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Lucro, política e petróleo travam a transição energética

O crescimento dos carros elétricos desacelera diante de ventos políticos contrários Após anos de expansão acelerada, o setor enfrenta obstáculos nos principais mercados devido a mudanças regulatórias e desafios de infraestrutura, testando o compromisso global com a transição energética. A transição para a mobilidade elétrica encontra um terreno mais acidentado. Após uma década de crescimento […]

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Crescimento dos carros elétricos entra em zona crítica
Decisões políticas travam avanço da mobilidade verde / Reprodução

O crescimento dos carros elétricos desacelera diante de ventos políticos contrários


Após anos de expansão acelerada, o setor enfrenta obstáculos nos principais mercados devido a mudanças regulatórias e desafios de infraestrutura, testando o compromisso global com a transição energética. A transição para a mobilidade elétrica encontra um terreno mais acidentado. Após uma década de crescimento vigoroso, as vendas globais de veículos elétricos preparam-se para o ritmo de expansão mais lento desde a pandemia. Este revés não resulta apenas de ciclos econômicos, mas principalmente de escolhas políticas e da dificuldade em construir infraestrutura adequada.

A empresa de pesquisa Benchmark Mineral Intelligence projeta um aumento de apenas 13% nas vendas globais em 2026. Este número contrasta fortemente com o crescimento de 22% estimado para o ano passado. Três fatores principais explicam esta desaceleração: a decisão dos EUA de eliminar incentivos, a flexibilização das regras europeias e a maturação do mercado chinês.

Os três motores globais perdem força simultaneamente

Cada grande mercado enfrenta seus próprios desafios. Nos Estados Unidos, as vendas devem cair significativamente. A projeção indica uma queda de 29%, para 1,1 milhão de unidades. Esta contração reflete diretamente a mudança na política federal. A eliminação dos incentivos fiscais desencoraja consumidores e desestabiliza os planos das montadoras.

Na Europa, o crescimento esperado é de 14%. Este número, embora positivo, representa uma forte desaceleração em relação ao aumento de 33% estimado para 2025. A flexibilização da proibição de carros a gasolina, originalmente prevista para 2035, envia um sinal ambíguo ao setor. Consequentemente, investimentos podem ser redirecionados ou adiados.

Leia também: O recuo da mobilidade verde e o peso das decisões políticas

A China, por sua vez, ainda deve crescer, mas em ritmo mais moderado. As vendas devem atingir 15,5 milhões de unidades. No entanto, este crescimento de dois dígitos mascara uma desaceleração importante. Nos cinco anos até 2025, o mercado chinês expandiu-se de forma explosiva, saltando de cerca de 1,1 milhão para mais de 13 milhões de veículos.

A reação das montadoras: uma retirada estratégica?

Diante deste cenário, as fabricantes estão ajustando suas estratégias de forma prática, e por vezes drástica. A Ford oferece um exemplo claro desta reavaliação. A empresa anunciou uma baixa contábil de US$ 19,5 bilhões após abandonar modelos elétricos icônicos, incluindo sua picape F-150 Lightning.

Jim Farley, CEO da Ford, expressou uma visão que ganha força no setor. Ele afirmou que os mercados dos EUA e Europa estão percebendo que “a eletrificação parcial é tão interessante quanto a eletrificação total”. Esta afirmação reflete um movimento tático em direção aos híbridos, vistos como uma ponte mais segura e lucrativa no curto prazo.

Farley chegou a prever uma queda na participação de mercado dos veículos totalmente elétricos nos EUA. Ela poderia recuar de cerca de 10% para apenas 5% no curto prazo. Este cenário revela a volatilidade de um setor ainda dependente de suporte regulatório e infraestrutural.

A liderança chinesa persiste em um contexto desafiador

Apesar da desaceleração, a China mantém sua posição central na corrida elétrica. A BYD consolidou seu domínio, substituindo a Tesla como a maior fabricante mundial de veículos elétricos em 2025. A empresa conquistou este posto através de uma combinação agressiva: modelos acessíveis, expansão internacional e forte apoio estatal.

O governo chinês, consciente da importância estratégica do setor, continua oferecendo suporte, ainda que de forma mais moderada. Recentemente, Pequim estendeu por mais um ano sua política de subsídios para troca de veículos. Além disso, investimentos contínuos em infraestrutura de recarga buscam sustentar a demanda interna.

A UBS projeta um crescimento de 8% no mercado chinês para 2026. Este ritmo, mais lento, reflete um amadurecimento natural e a redução gradual dos estímulos diretos. No entanto, a China continua sendo o laboratório e a força motriz da transição global.

O dilema europeu entre a ambição e a realidade

A Europa vive uma tensão particular. De um lado, existe um compromisso declarado com a descarbonização. Markus Haupt, diretor executivo da Cupra, resume esta visão: “Estamos convencidos de que o futuro é elétrico. Precisamos descarbonizar a mobilidade.”

Por outro lado, a realidade do consumidor e as pressões industriais impõem uma transição mais gradual. A infraestrutura de carregamento inadequada afasta muitos compradores dos veículos totalmente elétricos. Como resultado, os híbridos plug-in ganham popularidade como uma solução de compromisso.

Esta abordagem flexível, defendida por líderes como Haupt, sugere que a trajetória para o fim do motor de combustão será mais longa e complexa do que se imaginava. A transição tornou-se uma maratona, não mais um sprint.

O caminho à frente: adaptação e resiliência

A atual desaceleração não significa o fim da transição elétrica. Em vez disso, ela representa uma fase de consolidação e correção de rota. Os anos de crescimento explosivo mascararam desafios fundamentais: custos elevados, infraestrutura insuficiente e dependência de subsídios.

Agora, o setor deve enfrentar estas questões de frente. As montadoras precisam desenvolver veículos verdadeiramente competitivos em custo e conveniência. Os governos, por sua vez, devem garantir que os compromissos climáticos não sejam sacrificados no altar da conveniência política de curto prazo.

A transição energética é um projeto de gerações. Sua trajetória nunca seria linear. Os obstáculos atuais testam a seriedade do compromisso global com um futuro de baixo carbono. A resposta das indústrias e dos governos nos próximos meses definirá se esta desaceleração é um ponto de inflexão necessário ou um desvio perigoso.

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