Menu

Donald Trump matou a direita brasileira por mais uma década

Os ataques de Donald Trump à Venezuela geraram também uma crise de ordem moral nas relações internacionais. Seres humanos e países são mais do que agentes econômicos. São igualmente entidades morais. O analista Arnaud Bertrand abordou essa questão em seu último artigo, no Substack, e suas reflexões oferecem ferramentas valiosas para entendermos a atual conjuntura […]

sem comentários
Apoie o Cafezinho
Siga-nos no Siga-nos no Google News
Jair e Eduardo Bolsonaro com Trump, no salão Oval da Casa Branca. Em março de 2019.

Os ataques de Donald Trump à Venezuela geraram também uma crise de ordem moral nas relações internacionais.

Seres humanos e países são mais do que agentes econômicos. São igualmente entidades morais.

O analista Arnaud Bertrand abordou essa questão em seu último artigo, no Substack, e suas reflexões oferecem ferramentas valiosas para entendermos a atual conjuntura política brasileira.

Bertrand argumenta que uma nação é constituída pela “história que conta a si mesma”. Ele recorda a máxima de que a hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude. Ao abandonar a hipocrisia e abraçar abertamente seus vícios, a América de Trump renuncia à base moral que, um dia, pretendeu ter.

É uma lição antiga, ensinada por Confúcio (551-479 a.C.), o filósofo chinês cuja doutrina estruturou a governança na Ásia Oriental por dois milênios e meio, sobre a dependência da ordem social na ordem moral.

Marco Aurélio (121-180 d.C.), considerado um dos maiores filósofos da Roma Imperial, via o poder sem virtude como o caminho para a ruína. Ibn Khaldun (1332-1406), o grande pensador islâmico do século XIV, argumentava que a coesão social se desfaz com a corrupção dos governantes.

Bertrand traz ainda uma comparação histórica reveladora. Na China antiga, havia uma disputa entre legalistas e confucionistas. Os legalistas acreditavam que o Estado deveria governar através da lei, da punição e do medo.

A dinastia Qin, a primeira a unificar a China, adotou essa filosofia.

O legalismo foi eficaz no curto prazo, mas não conseguiu dar estabilidade à governança: a dinastia Qin colapsou após apenas 15 anos, uma das mais curtas da história chinesa. A estabilidade, como os confucionistas sustentavam, depende do exemplo e da justiça, não do medo. A dinastia Han, que sucedeu a Qin e adotou o confucionismo, durou mais de 400 anos. É exatamente isso que falta aos Estados Unidos de Trump.

A intervenção na Venezuela, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro, foi acompanhada por uma declaração de Trump que dispensa interpretações: o objetivo é “retirar uma tremenda quantidade de riqueza do solo” para “reembolsar os Estados Unidos”. Não há mais o pretexto da “promoção da democracia”; o que temos é um ato de pirataria e extrativismo confessado, uma face do imperialismo que já não se envergonha de sua própria brutalidade.

Quando se olha para as relações internacionais, os vencedores simbólicos dessa degeneração moral são os países do Sul Global. Na reunião do Conselho de Segurança da ONU realizada após os ataques a Caracas, as falas foram devastadoras para Washington.

Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Columbia, abriu o debate lembrando que a questão não é julgar o caráter do governo venezuelano, mas decidir se qualquer Estado tem o direito de determinar o futuro político de outro país pela força. “A paz e a sobrevivência da humanidade”, disse Sachs, “dependem de a Carta da ONU permanecer um instrumento vivo do direito internacional.”

O representante da China foi ainda mais direto: “Nenhum país pode agir como a polícia do mundo, nem qualquer Estado pode presumir ser o juiz internacional.” E acrescentou: “As lições da história são claras: meios militares não são a solução para problemas.” A Rússia, por sua vez, classificou a ação americana como “banditismo internacional” e destacou o cinismo de Washington em sequer tentar esconder os verdadeiros objetivos: o controle dos recursos naturais da Venezuela.

Essa degradação moral, contudo, transborda as fronteiras americanas e atinge em cheio o Brasil. Uma parcela expressiva da nossa direita política atrelou seu destino à figura de Trump.

O apoio efusivo de lideranças como os governadores Ratinho Jr. e Tarcísio de Freitas, além de figuras centrais do bolsonarismo, os torna cúmplices de um projeto que o mundo, através do Escritório de Direitos Humanos da ONU, condena como imoral e ilegal. Ao se amarrarem à carruagem de um império em declínio moral, eles se afogam na mesma lama.

No Brasil, vemos o contágio dessa crise. Enquanto Ratinho Jr. celebra a “democracia” na Venezuela, a Casa Branca admite que a meta é o petróleo. As manifestações de apoio à intervenção são pequenas e restritas a Miami, enquanto protestos anti-EUA crescem na própria Venezuela. A direita bolsonarista, amarrada a essa narrativa incoerente, ignora os fatos e se alinha a um discurso que o mundo inteiro já percebeu como imoral.

Se a direita brasileira sempre foi meio entreguista, a postura de hoje passa de todos os limites. Não tem precedente. Mesmo a ditadura militar rechaçaria uma submissão tão explícita à agenda americana. Hoje, a direita brasileira adota uma subserviência que é, além de tudo, impopular. Pesquisas da Quaest e do Ipsos já mostravam a imagem negativa de Trump no Brasil, e como a oposição de Lula ao tarifaço de Trump aumentou a popularidade do presidente brasileiro.

O paradoxo se aprofunda quando olhamos para a base econômica dessa mesma direita: o agronegócio. Como pode um setor que depende vitalmente da China — para onde vão 80% da soja exportada pelo Brasil — apoiar um líder cuja principal agenda geopolítica é hostilizar Pequim? É um alinhamento estúpido e perigoso, que coloca os interesses de uma figura estrangeira acima dos interesses nacionais.

A intervenção na Venezuela se revela um erro estratégico colossal de Trump, corroendo o poder americano por dentro e isolando-o por fora. Para a direita brasileira, o alinhamento automático a esse projeto é um tiro no pé. Assim como a aliança com a ditadura militar fez a direita se esconder no armário depois da redemocratização por quase 30 anos, essa aliança com o imperialismo corrupto e moralmente infame de Donald Trump pode deixar a direita fora do páreo por uns bons 10 anos.

Em um ano eleitoral, a bandeira da soberania, que já beneficiou Lula quando houve o enfrentamento com Trump no caso do tarifaço, ganha uma força renovada. Ao se banharem na lama moral de Trump, os líderes da direita brasileira mancham sua reputação e arriscam ser engolidos por ela nas urnas, provando que o poder desprovido de virtude é, de fato, o caminho mais curto para a ruína.

, , , ,
Apoie o Cafezinho

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

Mais matérias deste colunista
Siga-nos no Siga-nos no Google News

Comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário

Escreva seu comentário

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!


Leia mais

Recentes

Recentes