PF abre inquérito para apurar campanha de influenciadores contra o BC após liquidação do Master

A Polícia Federal vai instaurar um inquérito para investigar a possível contratação de influenciadores digitais com o objetivo de atacar o Banco Central e defender o Banco Master, instituição que teve a liquidação decretada pela autoridade monetária. A abertura da apuração foi confirmada pelo diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e tem como foco esclarecer se houve pagamento, coordenação e estratégia organizada nas ações realizadas nas redes sociais. As informações foram divulgadas pelo portal G1.

A iniciativa ocorre após relatos públicos de influenciadores que afirmaram ter recebido propostas para difundir uma narrativa crítica à decisão do Banco Central. Segundo esses relatos, a estratégia envolveria a publicação de vídeos e conteúdos destinados a questionar a atuação do regulador, sugerindo precipitação na liquidação do banco e reforçando argumentos favoráveis à instituição financeira.

Relatos de influenciadores e suspeita de coordenação

Na mesma semana em que a suspeita ganhou repercussão, influenciadores alinhados à direita tornaram público que teriam sido procurados para impulsionar conteúdos com esse teor em seus perfis. Entre eles estão Rony Gabriel e Juliana Moreira Leite, que relataram abordagens com o objetivo de ampliar o alcance de críticas à decisão do Banco Central. De acordo com as informações divulgadas, a narrativa sugerida buscava questionar a rapidez da medida adotada e levantar dúvidas sobre a condução do processo de liquidação.

A apuração ganhou força após a identificação, pela GloboNews, de publicações semelhantes feitas por outros influenciadores no mesmo período. Somados, esses perfis alcançam mais de 36 milhões de seguidores apenas no Instagram, o que ampliou a suspeita de uma possível campanha coordenada, com potencial impacto sobre a percepção pública da atuação do Banco Central.

Defesa do banco e posição do setor financeiro

Procurada, a defesa do Banco Master afirmou não ter conhecimento sobre qualquer contratação de influenciadores com o objetivo de difamar o Banco Central. Apesar da negativa, a Polícia Federal pretende apurar se houve vínculo direto ou indireto entre os responsáveis pelas postagens e pessoas ou empresas interessadas no desfecho do processo de liquidação.

O episódio também motivou manifestação da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Em nota, a entidade informou que identificou, no fim de dezembro, um “volume atípico” de postagens com menções à federação e a seus representantes, relacionadas ao noticiário sobre a liquidação de uma instituição financeira. Segundo a Febraban, está em análise se esse pico de publicações caracteriza ou não um ataque coordenado, e o volume já teria apresentado redução nos dias seguintes.

O que a PF vai investigar

De acordo com integrantes da Polícia Federal, o inquérito buscará identificar quem idealizou e financiou as ações, se houve contratos formais ou informais, e se existiu coordenação entre os influenciadores para a divulgação de mensagens semelhantes em um curto espaço de tempo. A apuração também deverá analisar mensagens, documentos e eventuais pagamentos para verificar se a atuação nas redes configurou tentativa de desestabilização institucional ou ataque organizado à autoridade monetária.

Além do novo inquérito, a Polícia Federal dará continuidade às investigações sobre possíveis fraudes praticadas pelo Banco Master antes de sua liquidação. A expectativa é de que novos depoimentos sejam colhidos ainda neste mês de janeiro para aprofundar as apurações sobre a gestão da instituição e as operações realizadas no período anterior à intervenção do Banco Central.

Investigações paralelas e desdobramentos no STF

As apurações envolvendo o banco também avançam no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF). Estão previstos novos depoimentos de ex-diretores do Banco Master e do Banco de Brasília (BRB), que devem ocorrer após a acareação realizada no Supremo entre Daniel Vorcaro, proprietário do banco liquidado, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB.

A condução dessa acareação, determinada pelo ministro Dias Toffoli, relator do inquérito no STF, foi alvo de críticas de juristas, que apontaram a realização do procedimento antes da tomada de depoimentos formais no curso da investigação. Apesar das críticas, a Polícia Federal segue analisando documentos, celulares e computadores apreendidos durante a operação “Compliance Zero”, deflagrada em novembro do ano passado.

Na ocasião, Daniel Vorcaro e outros dirigentes do Banco Master chegaram a ser presos, mas foram liberados posteriormente mediante a imposição de medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica. A corporação avalia que já existem indícios concretos de irregularidades bancárias e pretende consolidar as provas para esclarecer responsabilidades.

Impacto institucional

O caso ocorre em um contexto de atenção redobrada à credibilidade das instituições financeiras e dos órgãos reguladores. Para investigadores e representantes do setor, a eventual comprovação de uma campanha organizada para atacar o Banco Central pode representar um precedente relevante sobre o uso das redes sociais para pressionar ou deslegitimar decisões técnicas. A conclusão do inquérito deverá indicar se as ações configuraram exercício legítimo de opinião ou se ultrapassaram os limites legais, com coordenação e financiamento destinados a influenciar o debate público em favor de interesses privados.

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