O interesse pelas maiores reservas de petróleo do mundo expõe a motivação econômica por trás da intervenção dos EUA na Venezuela
A madrugada do último sábado, 3, marcou um retrocesso histórico nas relações internacionais. O ataque militar norte-americano a Caracas e a captura do presidente Nicolás Maduro constituem não apenas uma violação flagrante do direito internacional, mas um perigoso retorno à lógica da força e da subjugação que acreditávamos superada. A declaração posterior do presidente Donald Trump, anunciando uma administração interina dos Estados Unidos sobre a Venezuela e a reivindicação de um “domínio americano” no hemisfério, confirma o pior: trata-se de uma operação de conquista.
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Em resposta direta à agressão, a vice-presidente Delcy Rodríguez convocou a população e as instituições venezuelanas à resistência. Seu pronunciamento, feito ao lado de altas autoridades civis e militares, foi um ato de afirmação soberana em meio ao caos. “A Venezuela nunca será colônia de nenhuma nação”, declarou, encapsulando o sentimento de uma nação sob ataque. A mensagem era clara: o governo constitucional, embora fisicamente atingido, permanece de pé e se recusa a capitular perante uma potência estrangeira.
Além disso, a postura de Rodríguez destaca um ponto crucial frequentemente ignorado: a complexidade política interna venezuelana. Enquanto Trump desdenha publicamente da opositora María Corina Machado, menciona a vice-presidente como uma interlocutora. Esse detalhe revela que a solução para a crise venezuelana, mesmo do ponto de vista de Washington, nunca poderia ser simplesmente imposta de fora, mas requereria um entendimento com setores do próprio chavismo.
A Doutrina Monroe em seu ápice beligerante
As justificativas apresentadas por Donald Trump são, na realidade, a peça-chave para entender a gravidade do momento. Ao invocar explicitamente a Doutrina Monroe e falar em “reafirmar o domínio americano”, o presidente dos EUA despejou qualquer verniz de legitimidade. Esta não é uma ação humanitária ou uma intervenção para restaurar a democracia; é a reivindicação aberta de um império sobre seu “quintal”.
A declaração sobre o petróleo venezuelano remove qualquer dúvida sobre os motivos reais. “Vamos fazer o petróleo fluir”, anunciou Trump, prometendo a entrada de petroleiras norte-americanas para “consertar” uma infraestrutura que, em suas palavras, foi “roubada” dos EUA. É a linguagem crua da pilhagem, disfarçada de gestão benevolente. A soberania sobre os recursos naturais é um pilar fundamental da autodeterminação dos povos, e sua expropriação por uma potência estrangeira é a essência do colonialismo moderno.
As consequências de um precedente perigoso
Este ataque estabelece um precedente catastrófico para a ordem global. Se um país pode, unilateralmente, invadir outro, sequestrar seu chefe de estado e anunciar a administração de seus recursos e instituições, a Carta das Nações Unidas e o princípio da não-intervenção tornam-se letra morta. O que impede que amanhã outro país, sob alegações igualmente vagas, repita o mesmo ato noutra região?
A comunidade internacional, em especial a América Latina, não pode se furtar a uma condenação unânime e vigorosa. O silêncio seria cumplicidade. A região conhece demasiado bem o peso da intervenção estrangeira e da submissão forçada. A solidariedade à Venezuela, neste momento, não é sobre apoiar um governo em particular, mas sobre defender um princípio universal: o direito de todos os povos a decidirem seu próprio destino, livre de bombas, ameaças e saque.
O caminho a seguir é o da soberania
A situação atual é extremamente grave, mas o caminho a seguir deve ser o do diálogo e do direito. A solução para os profundos problemas da Venezuela – que são reais e severos – jamais virá da ponta de um míssil ou da sede de uma corporação petroleira. Deve emergir de um processo político inclusivo e genuinamente venezuelano, respeitado pela comunidade internacional.
A imediata exigência é pelo retorno à legalidade internacional. Isto significa o fim da administração interina forçada, o respeito à integridade territorial venezuelana e o encaminhamento de quaisquer disputas aos fóruns multilaterais competentes. A soberania da Venezuela não é negociável. A verdadeira liberdade de um povo começa com o direito de ser dono de sua terra, de seu governo e de seu futuro. É este direito fundamental que hoje está sob fogo em Caracas, e é por ele que devemos todos nos levantar.


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