2025 foi um ano impressionante para o comércio exterior brasileiro.
Mesmo com os ataques infames vindos da Casa Branca, que tentou intimidar o Brasil com um tarifaço de 50% sobre seus produtos e depois se viu obrigado a recuar na maior parte deles, as exportações brasileiras bateram um recorde histórico e chegaram a US$ 348,68 bilhões.
Este valor representa um aumento de 3,5% sobre 2024, mas é quando olhamos o quadro histórico, com um pouco mais de distância, que podemos avaliar o tamanho do crescimento do comércio e o aumento da participação do Brasil na economia global.
A magnitude que as exportações brasileiras atingiram, em termos de valor, nos obriga a repensar alguns conceitos sobre o lugar que o país está desempenhando na divisão internacional do trabalho.
A crítica justa de que o Brasil desempenharia um papel inferior por oferecer matérias-primas e produtos de baixo valor agregado pode até persistir, mas hoje deve ser ponderada. Já não é possível falar em baixo valor agregado quando a quantidade, como diria Marx, está se convertendo em qualidade.
Os altíssimos índices de produtividade de alguns setores supostamente primários aumentaram a participação do Brasil nos mercados internacionais de vários produtos.
Diferentemente do passado, em que o Brasil exportava matérias-primas com baixíssimo retorno real e frequentemente sofria com a praga da monocultura e da concentração de destinos, hoje o cenário é o oposto. Vendemos uma imensa gama de produtos para uma diversidade de nações, fruto de um esforço conjunto da diplomacia profissional do Itamaraty e da diplomacia política do presidente Lula.
O crescimento da demanda global, liderado pela entrada de bilhões de pessoas no mercado de consumo, estabilizou o preço da maior parte das commodities que o Brasil exporta. O uso de muita tecnologia e uma logística sofisticada está fazendo com que o Brasil receba uma quantidade impressionante de dólares.
A corrente de comércio do Brasil, que é a soma de exportação e importação, chegou a US$ 629,06 bilhões em 2025. Nos últimos dez anos (2016-2025), a corrente de comércio somou US$ 4,80 trilhões, um crescimento de 27,0% sobre os dez anos imediatamente anteriores (2006-2015). Se compararmos com a primeira década dos anos 2000 (2001-2010), a corrente de comércio era de US$ 2,24 trilhões.
Essa corrente de comércio é puxada, sobretudo, pelas exportações. O saldo da nossa balança comercial em 2025 foi positivo em US$ 68,29 bilhões, o terceiro maior saldo da nossa história, só superado pelos saldos de 2023 (US$ 98,90 bilhões) e 2024 (US$ 74,18 bilhões). O saldo só não foi maior porque as importações também cresceram, chegando a US$ 280,38 bilhões, o que é importante para modernizar nossa economia com máquinas e eletrônicos.
O principal mercado brasileiro é a China, com uma corrente de comércio de US$ 170,95 bilhões em 2025. Mas o que é curioso é que o que vem puxando tanto a corrente de comércio como a exportação nos últimos anos não é nem a China, mas outros mercados, mostrando que o Brasil está diversificando seus parceiros. Aumentamos nossa exportação e nossa corrente de comércio mesmo com a queda das exportações para os Estados Unidos e o declínio relativo do comércio com a China.
Um país que se destacou muito em 2025 foi a Índia, cuja população hoje superou a da China. O Brasil praticou uma corrente de comércio de US$ 15,21 bilhões com a Índia, 25,5% a mais que em 2024. O Brasil exportou US$ 6,86 bilhões para a Índia e importou US$ 8,35 bilhões, resultando em um saldo negativo de US$ 1,49 bilhão.
A África é outro mercado promissor. Com 1,5 bilhão de habitantes e países como a Nigéria, que deve se tornar uma das maiores economias do mundo nas próximas décadas, o continente africano representa uma fronteira de expansão para o comércio brasileiro. Em 2025, a corrente de comércio do Brasil com a África chegou a US$ 23,70 bilhões, com exportações de US$ 15,48 bilhões, importações de US$ 8,22 bilhões e saldo positivo de US$ 7,26 bilhões. As exportações para a África cresceram 159% em 20 anos.
O petróleo se tornou um dos pilares do comércio exterior brasileiro. A corrente de comércio de petróleo (bruto e refinado) chegou a US$ 77,28 bilhões em 2025, representando 12,3% de toda a corrente de comércio do país.
O Brasil exportou US$ 55,11 bilhões em petróleo em 2025, um crescimento de 691,7% em 20 anos. Em 2005, as exportações de petróleo somavam apenas US$ 6,96 bilhões. Do lado das importações, o Brasil comprou US$ 22,16 bilhões em petróleo em 2025, resultando em um saldo positivo de US$ 32,95 bilhões.
O petróleo bruto respondeu por US$ 44,67 bilhões em exportações, com saldo positivo de US$ 38,06 bilhões, em 2025. Já as exportações brasileiras de petróleo refinado chegaram a US$ 10,44 bilhões, mas o Brasil ainda importa US$ 15,55 bilhões em derivados, gerando um déficit de US$ 5,11 bilhões nesse segmento.
O que é interessante é que estamos descobrindo nichos lucrativos em derivados específicos, como o fuel oil, largamente utilizado como combustível marítimo no abastecimento de navios cargueiros, petroleiros e graneleiros em rotas oceânicas de longa distância.
A soja continua sendo o principal produto de exportação, com US$ 43,54 bilhões em 2025, alta de 1,4% sobre 2024 e crescimento de 107,5% em dez anos. O minério de ferro exportou US$ 28,96 bilhões, uma queda de 3,0% sobre o ano anterior, mas ainda assim mais que o dobro do que era há uma década.
As carnes bateram recorde em 2025, com US$ 28,80 bilhões, um salto de 22,2% sobre 2024 e de 136,6% em dez anos. A carne bovina congelada puxou esse resultado, com crescimento de 43,2% sobre o ano anterior.
O café também alcançou recorde histórico, com US$ 14,92 bilhões, alta de 31,2% sobre 2024 e de 168,1% em uma década. O açúcar exportou US$ 14,11 bilhões, uma queda de 24,2% sobre o ano anterior, mas ainda 84,6% acima do que era há dez anos. A celulose chegou a US$ 9,17 bilhões, recuo de 5,8% sobre 2024.
Os veículos voltaram a crescer, com exportações de US$ 5,89 bilhões, um aumento de 37,3% sobre 2024 e de 74,9% em dez anos.
Quando se analisam os mercados por blocos, os BRICS são fundamentais. A corrente de comércio do Brasil com os países dos BRICS chegou a US$ 251,49 bilhões em 2025. Os BRICS são responsáveis hoje por 40,0% de toda a corrente de comércio do Brasil, em comparação com 13,2% para os Estados Unidos e 15,9% para a União Europeia.
Esse volume de exportação é a principal garantia da nossa moeda.
É muito difícil haver qualquer ataque especulativo ao real quando auferimos receitas tão elevadas com a venda de nossos produtos.
Outra coisa é que o tamanho da nossa corrente de comércio faz com que nos tornemos uma potência cambial, um dos países que vão dando rumo para uma eventual desdolarização do mundo.
Nossa corrente de comércio ainda é majoritariamente em dólar, mas a magnitude dela faz com que qualquer sinal que o Brasil dê no sentido de desdolarizar seu comércio exterior dite o futuro do dólar e das finanças globais.









Marco Paulo Valeriano de Brito
09/01/2026 - 13h19
Camaradas, brasileiras e brasileiros, bom dia!
Sinto muito a comemoração e a acreditação, por um comunista, um socialista, um progressista, um cidadão de esquerda, de que firmar acordos com a União Europeia seja uma “vitória” para o Brasil e o Mercosul.
Nem ia me manifestar aqui, contudo, sei que quem me conhece bem, é meu amigo dileto, camaradas de lutas e resistências, sabe que não consigo ficar calado diante de equívocos, sobretudo, quando uma atitude mediata poderá trazer consequências danosas no transcurso do tempo.
Dirão, mas, Marco você é um Enfermeiro-Sanitarista, não entende nada de economia, de geoeconomia, de acordos internacionais, enfim, a diplomacia e a geoestratégica não são o seu campo de atuação.
Portanto, Marco Brito, cale-se!
Respondo, que a economia nunca será o começo, o meio e o fim de tudo.
Todo cidadão esclarecido e politizado tem, e deve, ter o direito de se manifestar, claro, a favor ou contra, sem deixarmos de compreender os que não se manifestam e preferem se omitir, se calar.
Me encontro entre os que conversam, debatem, opinam, concordam, discordam, sonham e mantém utopias.
Qual a vantagem concreta para o Brasil acordar com a União Europeia por dentro do Mercosul?
Tenho lido muito sobre esse acordo, meus amigos e minhas amigas, e cheguei a conclusão, s.m.j., que só vai atender as demandas do agronegócio brasileiro, basicamente, reescrevendo a nossa história de ex-colônia da Europa e culturalmente alinhada ao eurocentrismo.
Impressionante, as nossas “elites industriais” e as vinculadas ao terceiro setor (serviços, ciências e tecnologias) não estarem mobilizadas, junto com a nossa Classe Trabalhadora Operária Urbana (comerciária e manufatureira) e nossos intelectuais (acadêmicos, cientistas e tecnólogos), e indo às ruas do Brasil e em todo o Mercosul contra esse acordo de reedificação colonial da América do Sul.
Intrigante a União Europeia, depois do ataque dos EUA à Venezuela e ameaça à autonomia da Groenlândia e à independência e soberania da Dinamarca, correr para confirmar e firmar o Acordo UE – Mercosul, após décadas de sobrestagem e opositores europeus, como a Áustria, Irlanda, Polônia, França, dentre alguns outros pequenos países e a Itália, que era contra até “o verão passado”, mas agora concordou, após receber milhões de euros para reequilibrar sua debilitada economia.
Por que o Brasil, sobretudo, sendo a maior economia da América Latina e do Mercosul, com imensas possibilidades no Sul Global, na Ásia e na África, membro fundador do Brics+, desconsidera as nossas assimetrias com a Europa firmando um livre comércio que inundará o Brasil de produtos industrializados e serviços de alta tecnologia, em prejuízo da nossa própria industrialização e à lógica geopolítica de primeiro expandirmos o Mercosul para uma Área de Livre Comércio da América Latina e Caribe – ULAC (União Latino-Americana e Caribenha)?
Francamente, não consigo entender a opção do Brasil, e dos países do Mercosul, e não preciso ser economista para ser contra esse acordo.
O oportunismo e o utilitarismo da política norte-ocidental estão mais do que claros, nessa ação da UE que de uma só tacada neutraliza os EUA, na sua sanha expansionista, que não poupará a Europa, e dá fôlego novo para a economia dos países centrais do Capitalismo Europeu, pois seremos nós de novo os fornecedores de alimentos, energia, minérios e matérias-primas que seguirão dando resiliência às economias dos países europeus industriais.
Parece, caríssimos/as, que nada se aprende com a História, preferimos estórias, e nesses cinco séculos de colonialismo e aculturamento europeu nossa Classe Dominante se mantém coligada ao entreguismo e acomodada no status quo de exploradora do Povo Brasileiro.
Concluo, camaradas, com profundo sentimento de pesar, afirmando que nessa atitude e mobilizações, para que a UE acordasse com o Mercosul, o presidente Lula está equivocado e o Governo Lula III o assessorou no erro.
Enfim, só o tempo dirá, que seja eu o equivocado, e as futuras gerações de brasileiras e brasileiros possam viver, em seus tempos, bem melhor do que sobrevivo.
Saudações Comuno-Ecossocialistas Fraternas!
Marco Paulo Valeriano de Brito
Enfermeiro-Sanitarista, Professor, Servidor Público Federal Aposentado e Gestor Público
Mercosul, Brasil, 9 de janeiro de 2026.