Justiça dos EUA revisa acusação e desmonta narrativa do “Cartel dos Sóis” contra Maduro
Em uma reviravolta significativa no caso judicial contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos revisou substancialmente sua acusação, abandonando a alegação central de que o “Cartel dos Sóis” seria uma organização criminosa hierárquica. A mudança ocorre apenas três dias após a captura de Maduro em Caracas, em uma operação militar condenada por diversos países como violação do direito internacional.
A nova versão do documento, apresentada no Tribunal Distrital de Nova York, menciona o termo “Cartel dos Sóis” apenas duas vezes, um número drasticamente inferior às 32 referências na acusação original de 2020. Em vez de descrever uma estrutura dedicada ao narcotráfico, a revisão define o “Cartel dos Sóis” como um “sistema clientelista” e uma “cultura de corrupção” dentro do aparato estatal venezuelano, onde altos funcionários protegeriam e promoveriam atividades ilegais.
O colapso de uma narrativa midiática
A revisão judicial desmonta a narrativa que dominou a cobertura internacional sobre a Venezuela nos últimos anos. A ideia de um cartel estruturado, muitas vezes apresentada com base em supostos vazamentos de agências de inteligência dos EUA, foi central para justificar a pressão máxima de Washington sobre Caracas.
A mudança ganha relevância extra porque, em fevereiro de 2025, a própria administração Trump designou formalmente o “Cartel dos Sóis” como uma Organização Terrorista Estrangeira (FTO). No entanto, essa designação não encontra respaldo em relatórios técnicos oficiais. A Avaliação Nacional de Ameaças de Drogas de 2025 da DEA, por exemplo, detalha as rotas do tráfico nas Américas sem mencionar a Venezuela como um país de trânsito importante ou citar o suposto cartel. Relatórios da ONU e da União Europeia igualmente não fazem referência à organização.
O cenário judicial e a defesa de Maduro
A audiência inicial de Maduro ocorreu na segunda-feira, onde ele se declarou “prisioneiro de guerra” e rejeitou veementemente as acusações, reafirmando-se como o presidente legítimo da Venezuela. Ele denunciou sua detenção como uma violação flagrante do direito internacional.
O caso está sob a responsabilidade do juiz federal Alvin K. Hellerstein, de 92 anos, conhecido por sua independência judicial e postura pautada por princípios. Nomeado pelo presidente Bill Clinton, Hellerstein já se manifestou contra decisões do governo Trump em casos anteriores, sendo descrito por advogados como alguém que “não se importa com o que as pessoas pensam dele” e busca agilidade e clareza nos processos.
A revisão da acusação coloca em xeque público a fundamentação jurídica que sustentou anos de sanções e, mais recentemente, a operação militar que capturou Maduro. Apesar da mudança no documento judicial, autoridades americanas de alto escalão, como o secretário de Estado Marco Rubio, continuaram nesta semana a se referir publicamente ao “Cartel dos Sóis” como uma organização real, chamando Maduro de seu “líder”.
O descompasso entre a narrativa política e a revisão técnica do Departamento de Justiça promete acirrar os debates sobre os reais motivos por trás da intervenção dos EUA na Venezuela, especialmente considerando as declarações explícitas de Trump sobre o interesse no petróleo venezuelano. O caso expõe uma tensão entre as justificativas apresentadas para a ação extrema e a base factual que as sustenta.
Com informações da TeleSUR em 06/01/2026


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