A posição firme da Espanha contra a intervenção dos EUA na Venezuela destaca um princípio esquecido: a soberania não é uma concessão, mas um direito fundamental
Em um momento de grave ruptura da ordem internacional, a voz do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, surge com uma clareza necessária. Ao declarar que a Espanha não reconhecerá uma intervenção norte-americana que viole o direito internacional, Sánchez não toma partido de um governo, mas sim da lei que deve reger as nações. Sua declaração é um chamado crucial à moderação e ao multilateralismo, erguendo um dique de diplomacia contra a maré de unilateralismo que ameaça inundar a América Latina.
Pedro Sánchez foi explícito em sua mensagem na rede social X. A Espanha, que já havia recusado reconhecimento ao governo de Nicolás Maduro em seu período de crise política, agora recusa com igual firmeza o ato de força que o removeu. Este equilíbrio é fundamental. Ele demonstra que a rejeição a um governo não pode, sob nenhuma hipótese, justificar sua deposição por uma invasão militar estrangeira.
Além disso, Sánchez apela diretamente ao respeito pela Carta das Nações Unidas e por uma transição justa e dialogada. Seu foco na população civil venezuelana redireciona o centro do debate. A questão deixa de ser um confronto entre personalidades políticas para se tornar uma defesa do povo, que inevitavelmente sofre as consequências mais duras da beligerância. Esta posição coloca a Espanha, e por extensão a União Europeia, em um terreno de princípios que transcende alinhamentos momentâneos.
A invasão em detalhes: um espetáculo de poder avassalador
As declarações do general Daniel Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, descrevem uma operação de escala e precisão cinematográficas. A “Operação Resolução Absoluta” mobilizou 150 aeronaves de 20 bases diferentes, em uma demonstração de poderio que o próprio general admitiu só os Estados Unidos poderiam executar. A narrativa minuciosa sobre a vigilância a Maduro – detalhando seus hábitos, deslocamentos e até seus animais de estimação – tem um objetivo claro: normalizar a ideia de que um estado estrangeiro pode tratar o líder soberano de outro país como um alvo a ser eliminado.
No entanto, por trás da linguagem técnica e do triunfalismo, a operação revela sua natureza essencial. O secretário de Defesa, Peter Hegseth, completou o quadro com um tom ameaçador, comparando Maduro ao Irã e alertando que “passou do limite”. Esta retórica transforma uma complexa crise política regional em uma narrura simplista de bem contra o mal, justificando a ação extrema como uma consequência inevitável. A mensagem subliminar para outros países é tão clara quanto perigosa.
O perigo real do precedente estabelecido
Portanto, a intervenção vai muito além da Venezuela. Ela estabelece um manual de ação para futuras ingerências. Se um país pode, baseado em suas próprias leis e avaliações, invadir outro, sequestrar seus líderes e anunciar um governo interino, o conceito de soberania nacional torna-se obsoleto. O anúncio de Donald Trump sobre administrar a Venezuela até uma “transição segura” soa, na prática, como a instalação de um protetorado.
Este precedente ameaça especialmente nações com recursos estratégicos ou governos que desafiem a hegemonia política e econômica de Washington. A justificativa pode variar – combate ao narcotráfico, promoção da democracia, segurança regional –, mas o modus operandi mostra-se replicável. A comunidade internacional deve enxergar esta ação não como um caso isolado, mas como um teste dos limites da soberania no século XXI.
O caminho a seguir exige coragem diplomática
Assim, a postura da Espanha deve servir de exemplo e chamado à ação. Países ao redor do mundo, em especial os latino-americanos, precisam unir-se em uma condenação firme e unânime desta violação. A solução para os problemas internos da Venezuela não pode nascer de uma explosão em Caracas, mas de um processo político genuíno, livre de coerção militar externa.
O apelo de Sánchez por uma transição dialogante aponta o único caminho legítimo. A comunidade internacional deve trabalhar para criar as condições desse diálogo, assegurando que a vontade do povo venezuelano seja a força motriz de seu futuro. Defender a soberania da Venezuela hoje não é um ato de apoio a um homem ou a um partido. É, sim, a defesa do princípio de que todos os povos, sem exceção, têm o direito inalienável de decidir seu próprio destino. Este é o verdadeiro “horizonte de certeza” que devemos buscar, longe da sombra das bombas e da lógica colonial do poder absoluto.


Natailia
07/01/2026 - 08h54
Desses “precedentes” tem muitos e a soberania nao existe em ditaduras.
As ditaduras acabam com armas e nada mais caso contrario nao seriam ditaduras.