Casa Branca afirma que várias opções são consideradas, incluindo uso das Forças Armadas para assumir controle da ilha, que é um território autônomo da Dinamarca.
A possibilidade de uma ação militar dos Estados Unidos para assumir o controle da Groenlândia foi colocada explicitamente em discussão pela Casa Branca nesta terça-feira (06/01). Em comunicado, a porta-voz presidencial Karoline Leavitt afirmou que o presidente Donald Trump e sua equipe estão analisando “diversas opções” para esse fim, e que “o uso das Forças Armadas americanas sempre é uma opção à disposição do comandante-chefe”.
A declaração oficial eleva dramaticamente o tom da crise diplomática iniciada no dia anterior, quando Trump reiterou seu interesse no território ártico. A Casa Branca justificou a medida como uma “prioridade de segurança nacional” vital para dissuadir adversários na região.
Ameaça explícita e divisão interna
A postura mais agressiva foi ecoada por um dos principais assessores de Trump. O vice-chefe de Gabinete, Stephen Miller, já havia questionado publicamente a legitimidade do controle dinamarquês: “Com que direito a Dinamarca exerce controle sobre a Groenlândia?”, indagou, acrescentando que “ninguém vai lutar militarmente contra os Estados Unidos pelo futuro da Groenlândia”.
No entanto, o próprio enviado especial de Trump para o território, Jeff Landry, apresentou uma narrativa contrastante em entrevista à CNBC. Landry defendeu a independência da ilha com acordos econômicos com Washington e descartou que o presidente queira tomá-la à força. “Acredito que o presidente apoie uma Groenlândia independente com vínculos econômicos e oportunidades comerciais para os Estados Unidos”, afirmou.
Reação da Dinamarca e o risco à OTAN
A ameaça militar direta provocou uma resposta firme da primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen. Em entrevista à TV2, ela alertou que um ataque dos EUA a um membro da Aliança Atlântica significaria o seu fim.
“Se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da OTAN, então tudo acaba. Isso inclui a nossa OTAN e com ela a segurança que é fornecida desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, declarou Frederiksen, classificando a situação como “grave”.
A Groenlândia é um território autônomo dinamarquês, e a Dinamarca é um membro fundador da OTAN, aliança militar cujo principal articulador e força militar são justamente os Estados Unidos. Um confronto entre os dois países rasgaria o princípio fundamental de defesa coletiva do Artigo 5º do tratado.
O que está em jogo: a corrida pelo Ártico
O interesse americano na maior ilha do mundo não é novo, mas a escalada retórica para o campo militar reflete a percepção de urgência estratégica. A região ártica, onde a Groenlândia está localizada, tornou-se um palco de competição global devido a:
- Rotas marítimas: o degelo abre novas passagens comerciais estratégicas.
- Recursos naturais: estimativas apontam para reservas significativas de petróleo, gás e minerais raros.
- Posicionamento militar: a presença garante monitoramento e projeção de poder contra rivais como Rússia e China, que têm aumentado suas atividades na região.
A abordagem de Washington, no entanto, parece bifurcada. Enquanto a Casa Branca e Miller flertam com a força, Landry e reportagens da imprensa americana sugerem que opções como a compra do território ou um acordo de livre associação – similar ao que os EUA têm com Porto Rico – também estão sobre a mesa.
A população local, no entanto, já deixou clara sua posição. Uma pesquisa de janeiro de 2025 mostrou que 85% dos groenlandeses se opõem à anexação pelos Estados Unidos. Com 57 mil habitantes em um território gigantesco, a ilha depende economicamente da pesca e de um substancial apoio anual da Dinamarca.
A crise coloca a comunidade transatlântica diante de um dilema sem precedentes: como reagir quando a maior ameaça à integridade territorial de um aliado vem de dentro da própria aliança que deveria protegê-lo. O desfecho deste impasse testará os limites da ordem internacional baseada em regras e a própria coesão do mundo ocidental.
Com informações do DW em 07/01/2026


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