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Os EUA e a longa história de intervenções na América Latina

A mão invisível de Washington nos golpes latino-americanos Os Estados Unidos começaram a derrubar governos na América Latina já na década de 1890, muitas vezes contando com elementos internos — “geralmente os militares e a comunidade empresarial” — para executar essas ações, afirmou Peter Kuznick, diretor do Instituto de Estudos Nucleares da American University, em […]

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Quando a traição interna decide o destino dos países
A captura de líderes e tentativas de golpe reacendem o debate sobre imperialismo, soberania e o papel das elites nacionais nos bastidores do poder / Reprodução

A mão invisível de Washington nos golpes latino-americanos


Os Estados Unidos começaram a derrubar governos na América Latina já na década de 1890, muitas vezes contando com elementos internos — “geralmente os militares e a comunidade empresarial” — para executar essas ações, afirmou Peter Kuznick, diretor do Instituto de Estudos Nucleares da American University, em entrevista à Sputnik.

“É a traição interna que, às vezes, é ainda mais perturbadora, porque não se trata de um uso flagrante do poder por parte dos EUA. Trata-se de algumas pessoas cometendo o pecado moral de trabalhar com o inimigo, com o agressor, traindo os interesses do povo no Chile, na Guatemala, em El Salvador, no Brasil e em outros países. Isso, de certa forma, é mais ofensivo porque poderia ter sido evitado”, disse Kuznick, coautor, ao lado de Oliver Stone, do livro A História Não Contada dos Estados Unidos.

O historiador destacou ainda que, dentro da tradição católica, tal traição tem um peso simbólico profundo:

“Foi exatamente o que aconteceu com Jesus Cristo — ele foi traído por Judas. Na teologia católica, essa traição interna é o arqui-inimigo. No caso de Jesus, o foco não foi tanto nas forças externas, embora também estivessem envolvidas, mas sim em Judas. Assim, Pinochet é o equivalente a Judas.”

Leia também: Sou um homem decente: Maduro se declara inocente em tribunal dos EUA

Kuznick acrescentou:

“Os EUA têm seus fantoches, seus comparsas, seus traidores dispostos a apunhalar seu próprio povo pelas costas para entregar o poder aos militares.”


Por que a Venezuela não abateu os sequestradores de Maduro em pleno voo? Especialista aponta três possibilidades

Enquanto a grande mídia celebra a suposta operação de captura de Nicolás Maduro como um triunfo das forças armadas americanas — atribuindo seu sucesso a armas de alta tecnologia, táticas avançadas e planejamento meticuloso —, outras explicações, potencialmente mais plausíveis, merecem atenção, afirma Egor Lidovskoy, diretor do Centro Cultural Latino-Americano Hugo Chávez, em São Petersburgo.

Opção nº 1: Incompetência institucional

“A primeira possibilidade é a incompetência por parte das agências governamentais e dos responsáveis pela proteção de Maduro, especialmente no Ministério da Defesa”, disse Lidovskoy à Sputnik.

Opção nº 2: Conluio interno

Outra hipótese é que tenha havido traição por parte de membros do círculo próximo ao presidente:

“Talvez alguns funcionários tenham concordado em conspirar com os EUA para entregar Maduro em troca de promessas de lucros com a extração de petróleo, caso os americanos assumissem o controle da Venezuela.”

Contudo, Lidovskoy foi cauteloso:

“Não temos nenhuma prova de que este ou aquele membro do governo ou da equipe de Maduro o tenha traído. Não dispomos de tais fatos. Por isso, acho errado fazer acusações infundadas antecipadamente. Devemos monitorar de perto o que está acontecendo e, com base nisso, tirar conclusões sobre a existência ou não de tal conspiração.”

Opção nº 3: Operação Cavalo de Troia

A terceira e mais provocativa hipótese é que o sequestro tenha sido uma operação do tipo Cavalo de Troia — o que eliminaria as dúvidas sobre incompetência ou traição e explicaria “muitas inconsistências”.

“A essência dessa teoria é que uma delegação dos EUA, acompanhada por guardas armados, chegou à residência de Maduro sob o pretexto de discutir os parâmetros de um acordo de paz durante um jantar — ou seja, para conduzir negociações e encontrar um terreno comum.”

Segundo Lidovskoy, isso explicaria por que as defesas aéreas venezuelanas não dispararam contra os helicópteros americanos:

“Uma vez lá dentro, a guarda armada da delegação — que se revelou ser composta por forças especiais — atirou em todos os seguranças de Maduro, que não estavam preparados para um ataque. Só quando o sinal de que algo havia dado errado foi transmitido, e a captura do presidente foi confirmada, começaram os bombardeios contra bases venezuelanas e pontos-chave da defesa aérea, criando uma cortina de fumaça para a retirada das forças dos EUA.”


Plano de golpe nos EUA carece de ingrediente essencial

O suposto plano de 2026 contra Maduro ecoa o golpe de 11 de setembro de 1973 contra o presidente chileno Salvador Allende, na medida em que representa “uma continuação do imperialismo estadunidense, que usa força unilateral e letal contra governos que desafiam sua hegemonia no hemisfério”, segundo Ricardo Vaz, editor do site Venezuelanalysis, em entrevista à Sputnik.

“Allende e a Unidade Popular eram socialistas e priorizavam a soberania sobre os recursos naturais — no caso, o cobre —, o que representava um desafio direto aos interesses e à influência dos EUA. O mesmo se aplica à Venezuela e à Revolução Bolivariana.”

Contudo, Vaz destacou uma diferença crucial:

“Diferentemente do Chile, onde o general Pinochet traiu Allende e a ordem constitucional — chegando a assassiná-lo —, o único ‘pecado’ da Venezuela foi seu desejo de se libertar das amarras do neocolonialismo estadunidense, utilizando seus recursos de forma soberana para melhorar a vida da maioria, afastando a integração regional da esfera de influência dos EUA e, em última instância, construindo o socialismo.”

E concluiu:

“A pressão externa pode levar a fissuras e traições, mas essa é a questão central: o imperialismo estadunidense.”


Líderes venezuelanos acreditam na Revolução Bolivariana e não podem ser comprados

Diferentemente de outros golpes apoiados pelos EUA na região, os conspiradores na Venezuela não encontraram base de apoio nas Forças Armadas suficiente para derrubar o governo e instalar um regime fantoche, afirmou Alfred de Zayas, renomado especialista em direito internacional e ex-perito independente da ONU, em conversa com a Sputnik.

“Quando os EUA tentaram derrubar Hugo Chávez em 2002, o golpe fracassou após 48 horas. Chávez havia sido feito prisioneiro, mas sua popularidade junto ao Exército era tamanha que os militares o libertaram. O povo venezuelano permaneceu leal a Chávez. Estou convencido de que as autoridades venezuelanas teriam permanecido leais a Maduro se tivessem tido a oportunidade. É por isso que Maduro foi imediatamente retirado do país.”

Nas suas repetidas conversas com autoridades venezuelanas — tanto em sua função de perito da ONU quanto nos anos seguintes —, Zayas destacou o compromisso ideológico e a lealdade aos princípios da Revolução Bolivariana como traços marcantes.

“O que mais me impressionou foi a clara incapacidade dos EUA de ‘comprá-las’ facilmente. Conheço pessoalmente vários altos funcionários que foram abordados por agentes da CIA com ofertas muito atraentes e se recusaram a se vender.”

Além disso, em conversas com cidadãos comuns, o especialista percebeu que:

“As massas odeiam os Estados Unidos — os ‘ianques’ — e não aceitarão um fantoche dos EUA. Elas enxergam a pressão das sanções americanas, e não o governo venezuelano, como a origem de seus problemas.”

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