Um terço dos norte-americanos apoia ataque à Venezuela, mas maioria teme escalada militar dos EUA
Enquanto o mundo ainda tenta entender os desdobramentos da operação militar norte-americana em Caracas, uma nova pesquisa revela um país profundamente dividido. Um terço dos norte-americanos aprova o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, mas uma esmagadora maioria — 72% — expressa temor de que a Casa Branca se envolva demais no conflito sul-americano. Os dados são de um levantamento divulgado na segunda-feira (5) pela Reuters/Ipsos, realizado nos dias 3 e 4 de janeiro, em meio à intensa repercussão da captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro.
A operação, que aconteceu antes do amanhecer de sábado (3), levou forças norte-americanas a entrarem diretamente na capital venezuelana. O alvo era Maduro, acusado pelos EUA de tráfico de drogas. Ele foi capturado e entregue às autoridades federais americanas. A ação surpreendeu diplomatas, analistas e até aliados do presidente Donald Trump, que, em declarações posteriores, afirmou que os Estados Unidos passariam a “governar” a Venezuela — um giro radical em relação à sua postura anterior, que costumava criticar intervenções externas de governos anteriores.
Republicanos apoiam operação, mas também demonstram preocupação
A pesquisa evidencia uma clivagem partidária profunda. Entre republicanos, 65% apoiam a ofensiva militar. Já entre democratas, o índice cai drasticamente para 11%. Entre eleitores independentes, o apoio é de 23%. Esses números refletem não apenas divergências ideológicas, mas também visões distintas sobre o papel global dos EUA.
Curiosamente, mesmo entre os simpatizantes de Trump, há inquietação. Cerca de 54% dos republicanos temem que o envolvimento dos EUA na Venezuela vá além do desejável. Outros 54% também demonstram preocupação com os custos financeiros de uma possível ocupação prolongada. Mais ainda: 64% dos republicanos ouvidos disseram temer pela vida dos militares americanos caso a operação se intensifique.
Essa ambivalência sugere que, mesmo entre os apoiantes mais leais ao presidente, há limites claros para o uso da força no exterior — especialmente quando envolve riscos humanos e financeiros tangíveis.
Promessas de controle sobre o petróleo venezuelano geram controvérsia
Durante o fim de semana, Trump deu novas pistas sobre seus planos para a Venezuela. No sábado, sugeriu o envio de tropas terrestres. No domingo (4), foi além: afirmou que os EUA precisam de “acesso total” aos campos de petróleo venezuelanos e prometeu reformar todo o setor energético do país. A declaração reforça temores de que os interesses econômicos, mais do que a segurança regional, estejam por trás da ofensiva.
A pesquisa mostra que 59% dos republicanos defendem que os Estados Unidos assumam o controle direto sobre os campos petroleiros venezuelanos. Por outro lado, apenas 30% dos norte-americanos como um todo apoiam o envio de tropas terrestres — um sinal claro de que a população está longe de endossar uma intervenção de larga escala.
Trump, no entanto, parece disposto a avançar. “Se eles não se comportarem, faremos um segundo ataque”, afirmou em tom ameaçador. Ainda assim, não detalhou como pretende “governar” a Venezuela sem uma ocupação militar direta. Sugeriu, vagamente, que poderia usar pressão política sobre líderes locais — uma estratégia que até agora permanece nebulosa.
Aprovação de Trump sobe ligeiramente, mas contexto permanece volátil
Apesar da controvérsia internacional e dos riscos crescentes, a popularidade de Trump experimentou uma leve alta. Segundo a mesma pesquisa, seu índice de aprovação chegou a 42%, o melhor desde outubro de 2025. Em dezembro, estava em 39%. A margem de erro da pesquisa é de aproximadamente três pontos percentuais.
No entanto, especialistas alertam que qualquer ganho político pode ser efêmero. A opinião pública norte-americana, especialmente após décadas de guerras no Iraque e no Afeganistão, tende a reagir com ceticismo diante de novas intervenções militares — sobretudo quando o custo humano e financeiro está em jogo.
Enquanto isso, a Venezuela permanece em estado de choque. A comunidade internacional, incluindo países da América Latina e da União Europeia, condenou a operação como uma violação flagrante da soberania nacional. A ONU convocou uma reunião de emergência, mas até agora não há consenso sobre uma resposta coordenada.
O que está claro é que os Estados Unidos não só mudaram de rumo na política externa, mas também abriram uma nova e perigosa frente de instabilidade na América Latina — com consequências imprevisíveis para a região, para os militares envolvidos e para a própria democracia norte-americana.


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