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Remover um líder não significa controlar um país

A prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos revela que remover um líder não significa controlar um país com estruturas políticas e militares profundamente enraizadas A captura do presidente Nicolás Maduro gerou celebrações precipitadas em Washington. Contudo, o colapso imediato do governo não se materializou. Na verdade, o mundo testemunha agora um fenômeno mais complexo. […]

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O erro de Washington ao achar que a prisão mudaria a Venezuela
A queda do líder não derruba a engrenagem do poder venezuelano / Reprodução

A prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos revela que remover um líder não significa controlar um país com estruturas políticas e militares profundamente enraizadas


A captura do presidente Nicolás Maduro gerou celebrações precipitadas em Washington. Contudo, o colapso imediato do governo não se materializou. Na verdade, o mundo testemunha agora um fenômeno mais complexo. A estrutura de poder venezuelana nunca dependeu verdadeiramente de um único homem. Assim, a remoção de sua face mais visível simplesmente expôs um intrincado xadrez de forças.

Consequentemente, instituições militares, econômicas e de inteligência seguem operando com firmeza. Desta forma, o país permanece em um limbo de profundas incertezas, enquanto a verdadeira engrenagem do regime demonstra sua resiliência.

A sucessão constitucional e o teatro de unidade

Primeiramente, a constituição venezuelana estabelece um caminho claro. Na ausência do presidente, a vice-presidente deve assumir o cargo. Seguindo este rito, o supremo tribunal emitiu a ordem formal. Portanto, Delcy Rodríguez tornou-se presidente interina. Inicialmente, especulou-se sobre um possível acordo com Washington. No entanto, qualquer esperança de transição pacífica foi imediatamente dissipada pelas imagens da televisão estatal.

Leia também: O erro de Washington ao achar que a prisão mudaria a Venezuela

Na verdade, Delcy Rodríguez não apareceu sozinha. Ela estava estrategicamente flanqueada pelo núcleo duro do chavismo. Estavam presentes seu irmão, Jorge Rodríguez, o temido ministro Diosdado Cabello e o ministro da defesa, Vladimir Padrino López.

A mensagem transmitida foi única e contundente. “A Venezuela só tem um presidente: Nicolás Maduro”, declarou Delcy, classificando a captura como um sequestro. Desse modo, o círculo de ferro fechou fileiras publicamente. Esta demonstração de coesão frustra, pelo menos inicialmente, os planos externos por uma mudança de regime rápida e ordenada.

A oposição ignorada e a vontade popular esquecida

Paralelamente, Washington parece fechar os olhos para a liderança democrática interna. Notavelmente, o presidente Trump descartou publicamente qualquer colaboração com Maria Corina Machado, ganhadora do prêmio Nobel da paz. Ele alegou, de forma simplista, que ela “não tem apoio”. Esta afirmação, porém, ignora um fato histórico crucial.

Vale recordar que Machado foi ilegalmente impedida de concorrer em 2024. Além disso, observadores internacionais atestaram que seu candidato substituto venceu as eleições presidenciais por ampla margem. O resultado, contudo, foi anulado pelo aparato de Maduro. Portanto, a decisão de desconsiderar esta liderança legitimada pelas urnas levanta questões sérias.

Quais são, de fato, os reais interesses geopolíticos por trás da intervenção?

Aparentemente, a autodeterminação do povo venezuelano parece ser um detalhe secundário.

O verdadeiro poder: Inteligência, terror e controle ideológico

Para entender a resiliência do regime, é necessário olhar para as sombras. Analistas concordam: o poder real reside nas agências de inteligência dedicadas a esmagar a dissidência. Relatórios detalhados das Nações Unidas documentam crimes contra a humanidade. Órgãos como o SEBIN (civil) e a DGCIM (militar) utilizam tortura e abusos sistemáticos como ferramentas de controle.

“Eles querem que você se sinta como uma barata em uma jaula de elefantes”, testemunhou um ex-agente, descrevendo o terror institucionalizado. No centro desta rede opressora está Diosdado Cabello. Ele é amplamente visto como o elemento mais ideológico e imprevisível. Cabello comanda pessoalmente agências de contraespionagem. Além disso, mantém laços estreitos com os colectivos, grupos paramilitares. Sua recente aparição em trajes de combate, ordenando ação contra “terroristas”, sinaliza uma disposição clara para a resistência armada e o aprofundamento do conflito.

Os generais gestores e a economia da lealdade

Outro pilar intocável é a cúpula militar. A Venezuela possui um número extraordinário de aproximadamente 2.000 generais e almirantes. Este número é mais que o dobro do existente nos Estados Unidos. Eles não são meramente comandantes. São, sobretudo, gestores de um vasto império econômico. Eles controlam diretamente a estatal petrolífera PDVSA, a distribuição de alimentos e rotas estratégicas de matérias-primas.

Sua lealdade, portanto, é cuidadosamente comprada com benefícios que transcendem a hierarquia formal. Investigadores e desertores revelam que muitos oficiais lucram pessoalmente com o comércio ilícito e rotas de contrabando. “Há entre 20 e 50 oficiais das forças armadas que precisam ser afastados, provavelmente até mais, para que esse regime seja completamente removido”, estima um advogado que representa ex-integrantes da cúpula.

Após a captura de Maduro, alguns generais buscaram acordos com autoridades americanas. No entanto, figuras centrais como Cabello não demonstram qualquer interesse em negociar, pois seu poder permanece intacto.

Em resumo, o futuro da Venezuela permanece perigosamente suspenso. De um lado, observamos a intervenção audaciosa de uma potência estrangeira. De outro, confrontamos a resistência feroz de uma estrutura forjada em décadas de autoritarismo e privilégios. Esta estrutura, acima de tudo, aprendeu a sobreviver e a prosperar mesmo sem seu principal rostro público.

A população, portanto, vive um dilema angustiante entre a esperança e o medo. A esperança por uma mudança há muito aguardada. O medo tangível de mais violência e instabilidade profunda. O próximo movimento neste jogo de poder geopolítico está por vir. Até agora, porém, as vozes que menos são ouvidas em meio a esta disputa são justamente as do povo venezuelano, cujo sofrimento e vontade política continuam sendo a grande variável ignorada.

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Rhyan de Meira

Rhyan de Meira é jornalista, escreve sobre política, economia, é apaixonado por samba e faz a cobertura do carnaval carioca. Instagram: @rhyandemeira

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