Influenciadores digitais relataram ter recebido propostas para publicar vídeos nas redes sociais com críticas à decisão do Banco Central do Brasil de decretar a liquidação do Banco Master, sob a narrativa de que a medida teria sido adotada de forma precipitada. As abordagens tinham como objetivo ampliar questionamentos à atuação da autoridade monetária a partir de um despacho do Tribunal de Contas da União (TCU) e envolveram perfis com grande alcance nas redes sociais.
A apuração foi publicada pelo jornal O Globo, em reportagem assinada pela colunista Malu Gaspar. Segundo a reportagem, os contatos se intensificaram após a divulgação, na sexta-feira (19), de uma matéria do portal Metrópoles que informou que o TCU identificou “indícios de precipitação” na liquidação do banco e concedeu prazo para que o Banco Central apresentasse esclarecimentos formais.
Abordagens a influenciadores alinhados à direita
Um dos influenciadores procurados foi Rony Gabriel, vereador pelo PL em Erechim (RS), que possui cerca de 1,4 milhão de seguidores nas redes sociais. De acordo com o relato, o contato ocorreu no sábado (20), por meio de mensagem enviada no Instagram por André Salvador, que se apresentou como representante da empresa UNLTD Brasil. A proposta consistia na publicação de vídeos que repercutissem o entendimento do TCU e levantassem dúvidas sobre a decisão do Banco Central.
Na mensagem encaminhada ao perfil do vereador, Salvador afirmou: “Estamos fazendo um trabalho de gerenciamento de crise para um executivo grande. E temos contratado perfis que se posicionam para nos ajudar nessa disputa política que estamos travando contra o sistema”. Em outro trecho, acrescentou: “É um caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda e centrão envolvidos”.
Segundo Rony Gabriel, os materiais enviados identificavam a iniciativa como “Projeto DV”, referência às iniciais de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. Em conversa telefônica com o assessor do vereador, Nathan Felipe, Salvador teria mencionado que o trabalho envolveria uma remuneração elevada, descrita como milionária, condicionada à assinatura de um contrato de confidencialidade para acesso a mais detalhes da estratégia.
Contrato de confidencialidade e reunião virtual
O acordo de confidencialidade foi assinado por Nathan Felipe no sábado (27). No mesmo dia, ele participou de uma reunião virtual com André Salvador. Durante o encontro, a reportagem do Metrópoles foi apresentada como exemplo do conteúdo a ser explorado nos vídeos, sempre com foco em lançar dúvidas sobre a atuação do Banco Central e sugerir que a liquidação teria ocorrido de forma apressada.
De acordo com o relato, Salvador também se ofereceu para receber o vereador e seu assessor em São Paulo, com o objetivo de alinhar o discurso e orientar a produção dos conteúdos que seriam divulgados nas redes sociais.
O contrato de confidencialidade previa multa de R$ 800 mil em caso de divulgação das informações e classificava como confidenciais as “estratégias de comunicação, narrativas, reputação, posicionamento e influência” relacionadas ao Projeto DV.
Outros influenciadores citados
Outra influenciadora mencionada na apuração é Juliana Moreira Leite, que se apresenta nas redes sociais como @jliemilk e também possui cerca de 1,4 milhão de seguidores. Segundo o relato, ela foi abordada por Junior Favoreto, do Portal Group Br, empresa especializada em agenciar influenciadores alinhados à direita, com proposta semelhante à feita ao vereador.
Além da reportagem do Metrópoles, os contatos incluíam exemplos de postagens de influenciadores que já estariam engajados no chamado Projeto DV. Entre os materiais enviados estava um vídeo publicado por Paulo Cardoso, do perfil @cardosomundo, que reúne aproximadamente 4,3 milhões de seguidores.
No vídeo divulgado na quinta-feira (18), logo após a publicação da matéria do Metrópoles, Cardoso afirmou: “Quando um órgão como o TCU entra no caso, é porque tem coisa muito errada. No despacho aparece uma palavra pesada: precipitação, ou seja, pressa”. Em seguida, acrescentou que bancos que crescem rapidamente “incomodam muita gente grande” e questionou por que teria sido escolhida a liquidação, classificada por ele como a medida mais extrema, em vez de outras alternativas.
Recusa e denúncia pública
Ao tomar conhecimento do teor completo da proposta, Rony Gabriel decidiu recusar a participação. Ele afirmou não ter sido informado do valor exato da remuneração, apenas que seria elevado. Na manhã de terça-feira (28), o vereador publicou um vídeo relatando a abordagem e encaminhou à imprensa os documentos recebidos da agência, incluindo o contrato de confidencialidade assinado por seu assessor.
A divulgação do caso ampliou a repercussão em torno da liquidação do Banco Master e reforçou a percepção de que a disputa extrapolou o campo técnico e jurídico, avançando para uma arena de comunicação digital e campanhas de influência.
Procurado pela coluna, Paulo Cardoso não se manifestou. O Banco Master também foi procurado para comentar os contatos relatados pelos influenciadores, mas não respondeu até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.
O episódio ocorre em um momento de forte sensibilidade institucional, com entidades do sistema financeiro e autoridades acompanhando atentamente os desdobramentos do processo de liquidação e eventuais tentativas de descredibilizar a atuação do regulador por meio de estratégias coordenadas nas redes sociais.


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