democrática

A narrativa apresentada pela Casa Branca tenta revestir de “libertação” o que, na prática, configura-se como um sequestro de Estado. Ao capturar Maduro e sua esposa e levá-los a Nova York em um navio de guerra, os Estados Unidos atropelam séculos de diplomacia e protocolos de imunidade. Independentemente das críticas que se possa fazer à gestão de Maduro, a remoção de um líder político por meio de bombardeios e operações militares externas é um retrocesso que nos remete aos períodos mais obscuros das ditaduras latino-americanas financiadas pelo Norte. É a substituição do árduo caminho da política e da negociação pela lógica primitiva da força bruta, uma afronta que desmoraliza qualquer discurso sobre democracia e direitos humanos.

Delcy Rodríguez, ao assumir o cargo, foi enfática: a Venezuela não é, e não aceitará ser, uma colônia. Sua convocação à resistência não é apenas um grito partidário, mas um apelo à preservação da soberania nacional face a uma potência que, mais uma vez, utiliza a força bruta para moldar o destino de seus vizinhos ao sul. O apoio imediato do presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, e de ministros de áreas estratégicas, sinaliza que a resposta venezuelana se organiza em torno de um princípio maior do que as divisões domésticas: o direito de existir como nação livre.

A ressurreição da Doutrina Monroe no século 21

O pronunciamento de Donald Trump em Mar-a-Lago não deixou margens para dúvidas sobre as reais intenções por trás da operação. Ao invocar explicitamente a Doutrina Monroe — uma política de dois séculos atrás criada para consolidar a hegemonia norte-americana na região —, o governo dos EUA removeu a máscara da “ajuda humanitária”. A afirmação de que o domínio americano no Ocidente “nunca mais será questionado” é um aviso ameaçador a todos os países da América Latina, um retorno explícito à linguagem do quintal e da esfera de influência.

O plano de Washington de designar um “grupo” de alto escalão para administrar a Venezuela é o ápice do desrespeito institucional. A ideia de que uma nação estrangeira pode simplesmente “assumir o governo” de outra até que decida o momento de uma transição é a negação absoluta de qualquer princípio democrático. É uma tutela colonial imposta sob o pretexto da liberdade, revelando que o objetivo final não é o bem-estar do povo venezuelano, mas o controle geopolítico e o acesso aos imensos recursos naturais do país.

O pragmatismo cínico e o desprezo pela oposição interna

Surpreende, mas não choca, a forma como Trump descartou figuras da oposição venezuelana que há anos serviam aos interesses de Washington. Ao afirmar que María Corina Machado — laureada com o Nobel da Paz — não possui respeito ou apoio interno para governar, Trump revela que a intervenção nunca foi sobre restaurar a vontade popular venezuelana, mas sobre conveniência geopolítica. É um desprezo revelador: os instrumentos úteis para desestabilizar são descartados quando o poder bruto se torna a ferramenta principal.

A indicação de que o secretário de Estado, Marco Rubio, já mantém diálogos com a própria Delcy Rodríguez demonstra um pragmatismo cínico. Os Estados Unidos parecem dispostos a negociar com qualquer peça do tabuleiro, desde que o controle final sobre os recursos e a política da região permaneça em suas mãos. É a realpolitik em sua forma mais crua, onde princípios são fluidos e o poder dita as regras do engajamento.

Única via

A resistência convocada por Rodríguez coloca o povo venezuelano diante de um desafio hercúleo: defender o território e a dignidade nacional contra o maior poder militar do planeta. Mais do que uma luta política, é uma luta existencial pela preservação de um direito fundamental conquistado com as lutas de independência e com o fim das ditaduras do século XX: o direito de uma nação decidir, por si só, seus rumos, seus erros e seus acertos.

O que está em jogo na Venezuela hoje não é apenas o futuro de um partido ou de um líder, mas a própria existência da soberania na América Latina. Se o mundo aceitar passivamente que bombardeios e sequestros de governantes são ferramentas legítimas para a “transição de poder”, nenhuma nação do Sul Global estará verdadeiramente segura. A história cobrará daqueles que, sob o silêncio ou o aplauso, permitiram que a barbárie imperialista voltasse a ditar as regras em nosso continente. Defender a soberania venezuelana, neste momento crítico, não é um ato de apoio a um governo, mas uma defesa essencial do direito de todos os povos à autodeterminação e a um futuro livre de intervenções militares neocoloniais.

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