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Influência de Trump nas eleições do Brasil pode gerar efeito oposto

“A interferência dos Estados Unidos na vida política brasileira não vai favorecer os partidos da direita, porque isto servirá como arma para o nacionalismo dos demais”, afirmou o especialista Erick Langer, professor de História na Universidade de Georgetown. O professor e historiador americano Erick Langer, da Universidade de Georgetown, afirmou à BBC News Brasil que, […]

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Andrew Caballero-Reynolds/AFP via Getty Images

“A interferência dos Estados Unidos na vida política brasileira não vai favorecer os partidos da direita, porque isto servirá como arma para o nacionalismo dos demais”, afirmou o especialista Erick Langer, professor de História na Universidade de Georgetown.

O professor e historiador americano Erick Langer, da Universidade de Georgetown, afirmou à BBC News Brasil que, após a intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, o presidente Donald Trump buscará “se meter” cada vez mais nos assuntos da América Latina — incluindo uma tentativa de influenciar as eleições presidenciais brasileiras de 2026. No entanto, sua análise sugere que essa interferência pode ter um efeito contrário ao desejado e, em vez de ajudar, prejudicar as forças de direita no país.

Langer avalia que o Brasil é o “grande contrapeso” contra as investidas de Trump no continente. “O único que é grande o suficiente para parar [Trump] e dizer ‘chega’ aos Estados Unidos é o Brasil”, disse.

A previsão do especialista se insere em um cenário de alta tensão geopolítica e de um calendário eleitoral carregado na América Latina, onde cinco países — Brasil, Colômbia, Peru, Costa Rica e Haiti — irão às urnas ainda em 2026. Analistas regionais apontam que o governo Trump tem atuado “em nível sem precedentes desde o final da Guerra Fria” para influenciar resultados eleitorais na região, como aconteceu nas eleições da Argentina e de Honduras em 2025.

A estratégia de Trump na Venezuela: “colônia econômica” e não democracia

Langer argumenta que a operação que levou ao sequestro de Nicolás Maduro teve menos a ver com a promoção da democracia e mais com a garantia de acesso a recursos estratégicos. “Foi bom que tiraram o ditador. Mas, em primeiro lugar, não há um plano para o retorno da democracia”, avalia. “Acho que o que [Trump] quer fazer é criar uma colônia econômica na Venezuela”.

Esta visão é compartilhada por outros analistas. O interesse americano recai claramente sobre as vastas reservas de petróleo pesado venezuelano, cruciais para a indústria de refino dos EUA. Para Trump, que enfrenta eleições de meio de mandato em novembro de 2026, baratear os combustíveis domésticos é uma prioridade política e econômica.

Langer acredita que o sequestro de Maduro contou com a conivência da cúpula chavista. “Acho que Delcy Rodríguez e Diosdado Cabello fizeram um acordo e traíram Maduro… para ficar com o poder”, afirmou. Em troca, Washington teria apoiado Rodríguez como presidente interina em detrimento da líder oposicionista María Corina Machado.

Esse movimento, segundo Langer e análises do jornal The New York Times citadas por outros especialistas, ocorreu porque Rodríguez foi vista como uma parceira mais confiável para defender os investimentos americanos no petróleo do que Machado, que, apesar de também ser favorável à abertura do mercado, possui um amplo respaldo popular que a tornaria menos manipulável.

Efeito dominó regional

A ação na Venezuela estabelece um precedente perigoso. Países como México e Colômbia, governados por presidentes de esquerda, já foram alvos de ameaças públicas de Trump. A estratégia, detalhada em documentos como o Project 2025, parece ser a de derrubar ou pressionar governantes de esquerda e influenciar as próximas eleições regionais para garantir aliados ideologicamente alinhados a Washington.

O Brasil na mira: Por que Trump tentaria interferir em 2026?

Para Langer, a visão de Trump sobre as relações hemisféricas é análoga a uma “esfera de poder”. “Já a Rússia pode fazer o que quiser [na disputa] pela Ucrânia, que os chineses tenham a Ásia e não tem problema, enquanto nós [dos EUA] ficamos com todo o hemisfério americano”, interpreta o historiador.

Neste contexto, o Brasil — a maior economia e democracia da América Latina — torna-se um prêmio geopolítico fundamental.

Ameaça econômica como pressão: em julho de 2025, o governo Trump impôs tarifas de 40% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros, justificando a medida com alegações de que políticas do governo Lula ameaçavam a segurança nacional e a economia dos EUA. Embora parte dessas tarifas tenha sido revertida após a reaproximação entre Lula e Trump, especialistas veem o episódio como um claro instrumento de pressão política e econômica que pode ser reativado.

Proximidade ideológica com a direita brasileira: Trump deixou explícito em documentos oficiais seu apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que é visto como um aliado ideológico. A condenação de Bolsonaro pelo sistema de Justiça brasileiro foi descrita pela Casa Branca como “perseguição política”. Membros da família Bolsonaro, como Eduardo Bolsonaro, têm se mobilizado para fortalecer laços com redes de direita nos Estados Unidos.

Precedentes regionais bem-sucedidos: a interferência eleitoral é uma tática já testada por Trump. Nas eleições legislativas argentinas de 2025, o republicano condicionou um pacote de ajuda de US$ 20 bilhões à vitória de aliados do presidente Javier Milei. Em Honduras, deu apoio público ao candidato de direita Nasry Asfura. Em ambos os casos, seus apoiados saíram vitoriosos.

A reação brasileira: alerta no Planalto e nacionalismo como resposta

O governo Lula monitora a situação com apreensão. Apesar da “boa química” pessoal descrita entre Lula e Trump, o Planalto avalia que o histórico recente do republicano eleva o risco de ingerência na corrida presidencial de 2026.

A intervenção na Venezuela acendeu um alerta estratégico. Internamente, a avaliação é que, com o avanço do calendário eleitoral, Washington pode passar a enxergar a disputa brasileira como uma escolha entre um projeto de autonomia (Lula) e outro mais aderente à sua agenda de segurança (a direita brasileira).

Por que a interferência pode sair pela culatra?

É aqui que entra a tese central de Langer: uma intervenção muito explícita de Trump pode ativar um sentimento nacionalista na população e nos competidores políticos, beneficiando indiretamente Lula.

“A interferência dos Estados Unidos na vida política brasileira não vai favorecer os partidos da direita, porque isto servirá como arma para o nacionalismo dos demais”, prevê o professor.

Consultorias políticas brasileiras também avaliam que discursos que sugerem alinhamento excessivo ou presença militar americana podem encontrar resistência no eleitorado. A narrativa crítica a sanções e interferências externas tende a ter boa ressonância, como visto na reação pública ao “tarifaço” de 2025.

O cenário eleitoral latino-americano em 2026

O Brasil não está isolado. A América Latina terá um ano eleitoral intenso, que testará a influência externa e a solidez das democracias locais

Um jogo de xadrez geopolítico de alto risco

A intervenção dos EUA na Venezuela não foi um episódio isolado, mas a primeira grande jogada em um tabuleiro geopolítico reconfigurado. A visão expressa pelo professor Erick Langer aponta para um ano de 2026 em que a sombra de Washington pairará sobre as eleições latino-americanas.

No entanto, diferentemente de nações menores ou mais instáveis, o Brasil apresenta uma complexidade institucional e um peso diplomático que tornam uma interferência indevida arriscada e potencialmente contraproducente. A aposta de Langer é que, no Brasil, o nacionalismo ainda é uma força poderosa e que tentativas explícitas de influência podem unir setores diversos em defesa da soberania, criando um efeito político oposto ao desejado por Washington.

O grande teste será se a política externa dos EUA, embalada pelo sucesso tático na Venezuela, conseguirá calibrar sua abordagem para lidar com a principal potência sul-americana sem desencadear uma reação que fortaleça justamente os setores que busca enfraquecer.

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