Levado ao MDC Brooklyn, Maduro entra em um sistema prisional acusado de abusos, enquanto os EUA concentram em seu território julgamentos de líderes estrangeiro
Na noite de sábado, 3 de janeiro de 2026, uma multidão de venezuelanos exilados se reuniu nas calçadas ao redor do Centro de Detenção Metropolitano (MDC, na sigla em inglês) em Brooklyn, Nova York, para celebrar um momento histórico: a prisão de Nicolás Maduro. Muitos empunhavam bandeiras tricolores e entoavam palavras de alívio, enquanto aplaudiam a chegada do comboio policial que transportava o ex-presidente e sua esposa, Cilia Flores. Para muitos, era o ápice de anos de resistência contra um regime acusado de repressão, corrupção e colapso econômico.
O MDC Brooklyn não é qualquer cárcere. Localizado ao lado de um shopping center, em uma zona industrial à beira-mar com vista para a Estátua da Liberdade, o local já foi descrito como um “inferno na Terra” e uma “tragédia contínua”. Apesar da proximidade com um dos símbolos da liberdade, o presídio tem servido de cela temporária para figuras de peso — entre elas, o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por tráfico de centenas de toneladas de cocaína aos EUA. Hernández cumpria pena de 45 anos até ser perdoado por Donald Trump em dezembro de 2024.
Atualmente, também estão detidos ali Ismael “El Mayo” Zambada García, cofundador do cartel de Sinaloa, e Luigi Mangione, acusado do assassinato do CEO da UnitedHealthcare. No passado, o MDC já abrigou o magnata das criptomoedas Sam Bankman-Fried e Ghislaine Maxwell, cúmplice de Jeffrey Epstein.
Condições caóticas e tentativas de reforma
Durante anos, o presídio foi alvo de denúncias sobre violência, negligência e infraestrutura precária. Em 2024, dois detentos foram mortos por outros presos. Funcionários foram acusados de aceitar subornos e fornecer contrabandos. Um apagão no inverno de 2019 deixou presos no frio e no escuro por uma semana inteira.
Leia também: Sequestro e prisão nos EUA e o fim político de Maduro
Entretanto, o Bureau Federal de Prisões afirma ter realizado melhorias significativas desde então. Foram contratados novos agentes penitenciários e profissionais de saúde, resolvidos mais de 700 pedidos de manutenção pendentes, e modernizados sistemas elétricos, hidráulicos, de alimentação e climatização. Além disso, a população carcerária caiu de 1.580, em janeiro de 2024, para níveis mais gerenciáveis — um fator que, segundo a instituição, reduziu crimes e contrabandos internos.
Repressão e cooperação: rostos conhecidos que Maduro pode encontrar
Se mantido em regime semiaberto, Maduro poderá cruzar com rostos familiares. Entre eles está Hugo Carvajal, ex-chefe da inteligência venezuelana, que rompeu com o chavismo em 2019 e demonstrou disposição em colaborar com autoridades norte-americanas. Outro possível encontro é com Anderson Zambrano-Pacheco, suposto membro do violento grupo Tren de Aragua, preso em Nova York em 2025 por posse ilegal de armas. Zambrano foi filmado em Denver, Colorado, aterrorizando moradores de um condomínio — episódio que Donald Trump usou como argumento em sua campanha eleitoral.
A pressão sobre o MDC aumentou ainda mais após o fechamento, em 2021, do Metropolitan Correctional Center (MCC) de Nova York. O encerramento ocorreu depois que o suicídio de Jeffrey Epstein expôs falhas gritantes: segurança negligente, estrutura decadente e condições desumanas. Desde então, o MDC tornou-se o principal centro de detenção federal da cidade — e, agora, o cárcere de um dos governantes mais controversos da América Latina.
Embora muitos vejam a prisão de Maduro como um passo rumo à responsabilização por crimes contra a humanidade, outros alertam para os riscos de uma justiça seletiva. Afinal, a detenção de um chefe de Estado eleito — ainda que por meios questionáveis — levanta questões complexas sobre soberania, imperialismo e o papel dos EUA no cenário global. Enquanto isso, nas ruas de Brooklyn, venezuelanos exilados seguem celebrando. Para eles, não se trata apenas de punição — mas de esperança renovada.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!